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A enorme dívida da Itália volta a preocupar os europeus

Arthur Sullivan (md)

22/08/2019 13h30

Um partido que prega a saída da UE pode estar às vésperas de assumir o poder da terceira maior economia da zona do euro. Em tempos de Brexit e guerra comercial entre EUA e China, mais uma crise tira do sono da UE.Com o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, tendo aparentemente programado um Brexit sem acordo para 31 de outubro deste ano, o próximo Halloween europeu provavelmente será mais assustador do que o habitual.

Mas há uma história ainda mais assombrosa assustando os eurocratas em 2019. Ela vem da Itália e se chama minibot. O que soa como um termo de robótica ou de um futuro distópico é o nome informal dado a uma "moeda paralela" que muitos integrantes da Liga – partido de extrema direita de Matteo Salvini – querem colocar em circulação na Itália.

A ideia por trás desses minibots (literalmente, minibônus do tesouro, em referência ao BOT, sigla de "Bônus Ordinários do Tesouro") é que eles podem ser emitidos em pequenos valores e usados pelo governo italiano para pagar parte da montanha da dívida que tem com comerciantes e fornecedores.

Se os minibots vão entrar em circulação ou não, é algo ainda a ser decidido. Mas vários economistas e analistas italianos dizem que a proposta pode servir como um trampolim no caminho para uma moeda alternativa na Itália.

O partido de Salvini, até recentemente parte de uma frágil coligação com o esquerdista Movimento 5 Estrelas, pressiona por novas eleições neste ano, que acredita poder ganhar com folga.

O líder populista não fez segredo de seu desejo de que a Itália deixe a zona do euro um dia. O atual caos político na Itália e a perspectiva de um governo majoritário da Liga tem grande significado para o resto da União Europeia – muito mais significados do que os atuais paroxismos em torno do Brexit.

Por que a Itália é importante?

Há uma linha famosa na peça Macbeth, de Shakespeare, quando o louco rei escocês diz ao rival do que ele foi mais alertado: "Entre todos os homens, te evitei".

Isso resume precisamente o que os decanos financeiros da zona do euro se sentiram há muito tempo sobre a Itália, mesmo durante a longa noite da crise da dívida grega, nos primeiros anos desta década. Por pior que tenha sido, nada provoca mais arrepios em Bruxelas do que o pensamento de uma crise da dívida italiana.

A maioria dos governos ao redor do mundo deve uma fortuna. Mas a montanha da dívida italiana é capaz de provocar vergonha alheia em outros grandes devedores. A dívida pública da Itália chega a 2,3 trilhões de dólares (2,07 trilhões de euros). Isso é cerca de 133% do seu PIB – um índice que está entre os cinco maiores do mundo.

Embora a maior parte da dívida esteja em bancos de Roma e Milão, bancos europeus estão severamente expostos caso algo dê errado. Instituições bancárias francesas são credoras de 285 bilhões de euros, de acordo com levantamento da rede Bloomberg, enquanto bancos alemães, espanhóis, britânicos e belgas também têm motivo de preocupação.

Ainda que as projeções do governo italiano vejam a dívida pública caindo para o patamar de 120% do PIB na próxima década, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OECD) previu recentemente que ela crescerá nesse período por causa de taxas de crescimento lentas, entre outras coisas.

De fato, um conflito iminente que pode colocar ainda mais pimenta nessa mistura é a perspectiva de a UE lançar um procedimento disciplinar contra Roma por quebrar as regras do bloco em relação à dívida pública e ao déficit orçamentário.

Como a terceira maior economia da zona do euro e uma das 10 maiores do mundo, a economia italiana sempre vai ter um impacto na economia europeia. Mas, dada a medida em que os bancos europeus estão vinculados à dívida italiana, esta conexão é mais forte do que deveria.

Durante os anos da crise financeira global, entre 2007 e 2008, vários bancos entraram em colapso. Quando grandes bancos entram em colapso, isso tem o potencial de infectar todo o sistema financeiro.

Um elemento particularmente devastador disso é o chamado "doom loop". É um processo em que bancos e governos estão tão entrelaçados que o endividamento de um país pode levar a dúvidas sobre sua capacidade de pagar suas dívidas – levando, por sua vez, ao caos bancário.

Mas se os bancos italianos ainda não entraram em colapso, por que deveriam entrar em colapso? Afinal, a enorme dívida pública na Itália não é novidade.

A resposta simples é política. A perspectiva de a Itália ser governada por um partido que prega ativamente a saída da zona do euro, e mesmo da UE, só ficou cada vez palpável após a crise entre a Liga e o Movimento 5 Estrelas.

O debate sobre os minibots, por mais sério que seja, alimenta essa perspectiva. Riccardo Puglisi, economista da Universidade de Pavia, disse ao Financial Times há algumas semanas que a proposta é "uma maneira de facilitar a saída da Itália da zona do euro".

Se a Itália tentar deixar a zona do euro nos próximos anos, esta só pode vir a ser uma partida desordenada, caso tal partida seja mesmo possível. Embora esse seja um cenário bastante extremo e hipotético, uma saída desordenada do euro poderia aumentar a possibilidade de a Itália dar calote numa dívida de bilhões de euros.

Daí surge o espectro do que seria o maior calote da história da economia.

As consequências para uma Europa numa era econômica já sacudida pelo Brexit, a guerra comercial entre EUA e China e os efeitos de longo prezo da crise da dívida grega é algo até mesmo difícil de imaginar.

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Autor: Arthur Sullivan (md)

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