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Para analistas, governo Maduro não termina o ano; veja as opções do ditador

YURI CORTEZ/FP
Esta montagem criada em 02 de fevereiro mostra o presidente venezuelano Nicolas Maduro (esquerda) em discurso que marca o 20º aniversário da ascensão ao poder de Hugo Chávez; ao lado, o líder da oposição, Juan Guaido, discursa para milhares de apoiadores em Caracas Imagem: YURI CORTEZ/FP
do UOL

Talita Marchao

Do UOL, em São Paulo

11/02/2019 04h00

Desde que o deputado opositor Juan Guaidó se autoproclamou presidente interino da Venezuela e grande parte da comunidade internacional o reconheceu, o país vizinho vive uma situação inusitada: tem dois presidentes. Ambos anunciam medidas, muitas vezes contraditórias --se a ajuda humanitária pedida por Guaidó e vetada por Nicolás Maduro entraria ou não no território venezuelano, por exemplo. Para analistas de risco político, a queda de Maduro não é iminente, mas eles afirmam que ele não terminará este ano no poder. 

Esta é a aposta tanto da Eurasia Group, uma das maiores consultorias de risco do mundo, quanto do Crisis Group, ONG independente que atua no monitoramento de conflitos internacionais. 

"A intransigência do regime e a falta de credibilidade dos integrantes do regime tornam a transição mais provável para se estender por meses, em vez de dias ou semanas. Independentemente disso, hoje parece improvável que Maduro sobreviva no cargo até o fim do ano", afirma Risa Grais-Targow, diretora para América Latina da Eurasia, nos relatórios de análise de risco, que projetam a Venezuela em um cenário negativo a longo prazo.

Phil Gunson, consultor do Crisis Group para Venezuela e América Latina, concorda com a previsão. "Eu não apostaria que a presidência de Maduro sobreviva até o final do ano. O que é realmente difícil de prever, no entanto, é precisamente de que forma isso vai acabar. Há um risco definitivo de violência grave, até porque a incapacidade de resolver a crise dentro de um curto período de tempo --semanas, não meses-- levará a uma maior pressão para o uso da força militar", afirma  

Sem perspectiva de negociação, Gunson vê chance de confronto. "As facções armadas que apoiam o governo --tanto militares quando civis-- podem até mesmo se enfrentar. Há pouca inclinação em ambos os lados para negociar neste momento", analisa Gunson.

Quais são as alternativas de Maduro?

O herdeiro de Hugo Chávez enfrenta o seu maior teste desde que assumiu o poder, em 2013. Mas, desta vez, a oposição venezuelana --que atuou de forma totalmente desarticulada nos últimos anos-- está centrada na figura de Guaidó, presidente da Assembleia Nacional de maioria opositora que foi destituída por Maduro em 2015. O engenheiro de 35 anos é uma figura carismática e conta com apoio de países como os EUA, União Europeia, e os vizinhos Brasil e Colômbia.

O governo brasileiro reconhece Juan Guaidó como presidente interino e já se reuniu com a embaixadora indicada por ele para o cargo, Maria Teresa Belandria --a Venezuela de Maduro não têm embaixador no Brasil desde 2016, quando retirou seu representante após o impeachment de Dilma Rousseff (PT).

Veja o que pode acontecer agora com o ditador:

Esperar a oposição se desarticular - "O cálculo do governo de Maduro parece ser que, se eles puderem sobreviver por alguns meses dessa forma, a oposição se esvaziará e o risco para Maduro e seus aliados diminuirá. Eles acreditam que o fenômeno Guaidó poderia ser apenas temporário, principalmente se ele for incapaz de cumprir sua promessa de mudança de governo e a chegada de ajuda humanitária. Ao deixar Guaidó intocado e não responder às provocações, como as tentativas dos EUA e de outros países de trazer ajuda, Maduro pode evitar um confronto militar, que dificilmente venceria", analisa Gunson, do Crisis Group.

Mais violência - Na avaliação de Risa Grais-Targow, da Eurasia, a única opção de Maduro para permanecer no poder será radicalizar ainda mais e contar com ações muito mais agressivas, como prender Guaidó. "O governo venezuelano está avaliando claramente essas opções e tem as ferramentas institucionais para fazê-lo. No entanto, essa também seria uma estratégia muito arriscada em um contexto em que o governo de Donald Trump (EUA) já mostrou seu nível de compromisso com a mudança de regime na Venezuela e continua a sugerir uma ação militar, com apoio dos dois maiores vizinhos da Venezuela e grande parte da região", diz a diretora da Eurasia.

