Topo

Sem dados de pesquisas, eleições na Argentina estão no escuro

Patrick Gillespie

2019-06-26T14:13:42

26/06/2019 14h13

(Bloomberg) -- O clima de incerteza domina as eleições para presidente na Argentina este ano, mas os principais institutos de pesquisa do país, que geralmente jogam luz sobre o cenário político, não estão divulgando dados ao público por enquanto.

A escassez de pesquisas confiáveis e públicas aumenta as dúvidas em relação a uma disputa bastante acirrada, com grande impacto para a Argentina e sua economia. Alguns dos institutos de pesquisa mais respeitados do país não têm publicado levantamentos ultimamente, priorizando clientes privados em vez de compartilharem os resultados com o público, como em outros períodos eleitorais.

"Os mais respeitados não estão falando, e nós, que falamos, não estamos de acordo. Um diz uma coisa; o outro diz outra", disse Nicolas Solari, diretor da Real Time Data, que iniciou as atividades no começo do ano para acompanhar as eleições.

Para a terceira maior economia da América Latina, os riscos são grandes já que o presidente Mauricio Macri enfrenta uma chapa liderada por Alberto Fernández, mas que conta com a ex-presidente Cristina Kirchner. A preocupação dos investidores é que Fernández e Kirchner possam reverter as políticas econômicas pró-mercado de Macri caso vençam as eleições, assim como Macri reverteu as políticas de Kirchner quando chegou ao poder em 2015. Até agora, parece que a disputa está empatada.

Novos institutos de pesquisa, como o de Solari, surgiram para preencher a lacuna deixada por empresas maiores e mais tradicionais como a Poliarquía, Isonomía e Management & Fit, mas enfrentam o desafio de não possuírem um histórico. O uso de pesquisas on-line ou chamadas telefônicas automáticas diminui a confiabilidade dos resultados. A credibilidade dos institutos de pesquisa vem sendo questionada globalmente, com destaque para as previsões erradas sobre o Brexit e eleições de 2016 dos EUA.

A Argentina não possui padrões oficiais de pesquisa. Há pouca regulação eleitoral, nenhuma metodologia é exigida ou calendário de datas de publicação. Existem também poucas fontes de financiamento, de acordo com o argentino Ernesto Calvo, professor de política da Universidade de Maryland.

"Os dados são usados para fins políticos", disse Calvo. "Algumas das restrições são que as pesquisas de alta qualidade seriam muito caras, e os únicos que podem pagar por essas pesquisas são os que têm dinheiro."

Uma única pesquisa pode ter consequências reais e imediatas para os argentinos. No final de abril, uma pesquisa privada da Isonomía vazou e mostrou Macri perdendo para Kirchner antes de sua aliança com Fernández. Investidores entraram em pânico, o peso se desvalorizou 9% em uma semana e os rendimentos dos títulos do governo subiram.

Mais Notícias