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Moeda única com Argentina é inviável e seria 'desastre', dizem economistas

do UOL

Ricardo Marchesan

Do UOL, em São Paulo

2019-06-07T14:24:41

07/06/2019 14h24

Desastre, ideia horrível e sonho de uma noite de verão. Três economistas ouvidos pelo UOL criticaram a ideia de criar uma moeda única com a Argentina e questionaram a viabilidade econômica e política de isso virar realidade, como cogitaram o presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Economia, Paulo Guedes.

O assunto foi tratado inicialmente pelo ministro em reunião com empresários argentinos e brasileiros, e depois o presidente disse ser favorável a estudos sobre a ideia. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e outros parlamentares criticaram a possibilidade.

"Sonho de uma noite de verão"

O professor Simão Davi Silber, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP (FEA-USP), foi enfático sobre a impossibilidade da moeda única.

Descartaria para os próximos cem anos. Eu acho isso um sonho de uma noite de verão
Simão Silber, professor da FEA-USP

Segundo ele, os países da região não têm uma integração adequada para uma empreitada do tipo. Para a proposta fazer sentido, disse, deveria existir um fluxo comercial e financeiro "gigantesco" na própria região, mas a maior parte das transações dos países daqui são com EUA, Europa e Ásia.

Quem banca?

O professor Roberto Ellery, do Departamento de Economia da UnB, afirma que, do ponto de vista econômico, "é uma ideia horrível". Ele cita o desequilíbrio fiscal entre os países do continente como o maior problema.

[Na zona do euro] quem banca é a Alemanha. A Grécia quebra, quem banca é a Alemanha. Quem banca na América do Sul?
Roberto Ellery, professor da UnB

Segundo Ellery, não há uma economia na região forte o suficiente para isso.

Para o economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini, se fosse implantada hoje, a unificação seria "um desastre", ainda que ele não descarte a ideia para o futuro, lembrando que o euro demorou décadas para entrar em vigor.

Agostini afirma que, para unificar a moeda, os países participantes deveriam harmonizar todos os indicadores fiscais, como endividamento e produtividade. Caso contrário, a empreitada fracassaria.

Ele lembra que mesmo o euro apresentou problemas do tipo, levando a Itália e a Espanha a questionar sua participação no bloco por terem perdido competitividade.

BC único seria problema

A necessidade da criação de um Banco Central do continente seria outra barreira, na visão do professor da USP.

Cada país teria que abdicar do seu Banco Central. Então perderiam dois instrumentos fundamentais de política macroeconômica: a monetária e a cambial
Simão Silber, professor da FEA-USP

Após a declaração do presidente Bolsonaro, o Banco Central afirmou que não há projetos nem estudos em andamento para a criação de uma moeda única.

Está certíssimo o Banco Central. A última coisa que a gente quer hoje é contaminar o real
Roberto Ellery, professor da UnB

Mais política do que economia

Para Silber, as declarações do ministro e do presidente têm muito mais intenção política do que econômica.

Nem politicamente faz muito sentido. Será que o resto da América do Sul quer o Brasil como líder? Duvido
Simão Silber, professor da FEA-USP

Paulo Guedes disse acreditar que, no futuro, deve haver cerca de cinco moedas no mundo, e a integração na América Latina poderia eventualmente levar a uma moeda única.

Silber concorda que a tendência mundial é de diminuição da quantidade de moedas, mas ele diz que duvida que o "peso-real" poderia ser uma delas. "Neste hemisfério, seria o dólar, não o real", afirma.

Alex Agostini vê algumas vantagens, ao menos em teoria, na unificação da moeda, porque ela diminuiria os custos de transação das moedas locais, e facilitaria o comércio entre os países do bloco e os do exterior.

"No fim das contas, é claro que, se os países tiverem um enquadramento [de seus indicadores], [a moeda única] acaba sendo um ponto bom para o bloco", afirma.

Mas hoje temos problemas muito mais graves a serem resolvidos antes de se falar em moeda única
Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating

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