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Ela viu seu filho ser salvo na boate Kiss e decidiu fazer o mesmo por outras pessoas

Arquivo Pessoal
Jocelene Zatt se tornou voluntária após o filho, Fabiano Zatt, sobreviver ao incêndio da boate Kiss Imagem: Arquivo Pessoal

Bárbara Forte

Do BOL, em São Paulo

2018-01-24T06:00:00

24/01/2018 06h00

Apenas sete meses separam o incêndio que matou 242 pessoas na boate Kiss, em Santa Maria (RS), em 2013, do início da psicóloga Jocelene Zatt, mãe de um dos sobreviventes, como voluntária da Cruz Vermelha. A tragédia, que completa cinco anos neste sábado (27), não apenas marcou a mãe de Fabiano Zatt, como também transformou sua vida.

“Eu já estive do outro lado, eu consigo entender o que o outro está passando no momento de desespero”, afirma a também Diretora do Voluntariado da Cruz Vermelha (um movimento internacional humanitário) de Santa Maria.

Eu me sinto muito mais humana”

As memórias de Jocelene sobre o dia em que o filho, na época com 21 anos, foi à boate para se divertir com amigos e saiu socorrido para o HCAA (Hospital De Caridade Dr. Astrogildo De Azevedo) ainda estão muito presentes em suas vidas.

“Fabiano não queria ir à festa, pois estava cansado, mas seus amigos insistiram. Eu, inclusive, incentivei que ele deixasse um pouco o computador para se divertir, e ele foi. Por volta das 2h30, eu e meu marido recebemos uma ligação para buscá-lo, disseram apenas isso no telefonema”, relembra.

Quando Aldevir Zatt chegou e encontrou o filho, aparentemente com ferimentos leves, o levou para o hospital e logo acionou a esposa, que na hora não entendeu a gravidade da situação: “Eu demorei, pois não tinha entendido a ligação. Quando eu cheguei ao local, falei rapidamente com Fabiano antes de ser atendido. Aos poucos, os comunicados sobre óbitos começaram a surgir. Eu vi quando uma mãe recebeu a mensagem da morte do filho”.

De repente, em coma

A aflição da família se multiplicou quando o jovem apresentou uma piora muito grande. Diagnosticado com uma leve queimadura nas costas e em observação por conta da fumaça inalada, Fabiano apresentou, cerca de 12 horas depois, um endurecimento dos pulmões, além de queimaduras na laringe e na faringe. Ele precisou ser sedado e levado pata o CTI (Centro de Tratamento e Terapia Intensiva), onde ficou em coma por 11 dias.

Foram momentos de sofrimento e preocupação para os familiares. “O quadro não melhorava, a gente olhava diariamente e não mudava”, afirma Jocelene.

Os dias que se seguiram, ao lado de outros pais e mães na mesma situação, foram de conversa, orações e inúmeras tentativas de amenizar o sofrimento: “Eu conversava com ele, mesmo em coma, dizia que estávamos do lado dele, que não íamos abandoná-lo”.

Voluntariado inspirador

A tensão dos 11 dias em que Jocelene, o marido Aldevir e o outro filho do casal, Felipe, ficaram praticamente acampados no hospital comoveu um grupo de universitários da cidade que se solidarizou para apoiar os parentes dos internados.

“Pessoas de diversas áreas montaram uma barraca em frente ao hospital e traziam água, comida, além de abraço e carinho para a gente. Tivemos uma grande ajuda dos voluntários”, conta a mãe de Fabiano.

 A gente não queria sair de perto dos nossos filhos nem para tomar banho. A gente só queria estar ali”

$escape.getH()uolbr_geraModulos('embed-foto','/2018/grupo-de-voluntarios-levava-agua-e-alimentos-aos-familiares-de-vitimas-1516401065403.vm')A atitude de desconhecidos que, juntos, doavam alimentos, tempo e afeto a pessoas em uma situação de vulnerabilidade comoveu a psicóloga naquele momento. Foram 21 dias até que Fabiano recebesse alta e pudesse iniciar o tratamento em casa.

“Depois disso eu já tive em mim uma grande vontade de atuar como voluntária. Aguardei a recuperação do meu filho e, em agosto de 2013, comecei na Cruz Vermelha de Santa Maria”, explica a psicóloga, que hoje é diretora de voluntariado da instituição.

Satisfação em ajudar

Para Jocelene, a Cruz Vermelha era o local ideal para começar a ajudar: “Eles têm grupos muito grandes de ajuda, atuam em casos de urgência, em desastres. Esse trabalho me fascina”.  

Na instituição, ela dá palestras, faz entrevistas com os novos integrantes e prepara os voluntários para lidar com situações de grande estresse. “Atuamos em Chapecó, em Santa Catarina, quando houve a queda do avião com os jogadores da Chapecoense. Lá, auxiliamos os familiares de vítimas e a própria comunidade, que foi muito impactada pela tragédia”, conta.

$escape.getH()uolbr_geraModulos('embed-foto','/2018/jocelene-zatt-1516400230272.vm') "Intimamente, eu sei que eu estou ajudando alguém que realmente precisa. O fato de eu já ter passado pela mesma situação faz com que eu entenda realmente suas necessidades. Posso mostrar que a vida continua.”

Segundo Jocelene, ajudar os outros é uma sensação única: “É uma satisfação. Ver um pequeno sorriso que modifica a fisionomia de alguém que está em sofrimento não tem preço”.

Cinco anos do incêndio

A tragédia na boate Kiss em 27 de janeiro de 2013 terminou com a morte de 242 pessoas, entre elas dois amigos que eram para Fabiano como irmãos. "Até hoje, cinco anos depois, ele sente muito a falta dos companheiros", revela a mãe do jovem.

O acidente também feriu 680 pessoas. Muitas delas ficaram em tratamento por anos. Fabiano, por exemplo, fez um tratamento de cerca de dois anos e meio para recuperar os pulmões.

O incêndio foi causado por um sinalizador disparado no palco em direção ao teto por um integrante da banda que se apresentava no local. O acidente foi considerado a quinta maior tragédia no Brasil em número de vítimas e a maior do Estado do Rio Grande do Sul.

Em dezembro do ano passado, a Justiça decidiu que os réus do processo - sócios da boate e integrantes da banda que se apresentava no local no dia do incêndio - não vão a júri popular. Com isso, eles devem responder pelos crimes de homicídio culposo (sem intenção de matar) e por 636 tentativas de homicídio.

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