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Bom negócio ou golpe? Como detectar 'furadas' em anúncios de carros usados

Comprar um bom carro usado pode ser uma tarefa bem complicada; é preciso ter frieza para não fazer mau negócio - Juca Varella/Folha Imagem
Comprar um bom carro usado pode ser uma tarefa bem complicada; é preciso ter frieza para não fazer mau negócio
Imagem: Juca Varella/Folha Imagem
Felipe Carvalho

Felipe Carvalho é administrador de empresas, consultor e primeiro "caçador de carros" profissional do país. Seu canal no YouTube dedicado a avaliações de achados automotivos tem mais de 100 mil inscritos. www.youtube.com/CarrosdoPortuga

do UOL

Colaboração para o UOL

12/09/2019 04h00

Depois de alguns anos intermediando compras de carros usados, me parece fácil avaliar se um carro é bom ou ruim. Certamente é algo que acontece com qualquer profissional quando tem o domínio da área em que trabalha. Mas sei que, em um simples vacilo, posso confiar demais na minha capacidade e esquecer de algum detalhe. Por isso, continuo seguindo friamente o passo a passo que criei quando comecei na profissão de Caçador de Carros.

Já para quem não vivencia isso com frequência, comprar um bom carro usado pode ser uma tarefa bem complicada. Você precisa de muito conhecimento técnico e frieza para não fazer um mau negócio. Por mais que eu enumere vantagens de um usado em relação a um novo, sempre existirão aqueles que só vão querer saber do zero quilômetro. E um dos motivos é justamente o medo de não saber diferenciar um bom usado de um mau.

De qualquer forma, não estou aqui para convencer as pessoas a pensarem como eu. Até porque o mercado de usados só existe por alguém ter comprado um 0 km. Mas admito que gosto de ajudar quem está pensando em abrir mão desse conceito.

Na coluna dessa semana, quero mostrar como identificar um anúncio suspeito - aquele com o qual nem é preciso perder tempo indo avaliar o carro.
Desvendar um anúncio para decidir se ele vale ou não uma visita, é um dos maiores desafios da profissão.

Priorizo sempre a originalidade do veículo e anúncios bem escritos, nos quais o vendedor descreve o automóvel com honestidade, sem omitir detalhes e histórico. Infelizmente, não faltam anúncios suspeitos, que geralmente são acompanhados de algo milagroso.

Atente para os seis pontos abaixo:

O carro que você busca está muito barato? Desconfie, pois a oferta pode ser uma "roubada" - Eduardo Knapp/Folhapress
O carro que você busca está muito barato? Desconfie, pois a oferta pode ser uma "roubada"
Imagem: Eduardo Knapp/Folhapress

Preço

Muitos clientes já me pediram para que eu avaliasse um carro que parecia ser o melhor negócio do mundo. Mas bastava ver o preço para saber que havia algo errado.

A questão é simples: você venderia seu carro por um valor muito abaixo do praticado no mercado? Lembro de um pedido para avaliar uma Ford Pampa no interior de São Paulo, anunciada por R$ 5 mil. Uma velha e cansada Ford Pampa até pode valer isso, mas o carro em questão era digno de repousar em qualquer coleção de carros antigos do Brasil. Num mercado de carro antigos inflacionados, essa Pampa tinha pinta de valer umas quatro vezes esse valor. Na certa era um golpista anunciando o veículo.

Em casos de carros mais "comuns", do dia a dia, um preço muito baixo pode indicar que o automóvel tem algum histórico negativo - leilão, sinistro ou documentação atrasada, por exemplo - ou então um grande problema mecânico.

Eu diria que apenas carros tidos como ruins de mercado podem ser anunciados com preços abaixo da média, pois são casos nos quais o dono precisa dar um bom desconto para tentar se desfazer do modelo.

Na dúvida, basta comparar com o preço de outro carro igual, na mesma versão, ano e com quilometragens parecidas.

Outra situação curiosa - e aí eu incluo quem quer um zero km - é a dos anúncios de carros novos com preços muito abaixo dos praticados pelas concessionárias.

Quem não quer um carro novo com preço de um usado? Mas isso não existe! Já tive a curiosidade de entrar em contato com algumas dessas pessoas, e a negociação é bem difícil de entender. Dizem trabalhar dentro das fábricas e que por isso conseguem desconto. O detalhe é que pedem ao comprador em potencial que pague antes de ver o carro. Você arriscaria seu dinheiro nisso?

