10 fatos sobre Antonio Cicero, o mais novo imortal do Brasil
Aos 71 anos, Antonio Cicero foi eleito, na última quinta-feira (10), como o mais novo membro da Academia Brasileira de Letras, conquistando 30 dos 34 votos e vencendo os outros nove concorrentes à vaga: Alfredo Sirkis, Cláudio Aguiar, José Itamar Abreu Costa, Eloi Angelos G. D’Aracosia, Adenildo de Lima, Delasnieve Daspet, Felisbelo da Silva, Luís Carlos de Morais Junior e Helio Begliomini.
Você provavelmente conhece o mais novo imortal, ainda que pela voz de outros artistas, por conta de suas contribuições para a música popular brasileira. Veja a seguir os vídeos com algumas das músicas, cujas letras foram escritas por ele e interpretadas por outros artistas, e saiba mais sobre Cicero, que, concorrendo pela terceira vez, era o grande favorito e apontado desde o início como novo ocupante de uma cadeira na Academia Brasileira de Letras.
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Cadeira 27
Antonio Cicero foi eleito para a cadeira 27, anteriormente ocupada por Eduardo Portella, que morreu no dia 2 de maio em decorrência de um quadro grave de pneumonia. "Eu estou muito contente, era o que eu queria. Eu gosto muito da casa, tenho muitos amigos, já participo de muitas atividades. Já dei conferências, assisto aos ciclos, vou aos lançamentos de livro. Eu acredito que a Academia deve atuar na preservação da língua e da literatura. Junto com outras instituições, artistas, críticos, pode apontar, por exemplo, as obras que merecem ser lidas pelos jovens na escola, por quem está querendo aprender o que é literatura, o que é poesia", afirmou ele ao jornal "O Globo". Vale lembrar que da primeira vez que concorreu a uma vaga, Cicero empatou com Francisco Weffort com 17 votos cada um e a eleição acabou anulada. Na segunda disputa, perdeu por 18 votos a 15 para o historiador Arno Wehling
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Famoso pela música
Antonio Cicero é destaque como importante letrista da música popular brasileira. Ainda que escrevesse poesias desde a adolescência, suas obras tornaram-se famosas por meio de canções e não de livros. "Minha poesia também é oral no sentido em que, com raras exceções, ou ela consiste em letra de música - o que significa a palavra cantada - ou ela fica melhor quando lida em voz alta", revelou ele em entrevista ao UOL. Em 1997, publicou o disco Antonio Cicero por Antonio Cicero, em que recita poemas de sua autoria. "Como minhas letras são gravadas, algumas são transmitidas pelo rádio, outras são cantadas em shows, considero publicadas a seu modo. Acho que isso, em parte, me eximia da ansiedade normal do poeta quanto a ter sua obra publicada. Era mais importante, para mim, publicar um livro de Filosofia, coisa que fiz com 'O Mundo Desde o Fim', em 1995", contou em entrevista ao site do "Grupo Editorial Record", sobre a "demora" para publicar um livro quando já era tão conhecido do grande público em razão de suas composições musicais, especialmente ao lado da irmã, a cantora Marina Lima
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Irmã e parceira
"Graças à minha irmã Marina [Lima], que pôs música em poemas meus, pude tornar-me um letrista. Antes disto acontecer, nunca esteve entre minhas cogitações, mas percebi como algo maravilhoso", disse Antonio Cicero sobre a parceria com a irmã em entrevista ao site do "Grupo Editorial Record". Ela, aliás, começou a musicar os poemas sem que ele soubesse, na década de 1970, mas, quando Cicero descobriu, gostou do resultado e construiu uma bela parceria. Juntos, os irmãos lançaram músicas como "Acontecimentos", "Virgem", "Fullgás" e "Pra Começar". Porém não só com a irmã Cicero fez de suas palavras belas letras musicais. Ele também estabeleceu parcerias com outros artistas, como Adriana Calcanhotto, Frejat, João Bosco, Cláudio Zoli e Orlando Morais, e teve suas composições gravadas por intérpretes como Maria Bethânia, Caetano Veloso, Lulu Santos e Gal Costa
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A vez da música da ABL
"Alguns dos meus poemas eram amplamente publicados, mas outros foram feitos para a leitura, e não para serem cantados. Mais importante ainda: o trabalho do letrista só aparece em associação com os de outras pessoas, como compositores, músicos, cantores. Quando o que quero fazer poeticamente coincide com o que essas pessoas também querem - o que ocorre muitas vezes, pois são não só grandes artistas mas pessoas queridas -, então tudo flui bem. Mas e aquilo que só eu quero fazer? E o meu trabalho poético solo, que é precisamente o que me é mais próprio?", comentou em entrevista ao site do "Grupo Editorial Record" sobre a publicação de seus livros de poemas. Ele é o segundo escritor e compositor a entrar para a ABL, fazendo companhia a Geraldinho Carneiro, eleito em outubro de 2016. Cicero acredita que essa tendência a reconhecer o valor literário da canção vem sendo replicada no mundo todo, principalmente depois que Bob Dylan levou o Nobel de Literatura em 2016. "É o que sempre digo: a poesia ocidental começou na Grécia e era o que hoje chamamos de letra de música. Na Idade Média, a literatura era puramente escrita, e as canções populares eram desprezadas. No século 20, isso muda e hoje temos de novo essa possibilidade", afirmou à "Folha de S.Paulo"