"Tudo depende, no entanto, da manutenção da lealdade das Forças Armadas, sem a qual o governo cairia quase que imediatamente. Até agora, houve poucas falhas públicas nessa lealdade, embora esteja claro que o descontentamento entre os militares é profundo. Ninguém sabe ao certo se os baixos escalões inferiores se moverão contra Maduro ou não", analisa Gunson, do Crisis Group.

Se existisse uma divisão aproximadamente igual nas Forças Armadas, poderia haver um conflito interno significativo. "É importante lembrar que Maduro também tem civis armados e unidades policiais especializadas --e sem escrúpulos-- em infligir morte e ferimentos em oponentes do governo", diz Gunson.

Propostas de diálogo - Desde que Guaidó passou a ganhar apoio internacional, Maduro o acusou de golpismo e depois insistiu em tentativas de diálogo, afirmando inclusive que o opositor teria se encontrado com representantes do chavismo, o que Guaidó nega.

"Por enquanto, Maduro provavelmente continuará a usar suas ferramentas típicas, que inclui ameaças contra a oposição e gestos conciliatórios, como se oferecer para negociar na esperança de que isso os enfraqueça e diminua a pressão internacional. Mas, já tendo entrado em vários processos de diálogo apenas para ver o governo se recusar a oferecer concessões reais, é altamente improvável que a oposição caia neste truque e, em vez disso, deve insistir em eleições como o único caminho a ser seguido", afirma a Eurasia.

Outro chavista no poder - Maduro poderia renunciar e permitir que outro político chavista ou até mesmo um militar assuma o poder. "Maduro não mostra nenhum sinal de querer negociar seriamente. Se Maduro fosse substituído por outra figura do chavismo --militar ou civil-- não acabaria com a crise. Seria um sinal de fraqueza que a oposição e seus aliados externos procurariam imediatamente explorar", afirma Phil Gunson, do Crisis Group.

"Seria muito difícil manter o nível de repressão e violência que provavelmente seria necessário para defender um regime muito mais endurecido, dada a dramática deterioração econômica, o intenso isolamento internacional, e dinâmica social volátil. Esses fatores tornariam extremamente difícil para o chavismo projetar e sustentar um transição com um líder alternativo", diz a Eurasia.

Novas eleições - Outra para Maduro seria anunciar a realização de outra nova eleição --e respeitar os resultados. Entretanto, esta opção é bem improvável. O analista lembra que o governo de Maduro se recusou a refazer a eleição presidencial de maio de 2018 sob uma autoridade eleitoral neutra e com observadores internacionais.

Este cenário torna-se ainda mais difícil considerando que os interesses dos grupos que apoiam Maduro, como os militares. "Para a cúpula militar abandonar Maduro, seus integrantes precisariam sentir que o regime é verdadeiramente insustentável. As Forças Armadas não são, de forma alguma, um corpo homogêneo, e coordenar um rompimento com Maduro é difícil. Na medida em que existe agora uma única figura da oposição para negociar, isso também fará potencialmente tornará as discussões mais fáceis. Os custos de abandoná-lo ainda são muito altos", analisa a diretora.

Vai para Cuba? - Segundo a Eurasia, fontes diplomáticas russas afirmaram que o Kremlin gostaria de ver Maduro fugir para Cuba, abrindo caminho para que uma figura adequadamente antiamericana ocupasse seu lugar, já que os interesses do presidente Vladimir Putin na região são não só econômicos, mas também geopolíticos.

"Ter um relacionamento com um líder sul-americano em desacordo com os EUA é desejável, e Maduro é o interlocutor preferido do Kremlin para esta função. Mas Moscou não vai se esforçar para proteger Maduro, particularmente em um contexto em que o governo Trump está focado em forçar a mudança do regime venezuelano", argumenta Risa. "A Rússia tem tradicionalmente dado suporte militar ao governo venezuelano por meio de acordos de armas, mas Moscou deve seguir cautelosamente em uma tentativa de evitar um confronto militar com os EUA ou de enfrentar sanções adicionais."

Para Gunson, é muito difícil imaginar como Maduro ou qualquer pessoa de seu círculo íntimo poderia permanecer na Venezuela depois de deixar o poder. "Seria difícil ou impossível garantir sua segurança física, dado o ódio que eles inspiram em muitos cidadãos comuns. O Partido Socialista Unido da Venezuela [chavista], no entanto, pode se reorganizar sob outras lideranças e, na verdade, seria um bom sinal para o futuro do país se ele se tornasse um partido democrático e participasse em condições de igualdade com os outros", afirma o consultor do Crisis Group.

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