Topo

O relato da jovem que foi abusada e torturada pelo padrasto durante 9 anos

Reprodução/Instagram
Eva Luana fez denúncia aos 13 anos, mas investigação não avançou Imagem: Reprodução/Instagram

Do BOL

Em São Paulo

2019-02-21T18:57:23

21/02/2019 18h57

Eva Luana, estudante de direito de 21 anos, usou o Instagram para denunciar os nove anos em que foi vítima de abusos e tortura pelo padrasto. Thiago Oliveira Alves está preso desde o último dia 13 de fevereiro, acusado de abuso, estupro de vulnerável e tortura na Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (DEAM) de Camaçari (BA). 

As postagens foram feitas na última terça-feira, dia 19, viralizaram e chegaram a ser compartilhadas por influenciadoras nas redes sociais.

Ao Universa, Eva contou que não viveu, mas sobreviveu durante todos esses anos. Segundo ela, as publicações tinham o objetivo de proteger a si mesma e a mãe, que também passou pela violência durante o período, além de outras mulheres: "Eu contei a minha história para proteger, também, as meninas do meu município, do meu Estado, que podem estar passando pela mesma coisa, e para conseguir que o processo corra mais rápido", disse a jovem.

A seguir, o relato da estudante publicado no Instagram:

"A todos que me ajudaram até aqui, seja no 'desaparecimento' ou agora, com os fatos verdadeiros, a minha eterna gratidão. Aos meus amigos de infância, que eu fui obrigada a abandonar um por um, preciso pedir perdão. Não vou citar nomes, mas quem está firme comigo sabe, eu vou retribuir com todo o meu amor e relembrar até a minha velhice.

Reprodução/Instagram
Eva postou a denúncia nas redes sociais dia 19 Imagem: Reprodução/Instagram
Meu caos teve início quando eu tinha 12 anos, minha mãe era agredida, abusada, violada e torturada quase todos os dias. Meu padrasto era obsessivo e ciumento com ela. Resumindo de uma maneira geral, ela era agredida com chutes, joelhadas, objetos. Era abusada sexualmente de todas as formas possíveis. Era obrigada a tomar bebidas até vomitar e, quando vomitava, tinha que tomar o próprio vômito como castigo.

Ele começou a me abusar sexualmente. Eu tinha nojo, repulsa, ódio e não entendia por que aquilo acontecia comigo. Me sentia uma criança estranha e diferente das outras. Achava que aquilo só acontecia comigo. Eu tentei por diversas vezes ir para a casa da minha avó, mas ele sempre ligava ameaçando todos, dizendo que iria matar e fazer várias coisas assim. Era uma prisão sem grade, literalmente.

Reprodução/Instagram
Eva relatou abusos e torturas sofridos por 9 anos Imagem: Reprodução/Instagram
Quando eu fiz 13 anos, o denunciei. Nessa denúncia eu tinha certeza que seria salva por todos. Mas não foi isso que aconteceu. O Estado falhou a tal ponto que o meu caso não chegou nem ao Ministério Público. Fui obrigada a retirar a queixa por ameaças do meu padrasto. Ele utilizou o poder financeiro pra comprar a liberdade e comprar a minha alma. Porque, ali, eu perdi a minha alma.

E o que eu fui denunciar, um ano de sofrimento, se multiplicou em mais oito anos"

Desde então os abusos, torturas e todo tipo de agressão foram aumentando dia após dia, ano após ano. Eu não tive mais vida social. Tudo era uma farsa. Ele nos obrigava a fingir que tínhamos uma família perfeita. As agressões eram verbais, físicas e psicológicas. Entre elas, comer muito, em tempo estipulado - isso aconteceu com uma pizza família, para comer inteira em 10 minutos. Óbvio que não conseguimos. Tínhamos que tomar 2 litros de refrigerante nesses 10 minutos. Eu levei socos no rosto e ele não deixava eu me proteger com a mão. Chutes até cair no chão.

Comigo de quatro, ele enfiou as pizzas na minha boca me chamando de animal, eu vomitei e comi meu próprio vômito. Meu gato comeu um pedaço e lambeu outro, e ele me obrigou a comer o que ele [o gato] havia lambido. Eu apanhei a noite toda e, no outro dia, eu tinha que fingir que nada havia acontecido.

Eu era obrigada a fazer todos os trabalhos da faculdade dele e, se eu não fizesse perfeitamente, eu pagava o preço. Eu também respondia todas as provas da faculdade, era obrigada a sair mais cedo da minha aula para responder às provas dele pelo celular. 

Existiam castigos e punições para tudo. Até mesmo se eu não pagasse uma conta no banco que estava superlotado, mesmo tendo horários no trabalho ou estágio.

Meu celular era vistoriado todos os dias de noite. Ele desinstalava o WhatsApp e reinstalava novamente para poder recuperar as conversas apagadas. Eu não podia namorar. Eu não podia sair com meus amigos, não tinha vínculo social com ninguém. Todos os vínculos eram vigiados e ele sempre respondia pessoas como se fossem eu. Todas as minhas senhas no celular, redes sociais e e-mail eram monitoradas por ele. 

