Topo

Presidente argentino anuncia aumentos salariais após revés eleitoral

14/08/2019 16h09

Buenos Aires, 14 Ago 2019 (AFP) - O presidente argentino, Mauricio Macri, anunciou nesta quarta-feira aumentos salariais e cortes de impostos, em uma tentativa de recuperar o apoio da população para as eleições presidenciais de outubro, alterando suas políticas de austeridade.

Macri, que sofreu um duro revés eleitoral nas primárias de domingo contra o peronista de centro-esquerda Alberto Fernández, anunciou benefícios salariais, redução de tributos para os trabalhadores e congelamento do preço da gasolina por 90 dias.

Quanto ao aumento no salário mínimo, atualmente de 12.500 pesos (208 dólares) e que está abaixo do custo da cesta básica, o valor ainda não foi especificado.

"Minha tarefa é garantir a governança. O diálogo é o único caminho. A incerteza causou muitos danos e nos obriga a sermos responsáveis. Quero transmitir paz de espírito neste processo eleitoral que começou", disse o presidente em uma mensagem divulgada antes da abertura dos mercados, abalados desde segunda por uma corrida cambial.

Mais tarde, Macri contou nas redes sociais que teve uma "boa e longa conversa" com Alberto Fernández. "Ele prometeu colaborar em tudo o que for possível para que esse processo eleitoral e a incerteza política que isso gera afetem a economia o mínimo possível", escreveu no Twitter.

Em reação aos resultadores eleitorais, na segunda-feira a moeda argentina se desvalorizou quase 20%, e a Bolsa de Buenos Aires caiu 38%, enquanto ações e títulos argentinos despencavam em Nova York.

Após o anúncio de quarta, a moeda argentina continuou a perder valor, cotada a 62,45 pesos por dólar no meio da tarde. Já a Bolsa caía 3,62% uma hora e meia antes do fechamento.

- Medidas tardias -Macri "toma essas medidas tardiamente, sem levar em conta as consequências. Tenta estimular o consumo, e isso não é ruim, mas deve ser feito no âmbito de um acordo de 180 dias, senão é arriscado", explicou seu rival Fernández ao El Destape Radio.

"É como o Pai Nosso que os ateus rezam antes de morrer. Não adianta", acrescentou.

As medidas vão se estender até o fim do ano e terão um custo fiscal de 40 bilhões de pesos (665 milhões de dólares).

Macri, que termina o mandato em 10 de dezembro, está cumprindo um programa de forte ajustei, acordado com o Fundo Monetário Internacional (FMI) em troca de um crédito de 56 bilhões de dólares.

- 'Cansados' -O mandatário anunciou um pacote de medidas "para aliviar o bolso dos argentinos", já afetados por uma inflação de 22,4% entre janeiro e junho, e que sofrerão um novo golpe devido à desvalorização da moeda. Em junho, no acumulado de 12 meses, somou 55,8% - uma das mais altas do mundo.

"O que lhes pedi foi muito difícil, foi como escalar o (monte) Aconcágua. Estão afetados e cansados. Chegar ao fim do mês se transformou em uma tarefa impossível", admitiu o presidente sobre seus três anos e meio de governo.

Diante do chamado dos setores produtivos para que Macri e Fernández alcancem um consenso mínimo que acalme os mercados, Fernández descartou um encontro com o presidente pois não deseja ser "cúmplice de suas decisões".

Contudo, afirmou que "Macri deve governar até o último dia, conta com minha ajuda para que termine seu mandato, que não deve ser posto em xeque".

O analista Michael Shifter, do centro de estudos Diálogo Interamericano, opinou que "se Macri chegar à linha de meta para transferir os poderes dependente em grande medida do que disser e fizer nos próximos dois meses".

"Seu discurso de segunda (após a derrota) alertando sobre o retorno de Cristina Kirchner e sugerindo que quem vota contra ele não entende a realidade do país não foi tranquilizador", opinou à AFP.

A intenção do governo é que as medidas atinjam 17 milhões de trabalhadores e suas famílias, bem como pequenas e médias empresas.

"Refletem a necessidade de focar nos setores que foram mais afetados pela crise econômica e que viraram as costas ao presidente nas primárias. Mostram a necessidade de recuperar ao menos uma parte desses eleitores", avaliou Paula García Tufro, especialista do Atlantic Council.

ls/nn/rsr/cn/ll/cc

Mais Notícias