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"Sinto raiva", diz sobrevivente de Columbine ao saber de massacre no Brasil

Arquivo pessoal
Heather Martin sobreviveu ao massacre de Columbine, em 1999 Imagem: Arquivo pessoal
do UOL

Diego Toledo

Colaboração para o UOL, em São Paulo

2019-03-15T04:00:00

15/03/2019 04h00

Heather Martin passou pelo pavor de testemunhar um ataque a tiros em uma escola norte-americana em 1999, quando sobreviveu ao massacre de Columbine, nos EUA. Desde então, ela revisita a sensação de desamparo que experimentou há quase 20 anos a cada vez que uma nova tragédia semelhante acontece.

Na última quarta-feira (13), quando dois jovens armados realizaram um novo massacre, com sete mortos em uma escola de Suzano (SP), não foi diferente.

"Além da tristeza, eu também sinto muita raiva", disse Heather, em entrevista ao UOL. "Fico com raiva porque outra comunidade tem de lidar não apenas com as consequências de curto prazo, mas também com as de longo prazo."

No massacre de Columbine, dois jovens atiradores, com 17 e 18 anos de idade, mataram 12 alunos e um professor em uma escola de ensino médio. Depois, se suicidaram. O episódio no Colorado se tornou um dos mais marcantes na longa lista de chacinas do tipo ocorridas em escolas dos EUA nas últimas décadas.

Heather conta que, após o crime, sofreu com fortes ataques de ansiedade. Por conta do trauma, demorou a tomar coragem para seguir sua vida nos estudos e no trabalho.

Abalada com novos casos de violência nos EUA, decidiu enfrentar o problema em 2012, após um atirador abrir fogo em um cinema na cidade norte-americana de Aurora e deixar 12 mortos.

Foi então que, com outros sobreviventes de Columbine, Heather fundou The Rebels Project, uma entidade sem fins lucrativos, gerida por voluntários, que oferece apoio a pessoas que viveram um trauma semelhante ao das vítimas do massacre de 1999.

"Nós realizamos encontros de apoio mensais, viajamos a comunidades impactadas e temos uma reunião anual, em que juntamos o maior número possível de sobreviventes", conta Heather.

"Essa rede de apoio permite que os sobreviventes não apenas compartilhem suas experiências como também a luta que enfrentamos depois", acrescenta.

Contra a glamourização da violência

Apesar do esforço para ajudar outras vítimas e sobreviventes, Heather revela que evita ler ou assistir a muitas notícias sobre ataques como o de Columbine ou Suzano.

Para ela, além de funcionar como uma espécie de "gatilho" que traz lembranças dolorosas, a cobertura da imprensa nesses episódios comete muitas vezes o erro de glamourizar a história dos autores do crime.

"É difícil haver um ataque a tiros que não faça referência a Columbine. Por causa da notoriedade daqueles atiradores, outros procuram a mesma fama", diz Heather.

"Isso é algo que a mídia ajuda a criar", acrescenta. "É preciso destacar as vítimas e sobreviventes, suas histórias de bravura e resiliência, e não ficar falando dos atiradores."

Heather, assim como muitos outros sobreviventes e familiares de vítimas de ataques a tiros nos EUA, apoia o movimento No Notoriety ("Sem notoriedade", em tradução livre).

Divulgação
Logotipo do No Notoriety, movimento que argumenta que a busca pela atenção da mídia é um fatores que motiva os responsáveis por tragédias semelhantes Imagem: Divulgação
O grupo, criado pelos pais de uma vítima do massacre no cinema de Aurora, em 2012, argumenta que a busca pela atenção da mídia é um fatores que motivam os responsáveis por tragédias semelhantes.

"Lamento muito que o Brasil esteja vivendo uma tragédia tão horrível", afirma Caren Teves, uma das fundadoras do movimento, em mensagem enviada ao UOL. "Meu coração está com aqueles que perderam pessoas amadas e com todos os que sofreram o impacto dessa tragédia."

O No Notoriety defende que a imprensa faça uma "cobertura responsável" desses crimes "pelo bem da segurança pública" e evite a exposição exagerada de nomes, fotos, vídeos ou mensagens dos autores de massacres.

Além do The Rebels Project e do No Notoriety, os ataques a tiros nos EUA resultaram na criação de diversos outros grupos de apoio a vítimas e sobreviventes dessas tragédias, assim como ações que buscam prevenir outros casos parecidos de violência.

Mães de vítimas dos EUA querem escolas mais seguras

Esse é o caso da entidade Safe and Sound Schools ("Escolas sãs e salvas", em tradução livre), criada por familiares de vítimas do massacre de Sandy Hook.

A tragédia, ocorrida em dezembro de 2012 em Newtown, em Connecticut, resultou na morte de 28 pessoas, incluindo crianças entre 6 e 7 anos de idade, na ação de um atirador que abriu fogo em uma escola de ensino fundamental.

Safe and Sound Schools/Divulgação
Michele Gay perdeu a filha no massacre de Sandy Hook, em 2012 Imagem: Safe and Sound Schools/Divulgação

"Infelizmente, para nós que vivemos este tipo de tragédia nos EUA, a cena não é inimaginável", diz ao UOL Michele Gay, uma das fundadoras da Safe and Sound, ao comentar o massacre de Suzano.

"Nós, imediatamente, sentimos os mesmos pensamentos, emoções e confusão que as pessoas de Suzano estão sentindo. É uma tristeza em um outro nível."

A filha de Michele, Josephine, tinha 7 anos quando foi morta em Sandy Hook.

A entidade de Michele se dedica a atuar junto às escolas para oferecer orientações e apoio para a adoção de medidas que garantam um ambiente mais seguro e saudável para o desenvolvimento educacional dos estudantes.

A Safe and Sound adota uma abordagem multidisciplinar para lidar com o desafio da segurança nas escolas, incluindo ações que vão do combate ao bullying até a prevenção contra o uso de drogas.

"A necessidade de integração na nossa sociedade é ainda maior diante de tragédias individuais ou coletivas", afirma Michele. "E também é preciso oferecer apoio à saúde mental para todas as pessoas afetadas por essas tragédias."

"Estamos apenas começando a entender as consequências de longo prazo que este tipo de trauma e violência pode ter", acrescenta. "Para muitos de nós, aprender com outros que já viveram a nossa jornada é muito importante."

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