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Crise na Unasul deixa joia arquitetônica praticamente abandonada no Equador

Dolores Ochoa/AP
19.dez.2018 - O prédio da Unasul, em Quito, no Equador, está praticamente abandonado Imagem: Dolores Ochoa/AP
do UOL

Joshua Goodman

Da AP, em San Antonio de Pichincha (Equador)

12/01/2019 04h01

É um edifício que desafia a gravidade e que se adequa às elevadas ambições do que deveria ser um símbolo da unidade sul-americana.

Tendo como cenário uma paisagem árida na linha equatorial, duas asas envidraçadas crescem dramaticamente acima de um espelho d'água, simbolizando a liberdade e a transparência e parecendo algo saído de um filme de ficção científica.

Mas, apesar de toda a sua grandeza arquitetônica, a sede da União das Nações Sul-Americanas (Unasul) nos arredores da capital do Equador parece tão moribunda quanto o próprio grupo. O que antes era um ambicioso centro diplomático repleto de tradutores e coquetéis oficiais para visitantes dignitários se parece mais com um prédio fantasma, com apenas metade da equipe que tinha quando foi inaugurado com pompa e circunstância em 2014.

O principal arquiteto do grupo, o ex-presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, está preso por corrupção, enquanto o outro grande incentivador, o venezuelano Hugo Chávez, morreu.

Enquanto isso, uma mudança para a direita na política deixou a região no período mais polarizado em décadas, diminuindo o entusiasmo pelo hino anti-imperialista do grupo: "Soy del Sur" ou "eu sou do sul".

"A Unasul foi uma boa ideia, mas no final não produziu resultados concretos", disse Michael Shifter, presidente da organização Diálogo Interamericano, com sede em Washington.

Em abril, metade dos 12 estados-membros da Unasul --Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, Paraguai e Peru-- pararam de pagar e suspenderam a adesão. Então, em agosto, o recém-eleito presidente colombiano Ivan Duque renunciou ao tratado, abrindo caminho para a retirada de seu país em fevereiro.

O resultado é um déficit de US$ 20 milhões que levou a cortes orçamentários generalizados. No ritmo atual, o grupo, que está sem secretário-geral há dois anos, vai queimar todas as suas reservas de caixa até abril. Nessa mesma época o Brasil, cujo presidente, Jair Bolsonaro, criticou a Unasul, assume a presidência rotativa do grupo.

Para os críticos que veem a Unasul como pouco mais do que um monumento perdido para o movimento esquerdista durante o boom das commodities da década anterior, sua sede é um alvo conveniente.

Projetado pelo arquiteto equatoriano Diego Guayasamin, o edifício de US $ 43 milhões foi construído e doado ao grupo pelo ex-presidente equatoriano Rafael Correa, protegido de Chávez.

O prédio premiado, 75% do qual é subterrâneo, é equipado com uma sala de reuniões de última geração, uma impressionante coleção de arte e salões nomeados com ícones esquerdistas como o poeta chileno Pablo Neruda e o ganhador do Prêmio Nobel, Gabriel Garcia Marquez. Assim como em prédios públicos na Venezuela governada pelos socialistas, a assinatura de Chávez e as citações inflamadas dominam os corredores.

"É um absurdo que um prédio que custou várias dezenas de milhões de dólares não tenha utilidade", disse o presidente equatoriano, Lenin Moreno, em julho, ao anunciar que exigiria --ilegalmente-- que a Unasul devolva o prédio para que ele possa ser reaproveitado como uma universidade indígena.

Mas, para os críticos, talvez a maior monstruosidade seja a gigantesca estátua de bronze na entrada com a imagem de Nestor Kirchner, o primeiro secretário-geral do bloco, caminhando. Desde sua morte em 2010, o ex-presidente argentino viu seu legado manchado por alegações de corrupção. Os defensores de Moreno estão liderando uma campanha para removê-lo.

A Unasul foi criada em 2008 para dar vida ao sonho do herói da independência Simon Bolivar, dois séculos antes, de uma gigantesca pátria sul-americana sem fronteiras para conter os projetos americanos e europeus no continente.

Embora planos ambiciosos para criar uma moeda comum tenham falhado, outras propostas, como a criação de um visto de trabalho comum da Unasur --que ajudou nações a absorver as massas de venezuelanos que fugiram de seu país arruinado pela crise-- tiveram mais sucesso.

As decisões exigiam o consenso de todos os membros, o que era fácil quando a chamada "maré rosa" dos líderes esquerdistas varria a região, a desconfiança dos EUA estava em alta e os governos estavam cheios de dinheiro.

Mas, ao se identificar tão de perto com a esquerda e se fixar nos EUA, inevitavelmente a Unasul perdeu o apoio quando a maré política mudou, disse Shifter.

Ele afirmou que o golpe fatal foi o fracasso da Unasul em lidar de maneira efetiva com a crise da Venezuela.

Durante 2015 e 2016, o então secretário-geral da Unasul, Ernesto Samper, viajou frequentemente para Caracas acompanhado por representantes do Vaticano para promover conversas entre o governo e a oposição, enquanto as tensões nas ruas estavam altas.

Quando as negociações fracassaram, muitos culparam Samper, ex-presidente colombiano, por não fazer mais para obter concessões do governo.

Samper, em uma entrevista, reconheceu que para a Unasul sobreviver é preciso adotar uma agenda menos progressista, mas argumentou que desmantelá-la seria um grande erro.

Ele disse que a região tem uma necessidade vital de falar com uma voz comum enquanto o governo Trump ameaça uma ação militar contra a Venezuela, estigmatiza os imigrantes latinos que tentam entrar nos EUA e se retira dos esforços internacionais para combater a mudança climática.

"O triste", disse ele, "é que, ao mesmo tempo em que a região precisa desesperadamente de unidade, estamos mais fragmentados do que nunca".

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