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Alunos invadem aula de professor da USP que defendia 'revolução' de 64

do UOL

Bruna Souza Cruz

Do UOL, em São Paulo

01/04/2014 13h01


Na noite de segunda-feira (31), data em que foram lembrados os 50 anos do golpe militar de 1964, um professor da Faculdade de Direito da USP (Universidade de São Paulo) decidiu defender a ação dos militares e ressaltar seu apoio à “revolução de 64” na sua aula. Em protesto, um grupo de estudantes ocupou a sala e interrompeu a fala do docente Eduardo Lobo Botelho Gualazzi, que ensina direito administrativo.

Ao som da música "Opinião", interpretada originalmente por Nara Leão, os alunos da universidade entraram no local cantando os versos “podem me prender, podem me bater que eu não mudo de opinião, que eu não mudo de opinião.”

Em documento entregue aos alunos -- escrito em papel timbrado e registrado em cartório --, o professor Gualazzi argumenta que “em 1964, o socialismo/comunismo esquerdista-totalitário almejava apoderar-se totalmente do Brasil, mediante luta armada e subversão de todas as instituições públicas e privadas daquela época. (...) Os líderes civis e militares da Revolução de 1964 sabiamente consolidaram, ao longo de vinte e um anos (1964-1985), infraestrutura e superestrutura que tornaram o Brasil atualmente.”

De acordo com a estudante do segundo ano de direito Isabella Ferreira, 21, o objetivo do ato era impedir que o professor utilizasse a sala de aula para comemorar a “revolução”.

A aluna, que representa o coletivo Canto Geral, grupo de esquerda da faculdade que organizou o protesto, acrescenta que Gualazzi já havia avisado aos alunos sobre a aula comemorativa no dia 31 de março. "Ao saber disso, os alunos quiseram se organizar por achar um absurdo um professor deixar de dar aula para comemorar o golpe”, afirmou. 

Parte do documento entregue aos alunos durante aula - Reprodução
Parte do documento entregue aos alunos durante aula
Imagem: Reprodução

Sempre foi defensor

A estudante Junia Coelho Lemos, 23, é aluna da disciplina e afirmou que a posição do professor em relação ao golpe de 64 nunca foi segredo. “Ele sempre teve uma opinião forte. Uma semana antes ele havia dito que iria dar um depoimento sobre a ditadura. Ontem, ele começou a aula dizendo que iria falar sua opinião e que quem não quisesse ouvir poderia sair da sala. Ele ficou uns 15 minutos falando isso até que começou a ler um documento que havia escrito”, explicou a jovem que não tinha ideia do que iria presenciar. 

Para participar da intervenção na sala de aula, os estudantes convidaram Antonio Carlos Fon, ex-militante que foi torturado durante a ditadura. Segundo Isabella, eles queriam estimular o debate entre o professor e Fon sobre o assunto.
 
No meio do protesto, o professor contrariado resolveu deixar a sala de aula, explica Junia. "E ele não voltou mais. A turma ficou ali mais um tempo discutindo o que tinha acontecido e ele não voltou."
 

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Para não esquecer

Erica Meireles de Oliveira, 23, estudante do terceiro ano que participou da ocupação acredita que a intervenção foi importante para estimular a reflexão sobre o tema.“Para que não se esqueça. Para que nunca mais aconteça. É bem isso. Os estudantes têm que tomar posicionamento sobre nossa história. Fico feliz de ter participado desse espaço e espero que fique na memória. É importante que as pessoas não esqueçam esse passado”, declarou.

Coincidentemente, a universidade inaugurou na mesma noite uma placa com os dizeres “Ditadura nunca mais: estado de direito sempre!”

“Fiquei muito emocionada com a atuação dos estudantes. Foi muito lindo ver os alunos defendendo a verdade, os direitos individuais e tudo que a ditadura representou ao contrário”, relatou a estudante Junia.

O UOL entrou em contato com a Faculdade de direito da USP, mas até o fechamento desse texto não obteve retorno.

Placa inaugurada ontem (31) na Faculdade de Direito da USP em São Paulo - Isabella Ferreira
Placa inaugurada ontem (31) na Faculdade de Direito da USP em São Paulo
Imagem: Isabella Ferreira

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