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Após "obsessão fitness", ele defende que o corpo gordo pode ser saudável

Caio Cal é criador de conteúdo e busca desmitificar a ideia de corpo gordo como doente  - Reprodução/Instagram
Caio Cal é criador de conteúdo e busca desmitificar a ideia de corpo gordo como doente Imagem: Reprodução/Instagram

Bárbara Forte

Do BOL, em São Paulo

02/04/2019 06h00

Caio Garcia Motta Cal, de 30 anos, acordava todo dia pensando em sua próxima refeição "limpa", seguindo uma dieta considerada saudável. Comer fora? Nem pensar. O criador de conteúdo, stylist e fotógrafo mal podia pensar em almoçar em um restaurante novo ou encarar uma pizza numa sexta-feira com os amigos. Caio sofria de ortorexia, uma alteração de comportamento alimentar definida pela obsessão por uma alimentação saudável.

"Eu passei quatro anos da minha vida vivendo dessa forma. Nesse período, eu acho que eu me resumia à comida, eu não tinha outro interesse que não fosse a minha preocupação em comer de forma limpa e, automaticamente, emagrecer também, porque esse era o meu maior objetivo com tudo isso", afirma Caio Cal.

De acordo com ele, a preocupação exacerbada parecia à época uma boa iniciativa para melhorar sua relação com a saúde. Mas, no fundo, era um comportamento que estava tirando seu prazer de viver: "Eu não tinha outra vida além de trabalhar, ir para a academia, ir ao mercado e, novamente, preparar a minha marmita".

Caio sofria de ortorexia, uma obsessão por alimentação saudável  - Reprodução/Instagram  - Reprodução/Instagram
Caio sofria de ortorexia, uma obsessão por alimentação saudável
Imagem: Reprodução/Instagram
Segundo Marcela Kotait, nutricionista coordenadora do ambulatório de Anorexia Nervosa do Programa de Transtornos Alimentares do Hospital das Clínicas da USP (Universidade de São Paulo), as características comuns da ortorexia são a fixação patológica por um consumo saudável de alimentos e a sensação de estar completamente limpo e puro.

"O impacto social é inegável, já que o indivíduo pode controlar a alimentação de maneira tão rígida a ponto de comer somente aquilo do qual possui plena certeza da origem e do preparo", explica Marcela.

"Eu me tornei uma pessoa muito antissocial, alienada de tudo, eu não lia nada que não fosse sobre dietas, exercícios, e eu não sabia o que estava acontecendo na política, não sabia o que estava acontecendo no mundo", afirma o criador de conteúdo.

A ortorexia

Marle Alvarenga, nutricionista coordenadora do Genta (Grupo Especializado em Nutrição, Transtornos Alimentares e Obesidade) e supervisora do grupo de nutrição do Programa de Transtornos Alimentares do Hospital das Clínicas da USP, afirma que, embora seja um comportamento disfuncional caracterizado pela obsessão por alimentos considerados saudáveis, a ortorexia não é uma doença, então é difícil falar em sintomas, diagnósticos, causa e cura. Entretanto, ela explica que há estudos que relacionam o comportamento a pessoas perfeccionistas ou com TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo).

Marle revela que, a partir da ideia que se tem sobre a ortorexia, é possível elaborar uma proposta diagnóstica: "Para considerar a existência do problema, a pessoa precisa ter consequências físicas e/ou psicossociais: quando começa a prejudicar os relacionamentos com a família, amigos e namorado, quando ela não tem mais uma vida social, rejeita viagens por conta das questões com comida, por exemplo".

Caio Cal tinha uma rotina incansável de exercícios  - Reprodução/Instagram  - Reprodução/Instagram
Caio Cal tinha uma rotina incansável de exercícios
Imagem: Reprodução/Instagram
Foi o que aconteceu com Caio. "Eu me via como uma pessoa muito solitária, me afastei de tudo e de todos para conseguir manter a minha dieta. Deixei de conhecer pessoas, restaurantes... A minha alimentação se tornou uma coisa muito monótona", conta.

Segundo o criador de conteúdo, era muito difícil manter aquele estilo de vida: "Eu parei de fotografar, de trabalhar com as coisas de que eu gostava, de estar em contato com seres humanos, de me divertir. Eu acho que eu não sabia mais conversar com as pessoas, não me importava com o que os outros falavam", relembra.

Caio avalia que se tornou alguém chato, amargo, a ponto de machucar as pessoas mais próximas: "Me tornei um fiscal do prato alheio, dizia que meu estilo de vida era o certo e o das outras pessoas era errado".

Falsa sensação de saúde

Apesar de se distanciar cada vez mais dos amigos e até da família por conta da ortorexia, Caio sentia-se cada vez mais "aceito" pela sociedade, pois, além de comer "bem", consumindo somente alimentos "limpos", sem industrializados, o corpo estava mais próximo do padrão.

As pessoas me elogiavam, diziam que eu estava na minha melhor fase, que eu estava maravilhoso"

Para a nutricionista Marcela Kotait, essa atitude mostra como há problemas na percepção do que é saudável de verdade: "A sociedade está adoecida, aceitando sintomas de ortorexia e outros transtornos alimentares como 'estilo de vida' e isso pode explicar o aumento dos números de casos de transtornos alimentares nos últimos anos".

