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Professora relata episódio de racismo em prédio de alto padrão em São Paulo

A professora de inglês Márcia Leite foi impedida de usar a entrada social em prédio de bairro nobre de São Paulo - Reprodução/Facebook
A professora de inglês Márcia Leite foi impedida de usar a entrada social em prédio de bairro nobre de São Paulo Imagem: Reprodução/Facebook

Pedro Fonseca

do BOL, em São Paulo

24/01/2019 16h24

Márcia Leite, professora de inglês, denunciou em suas redes sociais, na última quarta-feira (23), um episódio de racismo sofrido em prédio de alto padrão no bairro do Brooklyn, na zona sul de São Paulo. Em texto publicado no Facebook, ela contou que foi impedida de usar a entrada social ao chegar para dar uma aula particular, sem nem mesmo ser perguntada por que estava ali.

"Cansada?!? Não sei qual o sentimento que resume o que sinto ao experimentar isto mais uma vez! Será mimimi? Talvez! Será que nos preocupamos muito com detalhes que deveríamos apenas 'deixar pra lá?' Não sei! Só sei que estou indignada", escreveu a professora.

Post da professora de inglês  - Reprodução/Facebook - Reprodução/Facebook
Post da professora de inglês Márcia Leite denunciando racismo
Imagem: Reprodução/Facebook

Procurada pelo BOL, Márcia deu um depoimento relatando o caso: 

"Eu tenho uma aluna na região do Brooklyn, em São Paulo. Normalmente, dou aula no prédio onde ela trabalha, no Itaim. Entro com meu carro pela garagem. Mas este mês ela está de férias, então perguntou se eu poderia dar aulas em sua residência.

No primeiro dia deixei o carro no estacionamento que fica no quarto subsolo do prédio, mas, nos outros dias, parei na rua. Essa foi a terceira vez.

Na primeira vez, entrei pela área social sem problema algum. Na segunda vez também. Na terceira, fiz como de costume, mas a moça olhou para mim e começou a apontar o elevador de serviço."

Eu estranhei e comecei a apontar para o elevador social. Nós não estávamos nos falando, o vidro impedia que dialogássemos.

Eu pensei que ela quisesse conversar comigo, então fui até a porta de serviço. Aí ela me disse: "Você vai ter que entrar por aqui". Eu perguntei: "Por quê?". Ela falou: "Lá é o social". Então eu respondi: "Por que eu não posso ir pelo social?". Então ela fez uma cara de assustada e perguntou para o moço que estava junto e ele respondeu: "O supervisor não deixa".

Aí eu perguntei: "É por causa da cor da minha pele que eu não posso entrar pelo social?". Ela ficou toda sem graça, foi então que o rapaz veio e disse: "Não, minha senhora, não é nada disso. É procedimento do prédio". Foi então que expliquei que já eu tinha entrado outras vezes e ele respondeu: "Desculpe o mau entendido, isso não vai acontecer mais".

A diarista do prédio me conhecia e disse aos porteiros: "Ela é professora de inglês". Notei que os dois ficaram assustados com a informação."

Eu entrei pela entrada de serviço, mas me dirigi ao elevador social.

Quando soube, a minha aluna ficou indignada e falou com o síndico, que apenas pediu desculpas."

Racismo estrutural

O episódio relatado por Márcia Leite está longe de "mimimi", como chegou a questionar a vítima, pois é reflexo do racismo estrutural existente na sociedade brasileira, na opinião de Taina Aparecida Silva Santos, mestranda em história social pela Unicamp (Universidade de Campinas). "O racismo está na base da nossa sociedade e molda nossa racionalidade e capacidade cognitiva", explica. Para a pesquisadora, nosso sistema naturaliza o lugar da mulher negra na servidão e do homem negro na criminalidade

Segundo a historiadora, para pensar o racismo nos tempos de hoje, é importante ressaltar que nosso país aboliu a escravidão há pouco mais de 100 anos. "Precisamos salientar que a escravidão não existe mais, por mais bobo que pareça. Essas formas de organização da sociedade estão colocadas em várias estâncias. Estão nas escolas e na mídia, principalmente. Essa recorrência é pelo fato de o sistema não contribuir no debate dessa questão", analisa. 

Para Taina, em casos como o de Márcia, é importante denunciar: "Antes de qualquer coisa, o crime deve ser retratado. Racismo é crime. A vítima deve entrar com uma denúncia e ser indenizada. A empresa responsável tem que arcar com as consequências", diz a historiadora.

Márcia Leite não fez uma denúncia formal contra o prédio para preservar a aluna, mas acha importante que as pessoas saibam desse tipo de situação para que possam refletir sobre o próprio comportamento. "É só um desabafo! Precisava dividir a minha indignação. Sei que vai demorar, mas uma hora a gente chega lá!", escreveu ela.

A pesquisadora Taina Aparecida Silva Santos não tira a responsabilidade da funcionária do prédio, mas reforça que esse comportamento é parte de um sistema racista: "Uma educação que ensinou isso a uma pessoa, ela não teve escolha. Se as instituições políticas avançaram no debate sobre o assunto, as empresas precisam acompanhar esses avanços, não podem parar no tempo. É importante que os empregadores trabalhem para que seus funcionários não reproduzam o racismo estrutural", completa Taina.

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