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Como o leilão de petróleo ameaça baleias, pesca e turismo de Abrolhos

Area de proteção ambiental marinha de Abrolhos na costa do sul da Bahia  - Rubens Cavallari/Folhapress
Area de proteção ambiental marinha de Abrolhos na costa do sul da Bahia Imagem: Rubens Cavallari/Folhapress
do UOL

Wanderley Preite Sobrinho

Do UOL, em São Paulo

09/10/2019 16h20Atualizada em 09/10/2019 18h35

Resumo da notícia

  • Será realizado novo leilão para exploração de petróleo nesta quinta
  • 4 dos blocos em jogo estão em Abrolhos (BA)
  • Local abriga maior biodiversidade marinha do Brasil

Em meio ao misterioso vazamento de petróleo que afeta o litoral do Nordeste, a ANP (Agência Nacional de Petróleo) realiza amanhã, às 9h, um novo leilão de exploração de petróleo, incluindo quatro blocos próximos ao arquipélago de Abrolhos, no litoral sul da Bahia, lar da maior biodiversidade marinha do Brasil.

De acordo com ambientalistas, a prospecção do combustível fóssil na região ameaça o maior banco de recifes de corais do Atlântico Sul, põe em risco a maior produção pesqueira da Bahia, a reprodução de baleias jubarte e o turismo no arquipélago.

Levantamento da biodiversidade do Banco de Abrolhos publicado em 2006 pela Conservação Internacional contabiliza 1.300 espécies, 45 delas ameaçadas.

Ilha de Santa Bárbara pertencente ao arquipélago de Abrolhos, região sul da Bahia - Lúcio Távora/ BA Press
Ilha de Santa Bárbara pertencente ao arquipélago de Abrolhos, região sul da Bahia
Imagem: Lúcio Távora/ BA Press
Além do risco de vazamento em uma região considerada de "Extrema Importância Biológica", segundo o Ministério do Meio Ambiente, o tráfego de embarcações e a infraestrutura portuária na região devem atrair espécies exóticas que atacam os corais nativos ao se dispersar por meio das plataformas de petróleo.

Esse banco de corais gigante é fonte de alimento para centenas de espécies de peixes e lagostas, tornando a região uma das mais importantes para a indústria pesqueira brasileira. Segundo o ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade), a atividade na região movimenta R$ 100 milhões ao ano, 10% de toda a receita com o setor no Brasil.

Doutora em oceanografia pela USP, Marília Previero lembra em sua tese sobre Abrolhos que o pescado capturado no arquipélago é consumido em grandes cidades, como Vitória, Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo, sustentando uma cadeia extensa de produção que seria afetada.

"Cerca de 20 mil pessoas dependem diretamente dos recursos marinhos produzidos nos mangues e estuários", diz Jaime Gesisky, especialista em políticas públicas do WWF-Brasil.

Além disso, os recifes de corais desempenham o mesmo papel das florestas ao absorver o carbono da atmosfera. Essas empresas vão comprometer a vida marinha, aumentar o aquecimento global e devolver para a sociedade combustível e plástico
Jaime Gesiski, especialista em Políticas Públicas do WWF-Brasil

O turismo na região, que movimenta 20% do PIB (Produto Interno Bruto) nos municípios da Costa das Baleias, também sofrerá as consequências: só no ano passado, o parque recebeu 6.403 visitantes, segundo a ICMBio.

Baleias jubarte se reproduzem em Abrolhos

Os turistas são atraídos principalmente para observar o maior sítio de concentração de baleias jubarte em toda a costa do Brasil. Todos os anos "um grupo imenso" de baleias jubarte sobe da Antártida para se reproduzir justamente em abrolhos.

"Com as baleias se movimentam por sons, elas ficam desorientadas com a prospecção de petróleo, que utiliza instrumentos que produzem ondas sonoras", diz Gesiski.

Previero, da USP, defende em sua tese que os impactos de um vazamento de óleo na região requerem simulações com base em estudos sobre a mobilidade dos peixes, mapeamentos das áreas de ocorrência e desova das espécies. "São necessários estudos longos, profundos", sustenta.

Essa é justamente a recomendação dos técnicos do Ibama, para quem a oferta dos blocos para exploração deveria ser precedida por estudos de caráter estratégico.

Mas a proposta foi rejeitada pelo atual presidente do Ibama, Eduardo Bim. Junto com o diretor-geral da ANP, Décio Oddone, ele autorizou a continuidade do leilão.

"Estamos acompanhando o acidente com petróleo na costa nordestina. Acho que esse fato serve de alerta para Abrolhos", lembra Gesisky. "A costa brasileira é muito pouco vigiada, a contenção e acidentes como esse demora muito. Vazamento é grave em qualquer lugar do mundo. Imagina um impacto disso em um dos maiores berçários de vida no mundo. Será que vale a pena?"

Em 2010, a explosão de uma plataforma da britânica British Petroleum no Golfo do México provocou o vazamento de 750 milhões de litros de petróleo no mar. A mancha se espalhou por 1,7 mil quilômetros de praias em um vazamento que ficou conhecido como o maior desastre ambiental dos Estados Unidos.

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