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ONG americana cria "Airbnb" para ajudar na reinserção de ex-detentos

20/02/2019 09h55

Marc Arcas.

San Francisco, 20 fev (EFE).- Ao sair da prisão depois de ter cumprido uma condenação de 30 anos, Richard estava ciente da dificuldade que teria para achar um lugar para refazer a vida, e o apoio de uma ONG americana que criou um "Airbnb" para ex-presos foi fundamental.

Quando alguém que passou muito tempo preso sai com poucos recursos e sem uma rede de amigos, acaba terminando, muitas das vezes, em alojamentos transitórios, abrigos ou até na rua, o que levou a organização sem fins lucrativos Impact Justice a desenvolver um pioneiro modelo de reinserção.

Richard, que pediu à Agência Efe para ser identificado apenas com o primeiro nome, foi o segundo ex-detento a participar do programa, batizado de "Homecoming Project".

A proposta da organização é pagar US$ 25 por dia (cerca de R$ 90) durante seis meses para que um proprietário de apartamento alugue o seu quarto para alguém recém-saído da prisão.

"Fiz entrevista com três proprietários e finalmente me mudei para a casa de uma mulher que tinha um quarto extra. A proprietária me disse: 'Esta é a sua nova casa. Aqui estão as chaves. Entre e saia quando quiser'. Entrei na prisão aos 16 anos por assassinato. Nunca tive a minha própria casa antes. Limpo o banheiro, faço todo tipo de tarefa do lar e a proprietária diz que sou o melhor companheiro de apartamento que ela jamais teve", contou Richard.

O programa é voltado a pessoas que tenham cumprido penas de pelo menos dez anos por crimes violentos (que são as que têm mais dificuldade na hora de encontrar uma casa) e os participantes passam por uma rígida análise, incluindo várias reuniões, relatórios penitenciários e visitas ao novo lar.

"O Airbnb nos mostrou que existem muitas pessoas com casas e quartos extras para alugar. Decidimos, então, criar um Airbnb para as pessoas que saem da prisão", explicou à Efe o presidente da Impact Justice, Alex Busansky.

O programa tem atualmente oito participantes na região da baía de San Francisco, principalmente na cidade de Oakland (Califórnia). A ideia é expandir para 25 até o final do ano, além de começar a operar também no Texas.

"Quando a pessoa tem dinheiro quando sai da prisão, ela pode alugar qualquer quarto de Airbnb do mundo e ninguém fará perguntas", indicou Busansky, ressaltando que o programa foi muito bem recebido e que a equipe da ONG está recebendo várias cartas de detentos interessados em participar futuramente.

Os US$ 25 diários que os proprietários recebem vêm de doações que pessoas comuns fazem para a Impact Justice e somam no máximo US$ 775 por mês (R$ 2.890), muito abaixo do que os donos poderiam conseguir se alugassem os espaços em um mercado imobiliário tão procurado quanto o de San Francisco.

"Não procuramos potenciais participantes por meio de uma campanha de marketing ou vendas. A nossa busca é individual e personalizada. Queremos que as pessoas conheçam as experiências de quem já está no programa. Claro que isso exige um esforço, mas é fundamental para estabelecer a confiança entre as duas partes e superar medos preconcebidos que proprietários possam ter", destacou a coordenadora do projeto, Terah Lawyer.

O "Homecoming Project" ainda não estava operando quando Richard saiu da prisão, em junho do ano passado, por isso o seu primeiro destino foi um alojamento de transitório, onde ele morava com outras 31 pessoas, dormia em um beliche e tinha que voltar ao local diariamente às 21h30.

"Eu era livre, mas a sensação não era de liberdade", ressaltou à Efe.

Atualmente, ele já conseguiu refazer a vida e trabalha como responsável financeiro em uma organização dedicada à prevenção e ao tratamento de episódios de violência.

"Acho que existe uma imagem equivocada sobre as pessoas que saem da prisão depois de anos encarceradas. Quando sai, a maioria quer fazer o bem, conseguir um emprego e trabalhar duro", concluiu. EFE

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