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Fã de Bob Dylan
Por falar no artista, Cicero já chegou a comentar, em entrevista ao jornal "O Globo", que achou "merecidíssimo" o prêmio Nobel de Literatura de 2016 ter sido entregue ao cantor e compositor Bob Dylan. "Quando era adolescente, não prestava atenção à música popular. Ficava ouvindo as conversas do meu pai (Ewaldo Correia Lima), que era intelectual, com os amigos dele. Era uma turma que não tinha interesse nenhum pela cultura popular. Foi meu irmão [Roberto], que era muito diferente de mim, que me disse 'Você está sendo bobo de não prestar atenção, ouça o disco do Bob Dylan'. Isso foi na década de 1960. Ouvi e fiquei impressionado com a qualidade das letras. Vi que tinha poesia. Foi o Dylan que me apresentou à música popular", comentou na ocasião
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Formação
Antonio Cicero se formou em Filosofia, em 1972, pela University College London, uma das faculdades que fazem parte da Universidade de Londres. Ele é autor tanto de livros de poemas como de ensaios filosóficos e transita tranquilamente entre esses dois mundos. Em entrevista ao "Jornal Cândido da Biblioteca Pública do Paraná", explicou: "Acho que poesia e filosofia são coisas muito diferentes. Um poema pode conter algo de filosofia, mas apenas como um dos seus ingredientes: não é a filosofia que ele contém que lhe dá o seu valor"
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A presença do contemporâneo
"Antonio Cicero é um dos escritores mais representativos da literatura brasileira contemporânea", afirmou o Presidente da ABL, o acadêmico Domício Proença Filho, diante da escolha do poeta para a vaga. Já a acadêmica e escritora Rosiska Darcy de Oliveira fez questão de apontar que Cicero é um "intelectual completo": "É um grande poeta, compositor, filósofo, ensaísta e uma grande figura humana. Vai enriquecer a ABL. Mais importante não é a idade, mas o frescor que traz ligado as suas ideias", comentou, segundo "O Globo", a respeito do rejuvenescimento da Academia com o mais novo membro
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Trabalhos e idealizações
A obra mais recente lançada por Cicero, em junho deste ano, é a coletânea "A Poesia e a Crítica" (Companhia das Letras, 2017), na qual disserta sobre aspectos da poesia e da cultura contemporânea com ensaios escritos entre 2006 e 2016, refletindo sobre o que faz de um poema um poema. Além disso, é autor de outros três livros de ensaios filosóficos: "O Mundo desde o Fim" (Francisco Alves, 1995), "Finalidades sem Fim" (Companhia das Letras, 2005) e Poesia e filosofia (Civilização Brasileira, 2012). Os livros de poemas lançados por ele são "Guardar" (Record, 1996) e "A Cidade dos Livros" (Record, 2002). Ele também já escreveu e organizou obras em parcerias com outros escritores
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Projeto
Em 1993, idealizou, com colaboração do também poeta Waly Salomão (morto em 2003), o Banco Nacional de Ideias, um projeto que consistiu durante pouco mais de dois anos na organização de ciclos de conferências com a participação de artistas e intelectuais de renome mundial, como João Cabral de Melo Neto, Richard Rorty, Tzvetan Todorov, Hans Maguns Enzensberger, Bento Prado Jr. e Darcy Ribeiro. Justamente a ideia do projeto é o que estimulou Cicero a querer fazer parte da Academia, uma vez que ele acredita que poderá contribuir na organização de eventos que a ABL já realiza: "Tenho a experiência de ter organizado, por exemplo, ciclos de conferência internacionais, como o que eu fiz com o Waly Salomão, o Banco Nacional de Ideias. Acredito que essa experiência pode ser útil à Academia", disse ao jornal "O Globo"
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Prêmios
Em 1996, o agora imortal venceu o prêmio Nestlé na categoria Estreante pela obra "Guardar", na qual reuniu seus poemas prediletos e, mais recentemente, em 2012, levou o "Prêmio Alceu Amoroso Lima - Poesia e Liberdade", oferecido pela Universidade Candido Mendes e pelo Centro Alceu Amoroso Lima pela Liberdade


