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Rede de doleiros movimentou R$ 8,5 bilhões para traficantes e contrabandistas

Dinheiro apreendido pela Polícia Federal durante a operação Hammer-on, em agosto - Polícia Federal
Dinheiro apreendido pela Polícia Federal durante a operação Hammer-on, em agosto Imagem: Polícia Federal
do UOL

Flávio Costa

Do UOL, em São Paulo

22/09/2017 04h00

Uma rede de doleiros administrou durante a última década um esquema de lavagem de dinheiro e evasão de dívidas que movimentou mais de R$ 8,5 bilhões para traficantes, contrabandistas e empresários brasileiros e paraguaios, de acordo com investigações da PF (Polícia Federal).

O MPF-PR (Ministério Público Federal no Paraná) acusou na última segunda-feira (18), em quatro denúncias diferentes, um total de 34 pessoas no âmbito da Operação Hammer-on, que investiga crimes contra o sistema financeiro, lavagem de dinheiro e organização criminosa.

O esquema dos doleiros era dividido em cinco núcleos que atuavam de maneira interdependente nas cidades de Curitiba e Foz do Iguaçu (PR), na fronteira com o Paraguai.

A juíza federal Gabriela Hardt, substituta da 13ª Vara Federal de Curitiba, recebeu as denúncias do MPF e transformou todos os acusados em réus.

"São expressivos os valores movimentados pelos investigados. Após análise dos dados oriundos das quebras de sigilo bancário deferidas nos autos correlatos, o Nupei Foz [Núcleo de Pesquisa e Investigação da Receita Federal em Foz do Iguaçu] consolidou as informações, em relação a cada um dos núcleos acima, sendo que o montante total movimentado ultrapassa 8 bilhões e meio de reais", escreveu Hardt, quando decretou a prisão temporária dos investigados. Eles foram presos em 15 de agosto --data da deflagração da Operação Hammer-on.

Posteriormente, a magistrada converteu a detenção de alguns dos acusados em prisão preventiva.

Nas quatro denúncias, o procurador da República João Vicente Beraldo Romão explica que "os denunciados, mediante remuneração, disponibilizaram as contas bancárias de suas empresas de fachada para a captação, a intermediação e a aplicação de recursos financeiros de terceiros, dissimulando a origem ilícita do dinheiro que ingressa em tais contas, remetendo-o, então, de forma também ilícita, ao exterior".

Doleiros investigados

O doleiro Eugênio Rosa da Silva - Polícia Federal
O doleiro Eugênio Rosa da Silva
Imagem: Polícia Federal
Dentre os líderes dos cinco núcleos da quadrilha, destacam-se os doleiros Eugênio Rosa da Silva, 53, e Genisson Rosa da Silva, 33. Atualmente presos preventivamente na carceragem da PF em Curitiba, pai e filho foram investigados por suspeita de participação em fraudes em combustíveis pela Polícia Civil do Paraná.

Mas os problemas da família Rosa com a Justiça remontam, pelo menos, ao ano de 2009. Na época, Eugênio foi indiciado pela PF por suspeita de integrar um esquema de sonegação fiscal no ramo de combustíveis em Santa Catarina. Dois anos depois, o caso foi encerrado pela Justiça do Estado.

A investigação mostrou que contas bancárias de postos de gasolina controlados pela família Rosa foram utilizados no esquema de lavagem de dinheiro descoberto pela operação Hammer-on. Somente no caso do núcleo comandado pela família Rosa, um total de 235 contas bancárias de 30 empresas ativas ou fantasmas foram utilizadas no esquema criminoso, que teve começo em 2008.

"Além de casas de câmbio situadas em Foz do Iguaçu, para a realização dos serviços financeiros e de lavagem de dinheiro e com a intenção de perpetuar o esquema criminoso e distanciamento pessoal, os líderes valeram-se de empresas de fachada, constituídas principalmente nas cidades de Curitiba e Foz do Iguaçu, bem como postos de combustíveis e até mesmo churrascarias sediadas, em sua maioria, na capital e que em cujo quadro societário figuram familiares e pessoas próximas", afirma o MPF.

Operação Hammer-on foi feita em 15 de agosto

Band News

Como funcionava o esquema

De um modo geral, assim funcionava o esquema de lavagem, de acordo com a investigação da PF:

1) Traficantes de drogas, empresários e “cigarreiros” precisavam enviar dinheiro para o Paraguai a fim de adquirir, respectivamente, drogas, mercadorias e cigarros. Eles perguntavam a seus fornecedores paraguaios onde eles deveriam depositar o dinheiro;

2) Os fornecedores paraguaios procuravam ajuda de casas de câmbio do próprio Paraguai. Por sua vez, o dono dessas casas de câmbio paraguaia acionavam Genisson Rosa da Silva para obter os números contas bancárias controladas pelo esquema de doleiros;

3) De posse dos números das contas, os donos das casas de câmbio os repassavam para os traficantes, empresários e contrabandistas brasileiros. Estes faziam os depósitos para seus fornecedores paraguaios;

4) Depois de conferir os depósitos, os donos das casas de câmbio disponibilizavam, em dólares, os valores pagos aos fornecedores paraguaios;

5) A partir daí desse momento, Genisson, de posse dos reais depositados pelos clientes brasileiros, sacava os valores e os remetia por meio da fronteira ao Paraguai. Ou ele também poderia, se assim o dono da casa de câmbio quisesse, transferir o dinheiro em real para outras contas bancárias brasileiras.

Em resumo, as contas bancárias controladas pelos doleiros brasileiros serviam para intermediar negócios entre traficantes, contrabandistas e empresários do Brasil e do Paraguai.

PCC utiliza casas de câmbios da fronteira do Paraguai

A reportagem apurou junto a investigadores da PF que a facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital) e outras quadrilhas utilizam de maneira recorrente os serviços de casas de câmbio na região da fronteira com o Paraguai para lavar dinheiro do tráfico de drogas.

Autoridades paraguaias consideram o PCC a maior ameaça à segurança pública do país vizinho.

"Já detectamos a instalação do PCC em diferentes departamentos do Estado do Paraguai, sobretudo na região fronteiriça. Um dos exemplos dessa preocupação é a magnitude do roubo à empresa Prosegur em Ciudad del Este", afirmou, em entrevista ao UOL, o procurador paraguaio Hugo Volpe.

Outro lado

O advogado Marden Esper Maués, que defende Eugênio e Genisson Rosa da Silva, afirmou que "infelizmente se tornou praxe da Justiça o recebimento da denúncia sem uma análise mais detida da acusação".

Questionado a respeito das acusações contra seus clientes, o criminalista acrescentou que "a defesa só vai se manifestar no decorrer da ação penal, dentro dos autos do processo".

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