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Pai escreve carta para o filho morto em ataque na Nova Zelândia

Anthony Wallace/AFP
19.mar.2019 - O morador de Christchurch, John Milne, chora no quarto de seu filho assassinado de 14 anos, Sayyad, uma das 50 pessoas mortas no massacre da mesquita da Nova Zelândia. Ele posa com uma foto de Sayyad quando criança e um quadro branco com uma carta para seu filho Imagem: Anthony Wallace/AFP

2019-03-20T11:15:00

20/03/2019 11h15

Cartas de amor para um filho assassinado e mensagens de solidariedade. Depois da matança em duas mesquitas que deixou 50 mortos, os habitantes da cidade neozelandesa de Christchurch expressam seus sentimentos em uma tela em branco.

Depois do ataque, um fotógrafo da AFP pediu a quem quisesse que escrevesse uma mensagem em uma tela branca. Depois de registrar a imagem, o quadro era passado para que outra pessoa pudesse seguir o mesmo ritual.

John Milne escreveu para seu filho, de 14 anos: "Sayyad, Sayyad Sayyad, corajoso leão caçador". E lembrou seu nascimento complicado: "meu pequeno que teve que lutar para viver desde o começo".

O sonho do adolescente, conta seu pai à AFP, era ser goleiro do Manchester United. O menino abraçou a fé de sua mãe e era muito praticante. Toda a sexta-feira ia à mesquita Al-Nur, a primeira das duas atacadas por um supremacista branco.

Anthony Wallace/AFP
A carta diz: "Sayyad Sayyad Sayyad. Corajoso Leão Caçador. Gentil cuidadoso e amável. Perdoar Esquecer Sonhar. Meu pequeno especial que teve que lutar para viver desde o começo. Agora, é um buraco maior no meu coração. Ele é um combatente. Ele quase morreu duas vezes após seu parto de 30 horas. Você deveria ver como ele caçava uma bola como goleiro. Ele fez, e vai fazer uma pequena marca no coração das pessoas. Isso é apenas o começo de tudo o que será dito sobre ele. Meu pequeno bebê de gelo. Sayyad nós amamos e sentimos sua falta. Obrigado por quem você é" Imagem: Anthony Wallace/AFP

Milne poderia ter perdido outro filho nesse dia, relata ele, porque Shuayb, o irmão mais novo de Sayyad, iria acompanhá-lo à mesquita, se não tivesse uma excursão do colégio.

Sayyad foi "executado", afirma, resumindo o pouco que sabe do assassinato do filho. "Ele caiu no chão e morreu, provavelmente após ter sofrido um tempo. As pessoas que fugiram nos contaram que o viram no chão da mesquita junto com todos os corpos".

Milne está convencido de que o assassino, o extremista australiano Brenton Terrant, não conseguirá semear o ódio entre as diferentes religiões.

"Na sexta-feira passada, um homem que acreditava (...) que ia destruir fez completamente o contrário", afirmou. "Agora está em um buraco infernal" e "não sabe nada do amor, da alegria".

Muitas das mensagens escritas no quadro branco são de unidade.

"Amo a Nova Zelândia. Estamos Unidos", escreveu Zeynia, cujo marido Abas recebeu o impacto de uma bala no pulmão.

"Não há lugar para o ódio" é a mensagem de Atish, um muçulmano de 38 anos.

Sandy McGregor escreve chorando: "é trágico saber que não veremos nunca mais esses rostos magníficos".

Russell Falcome-Price tem dificuldade para explicar o que sente. "Não tenho palavras", limita-se a dizer.

John Milne guardou a tela branca. As mensagens de solidariedade o reconfortam, mas nada lhe devolverá seu filho.

Ele o viu sair de casa na sexta-feira. Gostaria de tê-lo abraçado. "Deveria tê-lo abraçado e dito que o amava. É isso que as pessoas têm que fazer: dizer 'te amo'".

Sua carta termina com estas palavras: "Sayyad te amamos. Sentimos sua falta. Obrigado por ser quem você é".

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