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Para onde vai um membro após amputação?

A destinação de membros amputados depende da doença do paciente  - Pekic/iStock
A destinação de membros amputados depende da doença do paciente Imagem: Pekic/iStock

Bárbara Forte

Do BOL, em São Paulo

30/03/2019 06h00

Um acidente de motocicleta fez com que o técnico de processos Marcelo Oliveira Lobo, de 37 anos, tivesse a perna amputada em 2012. Vítima de um trauma do lado esquerdo do corpo, ele ficou em coma induzido até que ortopedistas do Hospital Universitário São Francisco de Assis, em Bragança Paulista (SP), optaram pelo procedimento.

Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), o Brasil realiza aproximadamente 78 mil amputações anualmente - 70% delas ocasionadas por complicações da diabetes e outras 30% por traumas relacionados a acidentes, assim como o caso de Marcelo.

Mas para onde vai o membro amputado depois da cirurgia? O BOL conversou com o ortopedista André Pedrinelli, do Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas, em São Paulo, para entender como funciona o processo de amputação.

  • Por que os médicos decidem amputar?

    De acordo com o ortopedista André Pedrinelli, há várias motivações para que uma equipe médica opte pela amputação de um membro: "Assim como outras terapias, a amputação é uma forma de tratamento de diversos tipos de doenças. Há casos em que a retirada do membro é a melhor forma de tratar o problema vascular causado pela diabetes, por exemplo. Há também casos de traumas gerados por algum acidente em que a amputação pode servir para paralisar uma infecção".

  • Quem autoriza a amputação de um membro?

    O técnico de processos Marcelo Oliveira Lobo, de 37 anos, estava em coma induzido quando os médicos chegaram à conclusão de que a amputação da perna esquerda podia salvar sua vida. Na ocasião, a mãe e a esposa do paciente autorizaram o procedimento. "Elas não titubearam e falaram que me queriam vivo, não importava como", relembra Marcelo. O ortopedista André Pedrinelli explica que a amputação, assim como outras cirurgias, depende de uma autorização prévia dos familiares, em conjunto com o paciente, quando ele está consciente. "Há um termo que a família assina. Sem isso, o médico não pode agir", diz. Segundo ele, a assinatura de um documento pelos familiares ocorre mesmo com a validação do paciente.

  • Conversa com a família

    André afirma que a família é amparada pelos ortopedistas, psicólogos e assistentes sociais antes da decisão da amputação. "Há uma conversa para deixar claro os riscos e a necessidade da cirurgia. Quando explicamos à família como tudo funcionará, os parentes costumam ficar mais tranquilos e abertos ao procedimento", diz.

  • Para onde vai o membro amputado?

    Segundo André, o destino do membro amputado varia de acordo com o tipo de doença. "Nos casos de tumor, por exemplo, amostras do membro são coletadas para investigação mais minuciosa. Após estudo e exames, o material vai para um tipo de incinerador dentro dos próprios hospitais. Já no caso de um trauma, a 'peça' pode ter um destino diferente, como o sepultamento", diz. Ele conta ainda que, enquanto o membro não vai para seu destino final, ele fica condicionado em geladeiras no próprio hospital.

  • Sepultamento de um membro

    O ortopedista revela que, após uma cirurgia de amputação, o médico precisa fazer um termo de sepultamento: "É como uma autorização para o enterro". Segundo ele, o membro pode ir para vala comum, um serviço que costuma ser oferecido pela prefeitura das cidades, ou a família opta pelo enterro em um jazigo privado. "O enterro da minha perna aconteceu quando eu ainda estava hospitalizado. Na ocasião, minha família levou o membro até o cemitério onde estavam enterrados meu avô e meu tio, em Pinhalzinho (SP). Eu só fiquei sabendo disso quando voltei do coma", conta o técnico de processos Marcelo Oliveira Lobo.

  • stellalevi/iStock

    Sem cerimônia e caixão

    Os membros amputados, apesar de serem sepultados em cemitérios comuns, não costumam ser guardados em caixões, de acordo com André Pedrinelli, ortopedista do Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas, em São Paulo. "São usados sacos plásticos específicos para peças anatômicas, especialmente para não haver vazamento de fluidos e com o fechamento mais adequado". O médico diz ainda que o sepultamento de um membro não costuma ter cerimônias: "Não é como o enterro de um ente querido, por isso a maioria dos membros costuma ir para valas comuns".

  • demaerre/iStock

    Rotina do Hospital das Clínicas

    André conta que, num local onde transitam milhares de pessoas diariamente, como no Hospital das Clínicas de São Paulo, cirurgias como esta são mais comuns do que se imagina. "Como trabalho na área de traumatologia, chegam muitos casos de acidentes em que a amputação se faz necessária. Posso dizer que realizo esse tipo de procedimento de uma a duas vezes por semana", diz. Ele explica, por fim, que o local tem um grupo de amputados onde o tratamento continua após a cirurgia: "Lá, as pessoas que já fizeram ou farão o procedimento recebem auxílio psicológico, apoio de fisioterapeutas, técnicos ortopédicos - é todo um tratamento multidisciplinar para ajudar essas pessoas a terem qualidade de vida mesmo depois da cirurgia".

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