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CV planejou saques, ataques e resgates em meio a protestos de junho de 2013

17.jun.2013 - Manifestantes protestam no centro do Rio de Janeiro contra o reajuste da tarifa de ônibus na cidade e os gastos com a Copa - Marcelo Carnaval / Agência O Globo
17.jun.2013 - Manifestantes protestam no centro do Rio de Janeiro contra o reajuste da tarifa de ônibus na cidade e os gastos com a Copa
Imagem: Marcelo Carnaval / Agência O Globo
do UOL

Wellington Ramalhoso

Do UOL, em São Paulo

11/09/2019 04h01

Em meio aos grandes protestos que sacudiram o Brasil em junho de 2013, a facção criminosa Comando Vermelho planejou saques, ataques a forças de segurança e o resgate de presos no Rio de Janeiro. Isto é o que indicam memorandos do Setor de Inteligência da Polícia Federal divulgados pela Fiquem Sabendo, agência de dados independente e especializada na Lei de Acesso à Informação.

Procurada pela reportagem, a Polícia Federal não confirmou se as ações foram realizadas. Os documentos tornados públicos agora dão a entender que os criminosos chegaram a praticar saques.

"Traficantes da facção CV (Comando Vermelho) estão se infiltrando nas manifestações para a prática de crimes, sobretudo saques, algo que teria ocorrido inclusive na última que ocorreu no Centro do Rio de Janeiro, no período noturno", informava um memorando do setor de inteligência da corporação elaborado em 19 de junho daquele ano.

"Traficantes do Morro Da Providência (Centro/RJ) teriam se infiltrado na manifestação no Centro do Rio de Janeiro em 17 de junho de 2013 e potencializado o vandalismo promovido pelos manifestantes mais exaltados", afirma o documento assinado por um delegado.

"Traficantes do Querosene, Morro do Feijão e Menino de Deus, todos dominados pelo CV e localizados no município de São Gonçalo, teriam se infiltrado nas manifestações ocorridas ontem, dia 18 de junho, para saquear estabelecimentos".

Protestos e futebol mobilizavam o policiamento

A inteligência da Polícia Federal emitiu ao menos outros quatro alertas sobre ações do crime organizado do Rio de Janeiro durante junho de 2013.

Desde o começo daquele ano, a corporação monitorava potenciais riscos à organização da Copa das Confederações, torneio entre seleções de futebol disputado no país entre 15 e 30 de junho de 2013.

Dias antes da abertura da competição, surgiram as manifestações contra o aumento das tarifas de transporte público em São Paulo. Depois de serem reprimidos pela Polícia Militar, os protestos ganharam força e se espalharam pelo país, misturando reivindicações.

É neste contexto que a Polícia Federal passou a detectar intenções do Comando Vermelho de tirar proveito da situação no Rio.

Com o policiamento voltado às manifestações e à segurança da Copa das Confederações, os criminosos teriam planejado ações como ataques e resgate de presos, além dos saques relatados acima.

Plano de resgate

O primeiro dos memorandos do Setor de Inteligência, datado de 14 de junho, citava um plano para resgatar presos.

"Integrantes da facção criminosa Comando Vermelho (CV) estariam planejando resgatar presos mantidos sob custódia na Cadeia Pública Romeiro Neto (SEAPRN), localizada no Município de Magé, Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Esse plano de resgate seria executado no próximo final de semana, entre os dias 15 e 16 de junho de 2013", dizia o documento.

O delegado responsável pelo memorando acrescentava que, para realizar a ação, "os criminosos estariam solicitando armas" a um traficante foragido em comunidades dominadas pelo Comando Vermelho na região de São Gonçalo, na região metropolitana do Rio, e que as datas previstas para os resgates coincidiam com os primeiros jogos do torneio internacional de futebol.

13.jun.2013 - Manifestantes ocupam escadas do Palácio Tiradentes, sede da Assembleia Legislativa do Rio - Fabio Teixeira/UOL
13.jun.2013 - Manifestantes ocupam escadas do Palácio Tiradentes, sede da Assembleia Legislativa do Rio
Imagem: Fabio Teixeira/UOL

Planos de ataques a forças de segurança

Um memorando de 19 de junho de 2013 mencionava possíveis ataques a forças de segurança.

"Um grupo de traficantes ligados ao Comando Vermelho (CV), empolgado com a repercussão gerada pelas recentes manifestações promovidas por estudantes, estaria se articulando no sentido de promover ataques a batalhões, delegacias de policia e Unidades de Policia Pacificadora no Rio de Janeiro, os quais seriam realizados possivelmente ao mesmo tempo, no mesmo dia e horário, durante a Copa das Confederações ou durante outro grande evento, com o objetivo de pressionar o governo", afirmava o delegado.

"Há aproximadamente uma semana, a aludida organização criminosa estaria se preparando para tais ataques, mediante a aquisição de armas, munições e granadas".

No dia seguinte, a cidade de São Gonçalo voltou a ser citada pela inteligência policial. "Criminosos ligados à facção Comando Vermelho (CV), integrantes do Morro da Coruja, poderiam promover ataques a delegacias e a viaturas no município de São Gonçalo".

No dia 21, houve mais uma referência a possíveis ataques de criminosos, mas desta vez o Comando Vermelho não foi citado.

"Traficantes de drogas estariam planejando ataques pela cidade durante a realização da Copa das Confederações. Segundo tais informes, os eventos criminosos seriam deflagrados em regiões com baixa cobertura de tropas policiais, tendo em vista a grande movimentação de soldados para as áreas de grandes manifestações, como Centro e Maracanã", afirmava o delegado, destacando que as suspeitas eram baseadas em "dados não confirmados oriundos de fontes humanas".

"Ainda de acordo com tais informes, seriam merecedoras de atenção especial as regiões margeadas pela avenida Brasil, avenida Governador Carlos Lacerda (Linha Amarela) e avenida Presidente João Goulart (Linha Vermelha)", relatava o delegado federal.

13.jun.2013 - Manifestação contra aumento da tarifa de transporte terminou em violência após repressão policial na região da Candelária, no centro do Rio - Douglas Viana/Futura Press
13.jun.2013 - Manifestação contra aumento da tarifa de transporte terminou em violência após repressão policial na região da Candelária, no centro do Rio
Imagem: Douglas Viana/Futura Press

Sistemas de transporte também teriam estado na mira

Nos dias seguintes, houve mais dois memorandos mencionando possíveis ataques a meios de transportes público do Rio, mas sem referência ao crime organizado.

Em 26 de junho, o setor de inteligência da Polícia Federal alertava para a possibilidade de um possível ato de manifestantes contra "os serviços de transporte do Metrô e da Supervia [empresa concessionária que administra a rede ferroviária no Rio]".

No dia 3 de julho, mês em que a Jornada Mundial da Juventude, evento da Igreja Católica, foi realizada no Rio, a inteligência informou sobre um plano de "ação contra os coletivos utilizados no sistema BRT que circulam no corredor Transoeste, ligando Barra da Tijuca a Santa Cruz, na zona oeste".

O plano seria uma reação à medida da Prefeitura do Rio de apreender veículos irregulares de transporte. "Ainda que não se possa precisar o tipo de ação, dados coletados indicam que seriam ataques com incêndios nos coletivos do BRT. Foram captados indícios de que esta ação seria desencadeada como represália às ações de fiscalização conduzidas pela Prefeitura do Rio naquela área".

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