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Imprevisibilidade da política externa dos EUA deve continuar após saída de Bolton, diz especialista

11/09/2019 07h23

Os pontos de discórdia entre os dois homens eram frequentes. Finalmente o presidente norte-americano, Donald Trump, decidiu anunciar, como costuma fazer, através de um tuíte: "Informei John Bolton que não tínhamos mais necessidade de seus serviços na Casa Branca". Foi o terceiro assessor de segurança nacional demitido em dois anos e meio.

Os pontos de discórdia entre os dois homens eram frequentes. Finalmente o presidente norte-americano, Donald Trump, decidiu anunciar, como costuma fazer, através de um tuíte: "Informei John Bolton que não tínhamos mais necessidade de seus serviços na Casa Branca". Foi o terceiro assessor de segurança nacional demitido em dois anos e meio.

Do correspondente da RFI em San Francisco, Éric de Salve

Uma demissão no mais puro estilo Trump: intempestivo, violento e espetacular. "Não concordávamos em muitos assuntos", explicou o presidente. Já John Bolton apresentou uma versão diferente dos fatos, deixando entender que teria sido ele mesmo quem pediu demissão.

Mais um nome que deixa o gabinete Trump, reforçando a impressão de caos no alto escalão do governo americano, num clima diplomático tenso e incerto.

Após várias semanas, Washington envia sinais contraditórios, principalmente sobre o dossiê iraniano, entre rigidez e abertura para discussões. A saída de Bolton também acontece 48 horas após cancelamento de um encontro secreto com os talibãs.

Esses são alguns dos pontos mais importantes de discórdia de Trump com o conselheiro de segurança nacional. Vale acrescentar que Bolton também era hostil à política de mão estendida em direção ao líder norte coreano Kim Jong-un.

Atacar antes, discutir depois

Para seus inimigos, John Bolton era um demente. Um nacionalista apaixonado pela América com uma única ideia na cabeça: restaurar a grandeza dos Estados Unidos por todos os meios, incluindo por meio de armas. Seu método é simples: é preciso eliminar todos os Estados criminosos que possam ameaçar Washington.

Há anos Bolton vinha defendendo ataques militares preventivos contra a Venezuela e Coreia do Norte. Atacar antes para discutir depois. Como em 2003, quando George Bush Júnior começou a guerra no Iraque. Na época, Bolton já estava na Casa Branca. Ele sonha em derrubar Saddam Hussein, mesmo sendo necessário inventar armas de destruição massiva que não existem.

Belicoso demais para Trump

Bolton se define como « pró-americano ». « Somos a única chance do mundo livre. Só há uma estratégia: defender nossos direitos a qualquer preço".

Para Bolton, não há nada pior do que as instituições internacionais, a ONU, a Corte Penal internacional, a Europa, os tratados multilaterais, o acordo sobre as intenções nucelares do Irã, o fim do embargo a Cuba... Ultra conservador, reacionário, armamentista. Uma carta de visita radical demais para Donald Trump, que se separa de Bolt após um ano e meio.

Entrevistado pela RFI, o pesquisador Corentin Sellin diz que Bolton já estava sendo colocado de escanteio. "Na semana passada, por exemplo, apesar da oposição do assessor, Trump decidiu sozinho e anunciou o cancelamento de diálogos secretos com o Talibã no Afeganistão. Essa demissão vai trazer uma mudança? Não. Penso que vamos continuar dentro desta imprevisibilidade da política exterior e defesa do governo Trump, que está cada vez mais ligada aos impulsos incontroláveis do presidente", comenta.

Mas essa é a primeira vez que Trump vê sua decisão ser contestada por alguém que demitiu, lembra o especialista em Estados Unidos. "Bolton, por Twitter, respondeu e contestou ontem o presidente: uma afronta a Trump e uma situação nova. Isso mostra que essa política exterior reduzida aos impulsos de um presidente está chegando a seu limite", avalia Sellin.

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