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Sem se dar conta, alemães ainda usam palavras do nazismo

Sabine Peschel, Elizabeth Grenier (lpf)

2019-03-25T06:25:00

25/03/2019 06h25

Além das expressões que todo mundo conhece - e evita - na Alemanha, existem outras que soam absolutamente insuspeitas, são de uso frequente e mesmo assim vêm do período nazista."Há uma série de termos que utilizamos sem nos darmos conta de que eles têm um histórico nazista", assegura o jornalista Matthias Heine sobre a língua alemã falada nos dias de hoje na Alemanha.

Para seu livro Verbrannte Wörter: Wo wir noch sprechen wie die Nazis — und wo nicht (Palavras queimadas: onde ainda falamos como os nazistas – e onde não, em tradução literal), Heine analisou o passado de 87 termos e expressões que ainda são cotidianamente usados na Alemanha, apesar de terem origem no nazismo.

Se alguns dos piores termos cunhados pelos nazistas, como Rassenschande (vergonha racial), já praticamente desapareceram do vocabulário, outras palavras dessa era ainda são largamente usadas, apesar de também serem carregadas de significado.

Como exemplo, ele cita um incidente ocorrido em 2018, quando uma jornalista da revista Der Spiegel escreveu numa newsletter que o Sonderbehandlung (tratamento especial) dado a Israel pela política externa alemã deveria acabar. "Houve uma verdadeira shitstorm porque o termo Sonderbehandlung é comprovadamente um sinônimo para assassinato em massa, para o assassinato no sistema de campos de concentração nazistas", relata Heine.

Outro termo associado à era nazista é Parteigenosse (camarada do partido). A palavra era reservada para os membros do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães (NSDAP), já que não havia mesmo outros partidos. Era uma versão levemente modificada de Genosse (camarada), termo frequentemente usado por partidos e ativistas de esquerda.

Hoje a expressão é volta e meia utilizada por políticos do Partido Social-Democrata (SPD). Logo depois do fim da Segunda Guerra Mundial, ícones do SPD, como Willy Brandt, Erich Ollenhauer e Kurt Schumacher, certamente jamais se refeririam a colegas do seu partido usando o termo Parteigenosse – afinal, todo mundo ainda tinha a associação com o nazismo fresca na memória, afirma Heine.

Obras anteriores sobre o tema – como LTI: A linguagem do Terceiro Reich, de Victor Klemperer; Aus dem Wörterbuch des Unmenschen (Do dicionário do desumano, em tradução livre), de Wilhelm Emanuel Süskind; e Vokabular des Nationalsozialismus (Vocabulário do nacional-socialismo, de Cornelia Schmitz) – documentaram a maneira como a propaganda nazista alterou o idioma alemão.

A seleção feita por Heine inclui termos que não necessariamente têm uma conotação racista. Ele menciona, por exemplo, a palavra Groschengrab – que literalmente significa "túmulo de centavos". O termo ainda é usado, ironicamente, para descrever máquinas operadas por moedas. Ou então Kulturschaffende, que significa "criador cultural", como sinônimo de artista.

Outro termo que perdeu a associação com o Terceiro Reich é Eintopf (ensopado, ou "panela única", literalmente). A palavra não existia antes de 1930 e começou a aparecer como parte de uma campanha nazista para encorajar famílias alemãs a economizar dinheiro ao cozinharem refeições numa panela só.

"Com frequência acho palavras desse tipo mais interessantes de explorar, considerando que todos já sabemos o que pensar sobre termos como arisch (ariano), Rassenschande (vergonha racial) ou Untermensch (sub-humano)", comenta Heine.

Uma das palavras mais surpreendentes na lista do jornalista é o artigo definido masculino der. Heine explica que os nazistas o usavam para descrever um coletivo usando o singular, por exemplo: der Jude (o judeu), der Russe (o russo), der Engländer (o inglês). A expressão der Deutsche (o alemão) obviamente sempre tinha uma conotação positiva, mas com exceção dela, "quando um grupo era descrito no singular, já se sabia que ele estava ameaçado", diz o autor. Era uma forma de negar a individualidade e desumanizar grupos inteiros, acrescenta.

O livro de Heine também identifica expressões em alemão que já existiam antes da década de 1930, quando os nazistas chegaram ao poder, e que comumente se acredita terem sido cunhadas por eles.

Uma delas é Bis zur Vergasung ("até virar gás", no sentido de "fazer algo até estar saturado"), que, segundo o autor, não tinha nada que ver com as câmaras de gás. Com uso documentado antes desses instalações nazistas existirem, a expressão teria sido propagada por estudantes influenciados por aulas de química – da mesma maneira que se pode dizer "estou fervendo por dentro".

Mesmo assim, Heine considera que a expressão Bis zur Vergasung deve ser evitada, não por ser originária dos tempos nazistas, mas justamente por evocar essa associação com as câmaras de gás na memória de muitas pessoas.

Outro objetivo do jornalista é sensibilizar as pessoas sobre as conotações históricas de certas palavras usadas hoje, ainda que de forma levemente alterada, por populistas de direita e pela extrema direita alemã. Hoje, expressões como gleichgeschaltete Presse (imprensa alinhada) são usadas por extremistas para criticar a imprensa alemã, mas Gleichschaltung (alinhamento) era uma expressão de cunho positivo no vocabulário nazista.

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