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A 'rua sensorial' criada para estimular a memória de idosos com sintomas de demência

Catrin Nye - Programa Victoria Derbyshire

2019-06-26T14:38:33

26/06/2019 14h38

Uma doceria, um açougue, uma agência dos correios como nos velhos tempos e uma casa de chá têm ajudado residentes do Robert Harvey House a se reconectar com memórias que pareciam perdidas.

Uma casa de repouso na cidade britânica de Birmingham criou uma "rua sensorial" - com casa de chá, loja de doces e agência dos correios - para ajudar a estimular os idosos.

A experiência tem sido positiva especialmente entre os residentes com sintomas de demência, ajudando a despertar memórias e a se conectar com as próprias emoções.

À primeira vista, a Robert Harvey House parece um lar para idosos como os outros espalhados pela Inglaterra - exceto talvez pelas músicas antigas, muitas da década de 1950, que ecoam pelas caixas de som.

A surpresa está nos fundos. Quem visita a parte de trás dá de cara com uma cabra que em geral pula para receber os visitantes na esperança de ganhar pedaços de verduras e legumes.

Não muito longe dela, um papagaio grita "hello" para os passantes e, um pouco mais à frente, vê-se uma réplica da High Street, uma das ruas de compras mais famosas da cidade.

Nela, a bomboniere tem as prateleiras cheias de jarras com balas de alcaçuz e outros doces de antigamente, a agência dos correios é vizinha de uma bomba de combustível como a de outros tempos e a casa de chá está decorada com bandeirinhas do Reino Unido.

"A coisa foi crescendo e, em determinado momento, dissemos: 'vamos fazer isso direito, não apenas fachadas de lojas, mas espaços que as pessoas de fato possam usar, que famílias possam usar'", explica Anthea Reid, diretora da casa de repouso.

Perto das gaiolas com os papagaios há ainda porquinhos-da-índia e patos, além das cabras comilonas - todos colocados ali com o intuito de estimular os sentidos dos idosos.

Ambientes que estimulam

A inspiração veio de um modelo parecido visto pela equipe em um lar para idosos na Noruega.

"Eu acho excelente. Dá a eles novos elementos para conversar", afirma Viv Semmens. Sua mãe, Audrey, tem 90 anos e vive na Robert Harvey House há dois.

Assim como mais da metade dos residentes da casa de repouso, a idosa também sofre de demência.

"Ela não consegue lembrar a última vez que viu um açougue", exemplifica Viv. "Só de pensar sobre esses assuntos é algo muito positivo - como ela se sentia quando era mais jovem, os lugares que visitava naquela época."

Promover o contato com ambientes que gerem estímulos e oportunidades de interações sociais são aspectos fundamentais no cuidado com os idosos, diz Sarah Smith, pesquisadora-sênior sobre demência na Universidade Leeds Beckett.

Pessoas com demência podem ter dificuldade para acessar as memórias, mas isso não significa que as lembranças tenham sido perdidas, pondera a especialista. Assim, estímulos sensoriais podem ajudar os idosos nessas condições a recuperar parte delas.

"As memórias resgatadas são tipicamente de períodos do início da vida adulta, consideradas definidoras da personalidade", pontua Smith. "Entrar em contato com essas reminiscências pode reforçar o senso de identidade e promover bem-estar."

Depois de visitar mais de uma dúzia de lares para idosos, Viv Semmens diz ter "absoluta certeza" de que a mãe está no melhor lugar possível. "Ela participa sempre que tem oportunidade e realmente parece aproveitar cada experiência", ressalta.

Momentos preciosos

Cerca de metade dos residentes está ali com recursos próprios e da família e metade é atendida pelo sistema público de saúde britânico, o NHS.

A casa de repouso é administrada pela organização sem fins lucrativos Broadening Choices for Older People (BCOP, ou "ampliando escolhas para idosos", em tradução livre), que também realiza constatemente campanhas de arrecadação de fundos para manter as instalações.

Como a tendência é que a saúde da maioria dos residentes com sintomas de demência vá se deteriorando lentamente, a prioridade é dar aos pacientes a melhor qualidade de vida possível, diz a ONG.

"Mesmo que o dia esteja feio lá fora, a gente arranja um cobertorzinho, leva-os para a casa de chá, liga o aquecedor e tenta criar um momento especial", diz Anthea.

Residentes com demência em estágio avançado não necessariamente lembrarão o que aconteceu, "mas, nem que seja por um breve momento, se há uma conexão, um sorriso, uma gargalhada, essa é a coisa mais importante", afirma Caroline Cooban, presidente da BCOP.

A Robert Harvey House também atende pessoas com doenças mentais.

Chris Garrett e a esposa, Jane, estão juntos há 22 anos. Eles aproveitavam juntos a aposentadoria quando ela teve um colapso nervoso e precisou ser internada.

A britânica passou quatro anos entre hospitais e clínicas especializadas.

Em janeiro, quando ela foi liberada da internação compulsória - mecanismo previsto pela legislação britânica em alguns casos por meio do Mental Health Act -, Chris decidiu tentar a Robert Harvey House.

"A especialista que acompanha Jane diz que a forma como ela vem se recuperando parece milagre. Ela reconhece as pessoas, socializa - e acho que muito disso se deve a esse ambiente", destaca o marido.

Jane e Chris comemoram datas especiais - de aniversários ao Dia dos Namorados - na casa de chá e todos os dias Jane se vê entretida conversando com os papagaios que ficam próximos à sua janela.

"Desde que cheguei, com os animais, o cuidado e o carinho, isso tudo me fez melhorar", ela conta.

Smith afirma que a importância das necessidades psicológicas no cuidado com os idosos tem sido cada vez mais reconhecida, o que tem se refletido nas casas de repouso, que têm adotado práticas que envolvem atividades de estímulo à memória ou experiências sensoriais.

Para a especialista, "cada vez mais evidências mostram que há muito o que se fazer para que pessoas com demência vivam melhor".

"Dito isso, algumas casas de repouso ainda têm dificuldade para prover esse nível de assistência por diversas razões, desde a falta de recursos e de treinamento da equipe até desconhecimento."

Anthea se emociona quando perguntamos o que ela mais gosta no trabalho que desenvolve na Robert Harvey House.

"Somos uma família. Todo mundo aqui, funcionários da limpeza, cuidadores, cozinheiros, todo mundo está aqui", ela diz, apontando para o coração.


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