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Quem é John Bolton, assessor de segurança nacional demitido por Trump

Emily Michot/Miami Herald/Associated Press
Imagem: Emily Michot/Miami Herald/Associated Press

Ricardo Senra

BBC News Brasil em Washington

10/09/2019 14h09

Conselheiro, que era um dos mais fortes nomes do governo americano, foi o primeiro a se reunir com Jair Bolsonaro, no final de 2018.

Um dos principais nomes do governo de Donald Trump foi demitido nesta terça-feira (10/9).

John Bolton, conselheiro nacional de segurança do presidente dos EUA, deixará o governo em meio a relatos de discordância em torno de um plano (já cancelado) de convidar o grupo radical afegão Talebã para um encontro em solo americano.

A demissão do membro do círculo de conselheiros próximos foi anunciada pelo próprio Trump pelo Twitter. "Informei a John Bolton na noite passada que seus serviços não são mais necessários na Casa Branca. Eu discordei veementemente de muitas de suas sugestões, assim como outros no governo, e portanto pedi sua renúncia, que ele me concedeu nesta manhã. Agradeço muito por seu trabalho. Nomearei um novo conselheiro de segurança nacional na semana que vem", afirmou o presidente americano.

Bolton se opunha a negociações de paz com o Talebã, grupo convidado por Trump para dialogar. O plano, abandonado no último final de semana, foi alvo de críticas sobretudo por causa do timing: a proximidade com o aniversário dos atentados de 11 de setembro de 2001, realizados pela Al-Qaeda, organização extremista que o Talebã permitiu operar no Afeganistão.

Bolton foi o terceiro conselheiro de Trump na função, depois de Michael Flynn e HR McMaster.

Um ex-funcionário sênior do governo disse à BBC, em condição de anonimato, que Bolton "operava separadamente em relação à Casa Branca", sem comparecer a reuniões.

Segundo a publicação Foreign Policy, Bolton se opunha à visita do Talebã também porque receber um grupo considerado radical "abriria um terrível precedente", em sua opinião.

Isso alimentou uma já crescente discordância com o secretário de Estado, Mike Pompeo, que defendia a reunião com o grupo afegão.

"Se você vai negociar a paz, tem muitas vezes de lidar com agentes do mal", defendeu Pompeo em entrevista à rede ABC.

Bolton também chegou a ser embaixador temporário dos EUA nas Nações Unidas (abandonou o posto quando percebeu que não teria sua nomeação ratificada pelo Senado americano) e ocupou cargos nos últimos três governos conduzidos por políticos republicanos, desde a gestão de Ronald Reagan (1981-1989).

A maioria dos postos foi nos departamentos de Justiça e de Estado (este último, o equivalente americano ao Ministério das Relações Exteriores).

É um árduo defensor do direito ao porte de armas por cidadãos comuns - Bolton é ligado à NRA (Associação Nacional do Fuzil, principal grupo de lobby pró-armas dos EUA), onde comandou o Subcomitê de Assuntos Internacionais em 2011.

No primeiro semestre de 2018, após assumir o cargo no governo Trump, um vídeo gravado em 2013 veio à tona e ganhou manchetes nos EUA. No filme, patrocinado pela NRA, Bolton pede que a Rússia garanta o porte de armas em sua Constituição, como acontece nos EUA.

"Isso criaria uma parceria entre o governo nacional russo e seus cidadãos, que poderiam proteger melhor mães, crianças e famílias sem comprometer a integridade do Estado russo", afirmou.

Encontro com Bolsonaro

Bolton esteve no Brasil em novembro passado para um encontro com Jair Bolsonaro, na época presidente eleito do Brasil. Foi a primeira autoridade americana com quem Bolsonaro se encontrou, e a portas fechadas.

Pouco antes da visita, Bolton classificou o governo do brasileiro como uma "oportunidade histórica".

"O encontro com o presidente eleito Bolsonaro surgiu como resultado da ligação do presidente Trump na noite das eleições no Brasil para parabenizar o presidente eleito. O telefonema foi realmente excelente. Acho que criou um relacionamento pessoal, mesmo de forma remota. O presidente Trump foi o primeiro líder estrangeiro a telefonar ao presidente eleito Bolsonaro", afirmou.

O então assessor de segurança nacional continuou: "Então, pensamos que seria bom e certamente muito útil para os EUA ouvirem do presidente eleito quais são suas prioridades e o que ele está procurando no relacionamento. Do nosso ponto de vista, vemos isso como uma oportunidade histórica para o Brasil e os Estados Unidos trabalharem juntos em uma série de áreas: economia, segurança e várias outras."

Militarismo e guerras

Bolton é conhecido especialmente por sua linguagem diplomática heterodoxa: já defendeu o "fim da Coreia do Norte" e foi chamado pelo país, em resposta, de "sanguessuga", e teceu críticas à ONU.

O presidente dos EUA, Donald Trump - Reuters
O presidente dos EUA, Donald Trump
Imagem: Reuters

"O prédio do Secretariado (da ONU) em Nova York tem 38 andares. Se perdesse 10, não faria diferença alguma. As Nações Unidas são uma das organizações intergovernamentais mais ineficientes em atividade (...) Não existe isso de Nações Unidas", declarou em 1994, na que seria por anos sua frase mais conhecida.

Mais tarde, em 1º de novembro do ano passado, outra frase ganhou protagonismo.

"A 'troika da tirania', esse triângulo de terror que se estende de Havana (Cuba), a Caracas (Venezuela) e a Manágua (Nicarágua), é a causa do imenso sofrimento humano, motivo de enorme instabilidade regional e a origem de um sórdido berço do comunismo no hemisfério ocidental", afirmou Bolton em discurso em Miami.

"Os Estados Unidos estão ansiosos para ver cada vértice deste triângulo cair. A troika vai desmoronar."

Os comentários mostravam a sintonia entre o emissário do governo americano e o presidente brasileiro - que disse durante a campanha que a ONU "não serve para nada" e constantemente critica os governos de esquerda dos países vizinhos latino-americanos, a quem classifica como "ditaduras corruptas e assassinas".

Bolton foi um dos principais articuladores da invasão americana no Iraque, durante o governo de George W. Bush, sob o argumento de que o então regime de Saddan Hussein mantinha um programa secreto de armas de destruição em massa.

Em 2005, porém, dois anos após o ataque, um relatório divulgado pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) desmentiu a informação.

O Irã também esteve entre os alvos preferidos do então assessor de Trump, que defendeu bombardeios americanos contra o país islâmico em 2008 e em 2015, enquanto o então presidente Barack Obama costurava um acordo de paz entre os dois países - desfeito neste ano por Trump.

Durante a Assembleia Geral da ONU, em Nova York, Bolton ameaçou o governo do aiatolá Ali Khamenei sobre "sérias consequências" caso o país desafiasse os EUA - aspas descritas como as mais agressivas da diplomacia americana contra o Irã "em décadas".

A postura diplomática de Bolton fica clara em seu livro de memórias, publicado em 2007.

Em Surrender is nota an option (A rendição não é uma opção, em tradução livre), ele defende que organizações multilaterais como a ONU vão além de reger relações entre países e interferem na soberania nacional.

Ativistas de esquerda "incapazes de vencer uma luta justa dentro do sistema de governo representativo agora buscam fóruns internacionais para discutir suas posições", diz a publicação.

Errata: o texto foi atualizado
Diferentemente do informado, o Irã não é um país árabe, e sim islâmico. A informação foi corrigida.

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