Ele me vigiava na porta da sala da faculdade. Todos percebiam e me viam chorando. Ele me tratava mal em público. Ele me agredia nos estupros, mas depois de um tempo, só utilizou de ameaças contra a minha família. Eu era usada como um lixo. Já abortei diversas vezes. Nunca pude ir ao médico para fazer curetagem. Todas as vezes eu sangrava e passava mal a noite inteira. Já vi os bebês inteiros no vaso sanitário. 

Eu era chamada de burra, anta, doente, demente todos os dias e era obrigada a repetir isso para mim mesma. Quando era solicitada pelo trabalho ou convidada pra algo que eu não poderia recusar, era obrigada a mandar 'print' pra ele me permitir ir ou não. Minha mãe era agredida psicologicamente constantemente, também, não tinha mais voz ativa dentro de casa. Ele arrancou a alma dela também. Ele é um monstro, perdi minha infância e adolescência. Me sentia um lixo por não ter forças para pedir ajuda e por sentir tanto medo. 

Minha irmã não tinha amor de um pai. Ela morria de medo dele, pois sempre viu ele fazendo essas atrocidades conosco. Ele foi um pai macabro para ela. Não tínhamos liberdade, respeito e cuidado. Nosso dinheiro era entregue para ele sempre. Não tínhamos autoridade pra poder comprar ou utilizar como queríamos. Tapas inesperados, gritaria e agressões eram constantes a qualquer momento.

Reprodução/Instagram
Eva ao lado da mãe, que também sofreu tortura Imagem: Reprodução/Instagram
Minha mãe apanhou tanto que teve um parto prematuro, meu irmão morreu depois de 6 dias de nascido. Quando ela estava grávida dele levou diversos chutes e joelhadas na barriga. Ele não queria mais um filho. Ela pulou um muro para se salvar - mais de dois metros de muro - com as unhas.

Eu passei em várias faculdades, mas só pude ficar onde ele autorizou. Eu era vigiada. Meu aniversário foi comemorado no meu estágio e eu não pude estar presente.

Dormia sempre na casinha da minha cachorra, local sujo e úmido sem ventilação ou janelas. Lá não tinha luz. Passei várias horas sem comer. Era obrigada a passar a madrugada inteira em pé, durante horas e horas, até amanhecer o dia. Já dormi na rodoviária várias vezes. Obrigada a ir e voltar da faculdade andando. Cruzava a cidade inteira tarde da noite com medo, fome e às vezes na chuva. 

Quando chegava em casa não podia sentar e tudo iniciava novamente. Eu já saí pelada na rua de madrugada e ele dizia que era para eu ser estuprada por homens. Ele tirava fotos minhas com o meu celular e enviava para ele mesmo, para fingir que era eu, criava conversas nojentas com ele mesmo. Meu celular era monitorado sempre. Eu perdi os amigos e a confiança na Justiça.

Minha família era proibida de se aproximar, então, todos achavam que eu e minha mãe não queríamos contato. Mas, na verdade, éramos proibidas por ele em tudo o que fazíamos. Eu sinto ânsia, repulsa e pavor da presença dele. Eu tive tanto medo de morrer, de perder a minha irmã ou minha mãe. Ele é um monstro obsessivo e possessivo. Nossos gritos foram calados e tem muito mais para contar que não daria para escrever aqui. Eu tentei gravar um vídeo, mas para mim foi muito mais pesado essa gravação.

Reprodução/Instagram
Imagem mostra o abusador vigiando Eva pelo vidro Imagem: Reprodução/Instagram
Essa foto mostra ele me procurando pelo vidro da porta da sala, ele sempre fazia isso durante as minhas aulas. Decidi escrever. Fui salva e resgatada por anjos. Um anjo se apaixonou por mim e não compreendeu o porquê de eu ser tão triste. Eu só falei a verdade para ele porque achava que iria morrer. Ou ele mataria, ou eu me mataria.

Tentei me matar várias vezes com cortes e remédios. Eu contei a verdade pois não aguentava mais. Ele buscou ajuda de um outro anjo, que me mostrou que a Justiça ainda pode nos salvar. Desde então, todos colaboram como uma cadeia de solidariedade e amor. Estamos em segurança, mas ao mesmo tempo correndo riscos.

Medo me define por completo, no entanto, tenho forças pra dizer: 'Lutei como uma garota e vou continuar lutando por outras garotas. Se algo me acontecer eu não terei dúvidas que tentei sair dessa e lutei essa guerra com todas as minhas forças. Eu sou apaixonada pela vida e pela liberdade, eu pulei fases, pulei etapas, não tive adolescência, nem infância... Ele não pode sair impune, a justiça tem que ser feita o quanto antes. Estado, não falhe comigo novamente. Com amor, Eva."

Para receber notícias do Brasil e do mundo, acesse o Messenger do BOL, digite "Notícias" e clique em "Sim". É simples e grátis!

Mais Notícias