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Queimadas na Amazônia: Percentual em agosto é o maior já medido pelo Inpe

Foco de incêndio na Floresta Amazônia em São Félix do Xingu, no Pará, registrado pelo Greenpeace - Daniel Beltrá/Greenpeace
Foco de incêndio na Floresta Amazônia em São Félix do Xingu, no Pará, registrado pelo Greenpeace Imagem: Daniel Beltrá/Greenpeace
do UOL

Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Maceió

21/08/2019 13h16

Dois em cada três focos de queimada registrados em agosto ocorreram na Amazônia. Segundo dados do Programa Queimadas do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), os incêndios no bioma responderam por 65,1% do total. O percentual em relação a outros biomas é o maior entre os meses de agosto desde o início da medição, em 2003.

Até então, a Amazônia nunca tinha respondido nem sequer por metade dos incêndios do país nos meses de agosto monitorados pelo Inpe. O maior percentual tinha ocorrido em 2005, quando 46% das queimadas atingiram a Amazônia. Em todos os anos passados --pela sua característica climática e de vegetação--, o cerrado era o líder em queimadas. Em 2018, por exemplo, o bioma respondia por 60% dos focos em agosto --à Amazônia correspondia apenas 20% do total.

Especialistas e entidades ambientais consultados pelo UOL afirmam unanimemente que as queimadas estão ligadas ao processo de desmatamento.

O gerente do Programa Amazônia do WWF Brasil, Ricardo Mello, explica que, diferentemente do cerrado, onde há ignição espontânea, no caso da região amazônica não há um processo natural que provoque queimadas. "Todo fogo [na região amazônica] é de alguma forma iniciado pelo ser humano. Então esse aumento é diretamente causado pela ação do homem", afirma.

No país, o número de focos de queimadas registraram alta de 70% em 2018, com destaque justamente para a Amazônia.

Ricardo Mello explica que a queimada é o processo final de desmatamento, com a conversão de uma área de florestal em pasto para pecuária. "Em regra isso tem a ver com aumento de área de pastagem. Em poucos casos, como no norte de Mato Grosso, é ligado à agricultura e outros usos agrícolas", afirma.

O Inpe, que levanta os dados de queimadas, foi alvo de críticas recentes de Bolsonaro. Ele acusou o órgão de estar a serviço de algumas ONGs ao divulgar dados que apontaram aumento do desmatamento na Amazônia. O caso resultou na saída do diretor Ricardo Galvão.

O programa de queimadas do Inpe conta com recursos do Fundo Amazônia. Recentemente, Alemanha e Noruega cortaram verbas que enviavam ao fundo em protesto contra o aumento do desmatamento no bioma.

Desmatamento na Amazônia se relaciona com queimadas

Em agosto deste ano, até o dia 20, foram 23 mil focos de incêndio na Amazônia --mais de mil por dia. Em 2005, quando a Amazônia teve recorde de queimadas, foram 51.457. Entretanto, há um diferença significativa: neste mês não há uma seca extrema, como houve naquele ano, que contribuísse decisivamente para alastrar o fogo.

"Na Amazônia brasileira, as taxas de desmatamento estão intimamente ligadas à incidência de fogo, que é uma das principais ferramentas usadas para desmatar. O desmatamento na Amazônia só piora o ciclo de destruição anunciado pela crise climática que nos bate à porta", afirma Danicley Aguiar, da campanha Amazônia do Greenpeace.

Segundo a entidade, de janeiro a 20 de agosto, o número de queimadas na região foi 145% superior ao registrado no mesmo período de 2018.

A diretora de ciência do Ipam (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) Ane Alencar tem a mesma opinião. Para ela, o aumento de queimadas só pode ser explicado pela alta no desmatamento, já que não houve qualquer evento climático extremo que justifique essa situação.

"Neste ano não temos uma seca extrema, como em 2015 e 2016. Em 2017 e 2018, tivemos um período chuvoso suficiente. Em 2019, não temos eventos climáticos que afetam as secas, como o El Niño, ou eles não estão acontecendo [de maneira] forte. Não tem como o clima ser a explicação desse aumento [de queimadas]", diz.

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