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5 razões pelas quais os EUA estão tão preocupados com a Huawei

AFP
A companhia chinesa é uma das maiores empresas de tecnologia do mundo Imagem: AFP

2019-05-21T08:52:18

21/05/2019 08h52

Empresa chinesa é alvo de uma série de denúncias, envolvendo agências internacionais de espionagem, suspeita de roubo de tecnologia e de acordos secretos com o Irã.

O Google proibiu a segunda maior fabricante de smartphones do mundo, a Huawei, de fazer algumas atualizações no sistema operacional Android - o que significa que os novos aparelhos da empresa devem perder acesso a alguns aplicativos.

A medida foi anunciada depois de o presidente dos EUA, Donald Trump, ter declarado emergência nacional na semana passada para proteger as redes de computadores do país contra "adversários estrangeiros", resolução que, segundo analistas, é voltada principalmente para a gigante de tecnologia chinesa.

A Huawei é mais conhecida pelos telefones celulares, mas também fabrica uma enorme quantidade de equipamentos de comunicação usados nos bastidores.

Mesmo que seja efetivamente impedida de vender nos EUA, analistas do setor estimam que a empresa controle de 40% a 60% das redes em todo o mundo.

E por que os EUA e outros países estão tão preocupados?

A empresa chinesa é alvo de uma série de denúncias, envolvendo agências internacionais de espionagem, suspeita de roubo de tecnologia e de acordos secretos com o Irã.

5G: muito rápido, mas não muito seguro?

A Huawei está negociando com países do mundo todo para fornecer os sistemas que são o centro da próxima revolução nas redes de telefonia móvel - 5G.

A quinta geração de internet móvel promete ser tão rápida que provavelmente será usada em uma série de sistemas novos, como carros sem motorista.

E se a Huawei fizer parte do núcleo da infraestrutura 5G de um país, os adversários da China afirmam que a empresa poderá espionar as mensagens que circulam pelas redes ou até mesmo desligá-las, causando uma quantidade enorme de interrupções.

Mesmo antes da recente determinação de Trump, os EUA haviam tomado a iniciativa de pressionar aliados a evitar a empresa chinesa.

O governo americano focou principalmente nos membros da aliança conhecida como "Five Eyes" (Cinco Olhos, em inglês) - formada pelo Reino Unido, Canadá, Austrália e Nova Zelândia, além dos EUA - cujas agências de espionagem têm uma relação bastante próxima e compartilham uma enorme quantidade de informações sigilosas, muitas vezes eletronicamente.

Os EUA ameaçaram parar de compartilhar dados com qualquer membro da rede de nações de língua inglesa que instalar a infraestrutura 5G da Huawei.

"Se um país adotar e colocar em alguns de seus sistemas críticos de informação, não vamos poder compartilhar informações com eles", alertou o secretário de Estado americano, Mike Pompeo.

A Huawei negou repetidamente que agiria como um espião para o governo chinês, mas críticos chamam a atenção para as leis chinesas, que tornam impossível para as empresas se recusarem a ajudar na coleta de informações.

A companhia tem apelado também para a questão financeira, alertando que a proibição "servirá apenas para limitar os EUA a alternativas inferiores, porém mais caras, deixando os EUA atrasados na implantação do 5G e, consequentemente, prejudicando os interesses das empresas e consumidores americanos".

O temor de espionagem tecnológica por parte dos EUA provavelmente se baseia em parte em seu próprio comportamento.

Edward Snowden, ex-analista da Agência Nacional de Segurança Americana (NSA, na sigla em inglês), revelou que há anos as agências de espionagem do país invadiam links de comunicação que conectam data centers de grandes empresas de tecnologia - incluindo Google e Yahoo - e tentavam minar sua criptografia.

É fácil entender por que um governo desconfiaria de qualquer empresa com sede em um país rival.

O escândalo do braço robótico

Se os problemas da rede 5G são um pouco abstratos, outra polêmica envolvendo a Huawei é um pouco mais palpável: um de seus engenheiros foi acusado de roubar um braço robótico.

O funcionário alegou que o equipamento - usado para tocar repetidamente a tela de smartphones em fase de testes - caiu acidentalmente na sua bolsa, quando deixava um laboratório de design da T-Mobile.

A empresa alemã - que na época era parceira da Huawei - não acreditou nesta versão, e as duas companhias de tecnologia mais tarde resolveram a questão fora do tribunal.

O escândalo reacendeu após o surgimento de novos e-mails, lançando dúvidas sobre a alegação de que o engenheiro agiu sozinho e sugerindo que ele poderia ter sido instruído por alto executivos na China.

Esta é uma das razões pelas quais a diretora financeira da Huawei - Meng Wanzhou - foi presa no Canadá a pedido dos EUA no ano passado.

Jogo duplo com o Irã?

Meng ainda está lutando contra as tentativas de transferi-la para os EUA por conta dessa acusação, além de outras denúncias ligando a Huawei ao Irã.

A suspeita é que ela fazia parte de um esquema para driblar sanções dos EUA contra Teerã por meio de uma empresa chamada Skycom.

Meng é acusada de ter mentindo aos bancos e ao governo americano sobre negócios da empresa com o Irã.

Filha do fundador da Huawei, a executiva nega todas as acusações.

Ela pode pegar até 30 anos de prisão se for extraditada para os EUA e condenada.

Telas e promessas quebradas

Mas os problemas da Huawei com os EUA não param por aí.

De acordo com a Bloomberg, o FBI, a polícia federal americana, está investigando a gigante de tecnologia por uma suposta violação do Regulamento Internacional de Tráfico de Armas (ITAR, na sigla em inglês), diante da forma como lidou com uma amostra de vidro com revestimento de diamante quase indestrutível fornecida por uma empresa americana.

Se você já deixou cair o celular, sabe como é fácil quebrar a tela - e como é caro consertá-la.

Um smartphone com uma tela inquebrável seria um diferencial para qualquer empresa de tecnologia.

A Akhan Semiconductor Inc estava negociando com a Huawei para fornecer seu mais recente e super-resistente tipo de vidro - graças a uma fina camada de revestimento de diamante artificial.

A Bloomberg diz que uma amostra foi devolvida ao fabricante, meses depois do prazo e gravemente avariada.

Uma investigação do FBI levou a Akhan Semiconductor Inc a suspeitar que a Huawei tinha retirado a amostra dos EUA para análise - o que seria ilegal porque os materiais revestidos de diamante podem ser usados em armas a laser.

A empresa chinesa contesta, no entanto, esta versão.

A história não acabou

Mas, apesar dos escândalos, da recente decisão do Google e da determinação de Trump, a Huawei continua sendo um importante ator global.

Para muitos países, especialmente na África e na Ásia, o preço da tecnologia da empresa, comparado a equipamentos europeus e americanos, indica que a companhia chinesa vai continuar a ganhar uma enorme participação no mercado global.

Mesmo no Reino Unido, um dos aliados mais próximos dos EUA, ainda há um debate sobre se os produtos da empresa devem ser usados na construção de sua rede 5G.

O ministro da Defesa britânico, Gavin Williamson, foi demitido recentemente sob a acusação de ter vazado informações do Conselho de Segurança Nacional sobre a participação da Huawei na implementação da rede 5G no país.

Uma decisão que está atualmente em análise e, como muitas questões relacionadas à Huawei, tem futuro incerto.

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