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Adotado aos 5 anos, brasileiro que não fala português é deportado dos EUA

Paul Fernando sentado junto com Segisfredo Silva Vanderlai, um pastor que o abriga desde pouco depois de ser deportado ao Brasil - Leo Correa/AP
Paul Fernando sentado junto com Segisfredo Silva Vanderlai, um pastor que o abriga desde pouco depois de ser deportado ao Brasil Imagem: Leo Correa/AP
do UOL

Peter Prengaman

Da AP, em Niterói

06/06/2019 13h50

Paul Fernando Schreiner anda por uma sala com poucos móveis, espantando mosquitos dos braços e do pescoço enquanto se pergunta se hoje será um dia diferente de todos os outros.

O ar denso e pesado nesta cidade na baía da Guanabara, do outro lado do Rio de Janeiro, parece insuportável, nada parecido com o ar quente e seco de Phoenix, onde o homem de 36 anos vivia quando foi deportado pelos Estados Unidos no ano passado.

As conversas são raras para Schreiner, pois ele não fala português e poucas pessoas aqui falam alguma língua além de português. Mas a língua é só um dos problemas: a comida e até os esportes que os brasileiros praticam --Schreiner gosta de futebol americano, mais que o do tipo brasileiro-- não parecem certos. Em sua cabeça, cada dia é uma luta contra o tédio, a solidão e o desespero.

"Sou qualquer coisa menos brasileiro", disse Schreiner, que foi adotado no Brasil por uma família americana há três décadas. "Sou americano."

O governo dos Estados Unidos discorda, salientando a linha cada vez mais dura que o governo Trump está adotando com os moradores legais considerados deportáveis.

As autoridades de imigração dos Estados Unidos se esforçaram tanto para remover Schreiner que podem ter infringido a lei brasileira, tornando virtualmente impossível para ele exercer sua suposta cidadania brasileira.

"Ele não deveria ter de sofrer pela segunda vez", disse sua mãe, Rosanna Schreiner, entre lágrimas em sua casa perto de Seward, em Nebraska.

Schreiner nunca se naturalizou cidadão americano, mas viveu como um durante 30 anos. Foi adotado legalmente aos 5, tem uma certidão de nascimento de Nebraska, um número na Seguridade Social e pagava impostos.

Esta foto sem data fornecida por Roger e Rosanna Schreiner mostra seu filho adotivo Paul Fernando Schreiner, no canto superior direito, junto com o resto da família Schreiner - Cortesia da família Schreiner via AP
Esta foto sem data fornecida por Roger e Rosanna Schreiner mostra seu filho adotivo Paul Fernando Schreiner, no canto superior direito, junto com o resto da família Schreiner
Imagem: Cortesia da família Schreiner via AP

Grupos de adoção dos Estados Unidos calculam que entre 35 mil e 75 mil adotados nos Estados Unidos podem estar nessa situação hoje, muitos acreditando incorretamente que já são cidadãos. A Lei de Cidadania de Crianças de 2000, assinada pelo presidente Bill Clinton, visava facilitar o processo, tornando a cidadania automática para crianças adotadas no exterior. Mas havia uma exceção: para as crianças que já estavam nos Estados Unidos, só se qualificavam as menores de 18 anos quando a lei entrou em vigor. Com seis meses a mais, Schreiner não se enquadrava.

Pedir a cidadania com base na elegibilidade como portador de "green card" [autorização de residência] também não era possível: quando tinha 21 anos, Schreiner foi condenado por estupro estatutário a uma menina de 14 anos.

Depois de passar quase oito anos na prisão em Nebraska, Schreiner arrumou sua vida. Mudou-se para o Arizona e começou a limpar piscinas e trabalhar como carpinteiro.

"Ele estava trabalhando, acostumando-se à vida depois da prisão", disse Jason Young, pastor na Igreja Batista Heritage em um subúrbio de Phoenix, com quem Schreiner desenvolveu um relacionamento próximo.

Paul Fernando Schreiner em Niterói conversa pelo celular com seu pai adotivo Roger Schreiner nos Estados Unidos - Leo Correa/AP
Paul Fernando Schreiner em Niterói conversa pelo celular com seu pai adotivo Roger Schreiner nos Estados Unidos
Imagem: Leo Correa/AP

Detenção de imigrantes

Então, às 5h de 23 de outubro de 2017, agentes cercaram a caminhonete de Schreiner quando ele saía para o trabalho.

Ele não ficou totalmente surpreso. Pouco depois que seus problemas com a Justiça começaram, em 2004 ele foi notificado de que havia uma ordem de deportação contra ele. Mas isso nem sempre levava à remoção durante o governo dos presidentes George W. Bush e Barack Obama.

