Topo

Caso Queiroz: investigação mira parentes de PMs acusados de crimes

Reprodução/Instagram
22.fev.2019 - Postagem de outubro de 2017 no Instagram de Flávio Bolsonaro (PSL-RJ) em que ele aparece ao lado dos irmãos Alan, Alex e Valdenice de Oliveira Imagem: Reprodução/Instagram
do UOL

Igor Mello e Gabriel Sabóia

Do UOL, no Rio

2019-05-15T17:23:59

15/05/2019 17h23

Entre as 95 pessoas e empresas que tiveram os sigilos fiscal e bancário quebrados a pedido do MP-RJ (Ministério Público do Rio de Janeiro) estão três parentes de policiais militares acusados de envolvimento com milícias e quadrilhas especializadas em extorsão. As mulheres exerceram cargos no gabinete do senador Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), filho mais velho do presidente Jair Bolsonaro (PSL), durante seus mandatos como deputado estadual na Alerj (Assembleia Legislativa do Rio) e no diretório do PSL na capital fluminense.

Entre os alvos da decisão do juiz Flávio Itabaiana, da 27ª Vara Criminal do Rio, está Valdenice de Oliveira Meliga, a Val Meliga. Ela é irmã dos policiais militares Alan Rodrigues de Oliveira e Alex Rodrigues de Oliveira, presos na Operação Quarto Elemento. Os dois participavam de agendas de campanha de Flávio Bolsonaro durante a eleição de 2018 até entrarem na mira das autoridades.

Alan e Alex foram presos no fim de agosto, na Operação Quarto Elemento, que mirou uma quadrilha de policiais acusados de extorsão. Segundo investigações do Ministério Público do Rio e da Subsecretaria de Inteligência da Secretaria de Segurança, o grupo cobraria valores para não reprimir atividades ilícitas. Os dois se tornaram réus neste ano.

Val Meliga tem uma relação de confiança com Flávio Bolsonaro. Ela exerceu, até fevereiro, cargo na liderança do PSL na Alerj, indicada pelo senador. Ela também foi indicada por ele como administradora financeira da campanha, sendo responsável por fazer pagamentos e coordenar as movimentações financeiras de sua candidatura.

Desde março, por indicação de Flávio, ela ocupa o cargo de presidente do diretório municipal do PSL no Rio.

Ao UOL, Val Meliga disse que recebeu "de boa" a decisão da Justiça, mas que preferia não se manifestar no momento. "Ainda não fui notificada, então não tenho nada a falar", afirmou na tarde de hoje.

Mãe e mulher de miliciano são citadas

Além de Val Meliga, o MP também obteve a quebra de sigilo de Raimunda Veras Magalhães e Danielle Mendonça da Costa Nóbrega. Elas são, respectivamente, mãe e mulher do ex-policial militar Adriano Magalhães da Nóbrega, o capitão Adriano.

Ex-oficial do Bope (Batalhão de Operações Especiais), Adriano tem um longo histórico de envolvimento com o crime no Rio. O ex-policial é apontado pelo Ministério Público como chefe do Escritório do Crime. A quadrilha de matadores de aluguel é suspeita de envolvimento no assassinato da vereadora Marielle Franco, morta em março de 2018.

Além disso, Adriano seria um dos chefes da milícia que domina Rio das Pedras, na zona oeste carioca, e outras comunidades vizinhas. Adriano recebeu duas homenagens de Flávio na Alerj, em outubro de 2003 e julho de 2005. O ex-capitão da PM está foragido.

Adriano é amigo do ex-assessor Fabrício Queiroz --ambos se conheceram quando eram lotados no 18º BPM (Jacarepaguá). Queiroz admitiu ter indicado Raimunda e Danielle para cargos no gabinete de Flávio.

Ambas tinham o cargo CCDAL-5, com salários de R$ 6.490,35. Segundo o Diário Oficial do Estado, ambas foram exoneradas a pedido no dia 13 de novembro de 2018.

Raimunda ocupou cargos na Alerj, sempre por indicação de Flávio, desde março de 2015, quando foi nomeada na liderança do PP, então o partido da família Bolsonaro. Ela permaneceu no cargo por um ano. Em junho de 2018, voltou a trabalhar na Alerj, dessa vez no gabinete de Flávio.

Danielle, por sua vez, atuou no gabinete de Flávio entre setembro de 2007 e novembro do ano passado.

Segundo entrevista de Flávio ao jornal "O Estado de S.Paulo" publicada no último domingo (12), as homenagens ao capitão Adriano foram feitas porque ele acreditou que o policial era alvo de uma acusação injusta de homicídio. Adriano e seus colegas de GAT (Grupo de Ações Táticas) do 16º BPM (Olaria) foram acusados de assassinar o guardador de carros Leandro dos Santos Silva, morador da comunidade de Parada de Lucas (zona norte). Na região, o grupo era conhecido como a "Guarnição do Mal".

"Conheci [o Capitão Adriano] em 2003, 2004, mais ou menos. Ele estava sendo acusado de ter matado um trabalhador e, na verdade, era um traficante. [Fabrício] Queiroz me apresentou. Resolvi abraçar aquela causa. Até homenageei ele depois como forma de mostrar que acreditava na palavra dele. Ele, agora, está sendo acusado de um monte de coisa. Se ele estiver errado, que a lei pese sobre ele. Como exigir de mim saber de algo que 15 anos depois veio à tona?", afirmou o senador.

A reportagem não localizou Raimunda e Danielle para comentarem a decisão de quebra de sigilo.

Quem teve o sigilo quebrado

O MP obteve na Justiça a quebra dos sigilos fiscal e bancário de 95 pessoas e empresas no dia 24 de abril. A informação foi revelada pelo jornal "O Globo" e confirmada pelo UOL.

Entre os alvos, há servidores e ex-servidores da Alerj; pessoas ligadas à família Bolsonaro; amigos e familiares de Queiroz; além de pessoas e empresas que fizeram negociações imobiliárias com Flávio. As informações foram divulgadas na segunda-feira (13) pelo jornal "O Globo" e confirmadas pela reportagem do UOL.

Responsável pela defesa de Queiroz, o advogado Paulo Klein informou hoje que pretende impetrar um habeas corpus no TJ-RJ (Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro) contra a decisão.

Em nota, Flávio Bolsonaro acusa o Ministério Público de já ter quebrado seu sigilo bancário anteriormente de maneira ilegal.

"O meu sigilo bancário já havia sido quebrado ilegalmente pelo MP/RJ, sem autorização judicial. Tanto é que informações detalhadas e sigilosas de minha conta bancária, com identificação de beneficiários de pagamentos, valores e até horas e minutos de depósitos, já foram expostas em rede nacional após o Chefe do MP/RJ, pessoalmente, vazar tais dados sigilosos. Somente agora, em maio de 2019 --quase um ano e meio depois-- tentam uma manobra para esquentar informações ilícitas, que já possuem há vários meses. A verdade prevalecerá, pois nada fiz de errado e não conseguirão me usar para atingir o governo de Jair Bolsonaro", disse.

O MP-RJ afirmou em nota que "repudia com veemência" as declarações de Flávio. "O referido parlamentar não adota postura similar à de outros parlamentares, prestando esclarecimentos formais sobre os fatos que lhe tocam (...). O Senador é presença constante na imprensa, mas jamais esteve no MPRJ, apesar de convidado", diz o órgão.

Mais Notícias