Caio seguia rotina de exercícios e alimentação de forma robótica  - Reprodução/Instagram  - Reprodução/Instagram
Caio seguia rotina de exercícios e alimentação de forma robótica
Imagem: Reprodução/Instagram
Caio concorda: "Na verdade, ninguém está preocupado com a saúde de uma pessoa gorda. Só o fato de ela ter emagrecido, independentemente de como tenha sido o processo, é suficiente para que ela seja elogiada, tratada como um exemplo de superação e inspiração".

E as redes sociais acabam reforçando esse comportamento. "Eu lembro que eu criei no Instagram um perfil com o nome Projeto do Caio, onde eu comecei a postar todas as minhas refeições, alimentação, exercícios. Era o meu diário", conta.

"As redes afetam diretamente a maneira com a qual as pessoas comem e se relacionam com o corpo. Alguns estudos sobre a ortorexia garantem que o ambiente virtual pode aumentar as chances de desenvolvimento da doença. Também se sabe da influência negativa na satisfação corporal quando falamos de transtornos alimentares e de imagem", explica Marcela Kotait.

A nutricionista Marle Alvarenga ainda complementa: "Nesse sentido, a gente tem hoje um papel importante da mídia, da cultura fitness com ideias de saudável disfuncionais".

Mudança de hábito

Foram quatro anos de dieta rigorosa e rotina incansável de exercícios, numa imersão em um mundo onde a relação com o corpo e a comida estava errada. Caio procurou ajuda quando se viu sozinho.

"Eu busquei acompanhamento profissional para entender o que estava acontecendo comigo, entender esta busca incessante por algo, e percebi que estava fazendo tudo de forma automática. Eu comia de forma robótica, não prestava atenção no alimento e me desliguei dos fatores emocionais e culturais da comida. Eu tinha perdido o prazer de comer", comenta Caio.

A especialista Marcela Kotait diz que o entendimento de Caio é o primeiro passo para uma mudança de hábito e que reativar a relação com a comida é importante para sair da obsessão: "O ideal para se ter uma relação realmente saudável com a comida é desconstruir mitos sobre a alimentação e basear-se nos sinais internos do corpo, de fome e saciedade, além de entender os motivadores que nos levam a comer. Situar a alimentação em um contexto puramente nutricional é um erro".

Nesse sentido, a nutricionista Marle Alvarenga explica que o "saudável" não abrange só uma alimentação com calorias e nutrientes considerados adequados ou mesmo o fato de buscar alimentos frescos, orgânicos. "Saudável passa por ter um relacionamento saudável com a comida, e as pessoas com ortorexia não têm isso", diz a especialista.

"Depois que eu me libertei dessa obsessão pela alimentação, eu percebi que o mundo se abriu para mim. Viver a vida sem dietas é abrir um mundo de possibilidades", diz Caio.

A nutricionista Marceka Kotait reforça que o problema não é propriamente a dieta, mas seu rigor e o modo como ela é conduzida: "Todo transtorno alimentar tem na sua história o início marcado por uma dieta; por isso, procurar sempre um profissional capacitado é fundamental para manter-se conectado ao próprio corpo e para entender a alimentação de maneira mais global e realista. Dietas restritivas aumentam em até 18 vezes o risco de desenvolver um transtorno alimentar, e isso é muito grave visto a facilidade do acesso a incentivos para mudar e moldar o corpo e a alimentação. Não existem alimentos 'vilões ou mocinhos'", explica a profissional.

Hoje eu continuo comendo coisas fitness. Mas não faço mais para emagrecer, eu faço porque eu gosto"
Caio Cal

Corpo gordo e saúde

Mudança no corpo não alterou capacidades de Caio ao fazer exercícios  - Reprodução/Instagram  - Reprodução/Instagram
Mudança no corpo não alterou capacidades de Caio de fazer exercícios
Imagem: Reprodução/Instagram
Se, antes, as redes sociais eram usadas por Caio como um "diário exibicionista", elas se tornaram uma ferramenta de divulgação de amor próprio após a mudança de hábito. Falando abertamente sobre a ortorexia e outras questões do corpo, ele busca desmitificar a ideia de que o corpo gordo é sinônimo de doença.

"Hoje eu me sinto muito bem, me sinto em paz com meu corpo, luto bastante para quebrar este estereótipo de que pessoas gordas se alimentam mal, não fazem exercícios", diz.

Não é porque eu estou comendo sorvete que eu sou uma pessoa desleixada e não estou preocupada com a minha saúde, e não é porque eu estou comendo salada que eu me preocupo com a minha saúde."

A nutricionista Marcela reitera a importância do equilíbrio: "Todos os alimentos podem e devem ser ingeridos de maneira incondicional, respeitando os sinais corporais internos e identificando os motivadores para comer. Quanto mais se entende a interação de fatores sociais, culturais, genéticos e psicológicos com a comida, maior é a chance de comer de forma verdadeiramente saudável".

"Uma pessoa que tem uma circunferência abdominal fora do padrão ou um IMC (Índice de Massa Corporal) mais alto pode ser saudável. Existe o conceito dos obesos metabolicamente saudáveis, porque a gente tem que olhar para os exames, o percentual de gordura, a localização da gordura. Alimentação saudável e saúde dependem de comportamentos saudáveis, com uma vida social e condições psicológicas também saudáveis", complementa Marle Alvarenga.

Por fim, Caio reflete: "Está tudo bem ser gordo, pessoas gordas podem ser saudáveis, sim". Além de fazer exercícios e comer alimentos considerados saudáveis, ele atesta que faz o acompanhamento médico de rotina como qualquer pessoa considerada dentro do padrão.

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