Fotos

No exemplo da Pampa acima, eu nem perdi tempo indo avaliar o carro. Sei que estava em ótimo estado de conservação por causa das fotos do anúncio, com riquezas de detalhes de um carro imaculado, ou como costumamos dizer, "zerado". Além disso, por navegar bastante em classificados de carros especiais, eu reconheci as fotos como sendo de um famoso anunciante da internet. Ou seja, o golpista copiou as fotos desse anunciante e fez outro com o preço bem mais atrativo, na esperança de enganar alguém.

Em outros casos, as imagens são copiadas de fotos de divulgação daquele carro. Até dá para enganar, mas os mais atentos vão perceber que a qualidade das fotos é bem superior, tal como num material publicitário, além de detalhes que não fazem sentido num carro usado, como a ausência de placas.

Confira o manual do proprietário para saber se todas as revisões obrigatórias foram feitas - Simon Plestenjak/Folha Imagem
Confira o manual do proprietário para saber se todas as revisões obrigatórias foram feitas
Imagem: Simon Plestenjak/Folha Imagem

Garantia

Ainda no exemplo da Pampa, dá para acreditar que o anúncio dizia que o carro tinha garantia de seis meses? Pelo código de defesa do consumidor, lojas e concessionárias são obrigadas a dar garantia de 90 dias num carro usado. Mais do que isso, só se a empresa quiser oferecer como um diferencial que atesta ainda mais a qualidade do que está vendendo.

Em grandes grupos de concessionárias, é plausível acreditar nisso. Mas no anúncio de uma pequena picape dos anos 80 de uma loja do interior de São Paulo, é óbvio que não é verídico. Quem aguentaria assumir os custos de possíveis falhas mecânicas de um carro com 30 anos durante 6 meses? Pedindo R$ 5 mil pelo carro, nem margem de lucro existe para isso.

Enfim, não dá para acreditar em promessas que não fazem sentido com a realidade do mercado.

Descrição

Confirme as descrições que estão no anúncio. As mais utilizadas, que nem sempre condizem com a verdade, são as informações de "único dono" e "todas as revisões feitas em concessionária". Algumas vezes isso é verdade, mas na maioria delas é conversa para se destacar de outros anúncios. Para confirmar a autenticidade, basta consultar o documento do carro e os carimbos das revisões no Manual do Proprietário.

Nesse caso, o golpe não é tão grave como o de alguém que recebe o dinheiro e some, mas não deixa de ser informações erradas para enganar o comprador.

Quem está vendendo o carro precisa estar disponível para atender ligações e contatos de pessoas interessadas - Jyn Meyer/Sxc
Quem está vendendo o carro precisa estar disponível para atender ligações e contatos de pessoas interessadas
Imagem: Jyn Meyer/Sxc

Contato

Quem quer vender precisa ter disponibilidade, ao menos, para atender uma ligação telefônica ou responder a uma mensagem. Claro que isso não precisa acontecer durante as 24 horas do dia. Mas também não dá para aceitar dias sem nenhuma posição do vendedor. Muitas vezes o telefone anunciado não existe, ou então só cai na caixa postal, forçando a comunicação por e-mail. É para suspeitar da credibilidade do negócio.

Jamais pague de forma adiantada sem ter visto o carro nem o vendedor do veículo pessoalmente - Franklin de Freitas/Folhapress - 20.01.2010
Jamais pague de forma adiantada sem ter visto o carro nem o vendedor do veículo pessoalmente
Imagem: Franklin de Freitas/Folhapress - 20.01.2010

Sinal

Deixei por último um golpe bem comum, que infelizmente faz muitas vítimas e dói bastante no bolso. Tenho certeza que o leitor conhece alguém que depositou um sinal para comprar um carro e depois nunca mais conseguiu falar com o vendedor. Pedir esse adiantamento é uma prática comum na venda de carros, sejam eles novos ou usados.

Jamais faça isso! Você pode discordar de qualquer uma das minhas opiniões, mas aceite esse conselho. Escuto vários casos de pessoas que fazem isso a milhares de quilômetros de distância. Por exemplo, uma pessoa do Nordeste que está negociando um carro aqui de São Paulo e deposita um sinal, sem nem ao menos ter visto o carro ou o vendedor pessoalmente, apenas por uma conversa de telefone.

As exceções são em casos em que se está lidando com uma empresa ou alguém que você conheça.

Vale ressaltar que as dicas acima significam apenas os primeiros passos de uma possível (boa) negociação. Depois desta etapa vem a avaliação pessoal, na qual é preciso observar uma série de outros detalhes.

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