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"Quero paz": vovô do slime sente medo de sair de casa após vídeo viralizar

Arquivo pessoal
Nilson Izaias, em seu sítio em Juquiá: do "dia mais feliz da vida" ao medo de sair de casa Imagem: Arquivo pessoal
do UOL

Bruna Souza Cruz

Do UOL, em São Paulo

12/02/2019 09h37

Ele queria levar uma vida tranquila em seu sítio em Juquiá, interior de São Paulo, quando, de repente, viu sua rotina de aposentado virar de ponta cabeça. Aos 71 anos, Nilson Izaias acaba de virar o mais novo fenômeno na internet brasileira. Em poucos dias, o vídeo com sua sétima tentativa de fazer slime (aquela meleca pegajosa que é febre entre as crianças) desbancou vídeos de Anitta, Porta dos Fundos e Felipe Neto como o mais acessado no YouTube.

"O dia mais feliz da vida" de seu Nilson, hoje conhecido como "vovô do slime", já foi visto quase 10 milhões de vezes e seu canal passou a ter 4,3 milhões de inscritos.

Junto com a fama inesperada vieram, como sempre, os haters.

Veja o vídeo de seu Nilson fazendo slime

UOL Entretenimento

O aposentado passou a receber uma série de mensagens de ódio. Perfis falsos invadiram a área de comentários e passaram a fazer acusações graves --a história de que ele seria pedófilo também começou a viralizar. Em entrevista ao UOL Tecnologia, seu Nilson se defendeu e contou que está assustado com a agressividade, a ponto de temer sair de casa para enfrentar a fama inesperada.

Ele afirma que "tudo o que dizem de ruim é mentira" e ele só quer ter "paz".

Estou evitando sair porque todo mundo me conhece agora, saio meio disfarçado. Tem gente tirando foto... Eu nunca quis fama, ser famoso na vida. Eu só queria aumentar um pouquinho [o número de seguidores]. Tenho 71 anos, pra que eu quero ser famoso agora no fim da vida?

Seu Nilson, que completará 72 anos no início de abril, está claramente incomodado com os perfis falsos que foram criados com seu nome e com os comentários negativos e montagens que esses fakes estão divulgando. "São pessoas querendo se promover em meu nome", diz.

Eu gravei o vídeo e publiquei. Fui dormir com 1.700 visualizações e acordei no outro dia com 77 mil pessoas. Fiquei meio confuso. Assim, não tinha caído a ficha... Com muito custo é que fiquei sabendo dos comentários. Isso fere a gente, deixa a gente chateado

A reportagem perguntou se ele pensa em ir até uma delegacia para fazer um boletim de ocorrência contra as ofensas recebidas na internet -- já xingar nas redes sociais pode acabar na Justiça. Mais uma vez a resposta foi: "eu só quero ter paz."

Até o momento não há registro de nenhuma denúncia formal contra seu Nilson.

Outra coisa que virou motivo de ataques por parte dos internautas foi seu voto em Jair Bolsonaro nas eleições presidenciais de 2018. 

Eu não entendo muito de política. Votei em determinado candidato, mas nem sabia que ele era contra isso ou aquilo, nem sabia que a pessoa que foi eleita era contra algumas coisas. Votei porque tinha que votar, tinha dois e escolhi um. Não gosto disso, político hoje em dia está uma caca

Fama e medo

Para ajudar nessa surpreendente batalha, o filho único do aposentado, Flávio Gargia Izaias, precisou entrar em cena. Ele criou perfis do pai no Instagram e Twitter, numa tentativa de evitar mais fakes, e agora cuida da conta do YouTube. Ao UOL Tecnologia, ele contou que agora fica com o celular do pai boa parte do tempo para evitar que ele se aborreça com os comentários ofensivos.

"Eu estou sentindo que ele está super nervoso com toda essa repercussão [a positiva e a negativa]. Estou meio que ajudando ele dentro do possível, evito deixá-lo sozinho aqui para ele não se assustar com as visitas inesperadas. Hoje mesmo já vieram umas três pessoas querendo tirar selfies com ele. Eu libero, mas peço compreensão", contou.

O filho também está preocupado com a saúde de seu Nilson, já que ele tem problemas no coração e precisa se cuidados. Durante a entrevista, o aposentado contou que anda de bicicleta para se manter ativo e saudável. Fazer os vídeos para o YouTube também era parte dessa missão de se cuidar.

Quem é o vovô do slime?

Seu Nilson morou por muitos anos em São Paulo e trabalhou por 28 anos em uma escola, em diferentes funções como serviços gerais e auxiliar de manutenção.

Em 2017, quando se aposentou, mudou com a mulher para um pequeno sítio que a família possuía em Juquiá (cerca de 130 km de São Paulo) para ter "um sossego". Foi aí que começou a se aventurar no mundo da tecnologia.

"Na escola, eu via a turma mexendo no computador, mas só ficava olhando. Depois, comprei um celular e resolvi usar para passar o tempo aqui no sítio. No começo eu quis mostrar um pé de frutas, falar das árvores, dos passarinhos", diz.

Eu pensei 'vou fazer isso aqui e vou mostrar para a turma [amigos, família]'. Meu sonho era só ter mil pessoas e não tudo isso que tem

O canal no YouTube começou há 11 meses e reúne vários vídeos sobre a sua rotina no sítio em Juquiá. O aposentado contou ainda que aprendeu a fazer tudo sozinho: a gravação, o "roteiro" e a publicação do vídeo na plataforma.

Ao notar que o número de seguidores estava emperrado, teve a ideia de fazer vídeos com temas diferentes. Pensou então no slime, tema super em alta no YouTube.

"Eu nem sabia muito como ele publicava os vídeos. Até achei estranho como ele conseguiu, mas ele me explicou. Eu sou bem leigo nessas coisas", contou o filho do aposentado.

Monetização dos vídeos

Assim que o vídeo do slime viralizou, vários internautas começaram uma "campanha" para alertá-lo sobre a chance de monetizar os vídeos no YouTube. O youtuber e mágico Pyong Lee decidiu ajudá-lo e foi até a casa de seu Nilson no último dia 7 para ensiná-lo a ganhar dinheiro.

Seu Nilson agora aguarda a análise do YouTube. "Caso dê certo, quero pagar minhas dividazinhas, algumas contas atrasadas e depois ajudar as pessoas. Eu queria que esses milhões de inscritos [do seu canal] começassem a seguir as pessoas com 100, 200 seguidores. Dá uma ajudinha para elas", afirmou.

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