Schreiner também tinha o apoio do Brasil.

"A posição oficial do governo brasileiro -- definida na Lei da Criança e do Adolescente -- é que a adoção é um ato irrevogável, que confere à criança adotada os mesmos direitos das que vivem com os pais biológicos", escreveu ao Departamento de Segurança Interna o então cônsul-geral do Brasil em Chicago, Alexandre Addor Neto, em 2004, respondendo a um pedido dos Estados Unidos de que o Brasil emitisse documentos de viagem para a deportação de Schreiner.

Em 2017, as autoridades brasileiras novamente negaram os pedidos do governo americano de documentos para deportá-lo.

"Criminoso procurado"

Mas em 12 de junho de 2018 Schreiner foi acordado na detenção e lhe disseram que seria deportado.

"O Brasil é um governo corrupto e o deixará entrar", Schreiner disse que ouviu um agente dizer, sobre o fato de ele não ter um passaporte.

Em um comunicado, a Polícia de Imigração e Alfândega (ICE) dos Estados Unidos só disse que Schreiner tinha sido deportado, e não quis fazer mais comentários.

Algemado e acompanhado por dois agentes, Schreiner disse que foi levado em um voo comercial de Phoenix a Nova York, onde autoridades da American Airlines não o deixaram embarcar no voo para o Rio de Janeiro.

Esta foto sem data fornecida por Roger e Rosanna Schreiner mostra seu filho adotivo Paul Fernando Schreiner posando para uma foto com um quebra-cabeça - Cortesia da família Schreiner via AP
Esta foto sem data fornecida por Roger e Rosanna Schreiner mostra seu filho adotivo Paul Fernando Schreiner posando para uma foto com um quebra-cabeça
Imagem: Cortesia da família Schreiner via AP

A única documentação que os agentes do ICE tinham de Schreiner era um "certificado de nacionalidade" emitido pelo consulado brasileiro em Los Angeles que só dava um nome, "Fernando", e a data de nascimento arbitrária em que Schreiner foi dado em adoção.

"Ele é um criminoso procurado no Brasil", Schreiner disse que os agentes informaram ao pessoal da companhia aérea, que afinal o deixou embarcar.

Chegando ao Rio, houve mais perguntas. Durante várias horas, Schreiner disse que agentes americanos e a Polícia Federal do Brasil discutiram se o deixariam entrar. Após uma série de telefonemas e conversas acaloradas, Schreiner foi levado à frente do aeroporto. Retiraram suas algemas e os agentes foram embora.

A Polícia Federal não respondeu a diversos pedidos da Associated Press para dar declarações. Em um comunicado, o Ministério das Relações Exteriores do Brasil disse apenas que o consulado em Los Angeles foi "instruído formalmente a confirmar, diante das autoridades dos Estados Unidos, a nacionalidade brasileira do senhor Schreiner, que tinha uma ordem de deportação contra ele".

Futuro incerto

Paul Fernando usando seu computador no quarto onde dorme em Niterói. O ar pesado e denso desta cidade do outro lado da baía do Rio de Janeiro parece insuportável, nada como o calor seco de Phoenix, Arizona, onde ele vivia quando foi deportado no ano passado. - Leo Correa/AP
Paul Fernando usando seu computador no quarto onde dorme em Niterói. O ar pesado e denso desta cidade do outro lado da baía do Rio de Janeiro parece insuportável, nada como o calor seco de Phoenix, Arizona, onde ele vivia quando foi deportado no ano passado.
Imagem: Leo Correa/AP

Quase um ano depois de ser deportado, Schreiner continua no limbo.

Ele não conseguiu tirar uma certidão de nascimento brasileira, uma carteira de identidade ou um CPF para poder trabalhar.

Chegar ao país pela porta dos fundos, com um certificado de cidadania que se refere a ele apenas como "Fernando", tem sido um obstáculo junto às autoridades de registro civil. Outra é que não há um registro original de seu nascimento, situação comum entre adotados e outras pessoas pobres no Brasil.

Schreiner diz que sua maior esperança, se um dia ele conseguir um passaporte brasileiro, é tentar imigrar para o Canadá, cuja língua ele fala e onde estaria mais perto da família.

"A deportação é para imigrantes ilegais", disse ele. "Eu não pedi para ir para os Estados Unidos, não cruzei nenhuma fronteira."

Paul Fernando Schreiner caminha em um supermercado de Niteroi. Conversas são raras para ele, pois não fala português - Leo Correa/AP
Paul Fernando Schreiner caminha em um supermercado de Niteroi. Conversas são raras para ele, pois não fala português
Imagem: Leo Correa/AP

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