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A loucura da humildade: Bielsa pede desculpas e arranca risadas em coletiva

Marcelo Bielsa concede entrevista coletiva em Charlotte (EUA) - Eder Traskini/UOL
Marcelo Bielsa concede entrevista coletiva em Charlotte (EUA) Imagem: Eder Traskini/UOL
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Do UOL, em Charlotte (EUA)

09/07/2024 17h07

Marcelo 'el loco' Bielsa ficou três minutos, 180 vagarosos segundos, sentado com a costumeira cabeça baixa em frente aos jornalistas que aguardavam para iniciar a coletiva de imprensa antes de Uruguai x Colômbia, no Bank of America Stadium, em Charlotte. Marcada para as 14h, o técnico chegou antes e precisou esperar o horário para iniciar a entrevista.

Recostado confortavelmente na cadeira, Bielsa começou a responder as perguntas muito longe do microfone. Logo na primeira, todos os presentes trocaram olhares nervosos, receosos de falar algo ao treinador tão 'metódico'. A própria organização fazia gestos pedindo para aumentar o ganho do microfone, mas não havia como captar o áudio de forma aceitável daquela distância.

Até que na quinta pergunta, o repórter pediu: "professor, pode se aproximar do microfone?". De sobressalto, Bielsa respondeu: "claro, claro. Me desculpem". Nas respostas seguintes, a tensão que outrora pairou na sala se dissipou completamente e virou risada.

Na primeira vez que fez a sala rir, Bielsa não entendeu uma pergunta de um jornalista chileno. Ele respondeu como se o repórter estivesse falando do Uruguai e disse que não havia nada a comentar. Quando entendeu que a pergunta se referia ao Chile, pediu desculpas e brincou.

Ah, de Chile? Achei que era de Uruguai. É uma pergunta diferente porque é uma posição que não tem a ver com a equipe do próprio país. Sempre agradecemos, sempre recebo do Chile muito mais do que creio que merecia. Não os esqueço. Desculpe a confusão. Achei que tivesse me dito do Uruguai 75% (que apoiavam a seleção) e pensei que 25% (contra a seleção) era muito. Mas depois pensei que 75% (a favor) ainda era melhor que 25% (a favor).

Logo depois, um repórter fez uma pergunta analisando taticamente a Colômbia e questionando como Bielsa iria armar o time para conseguir contornar as fortalezas colombianas. Bielsa riu e sugeriu ao jornalista se tornar técnico também.

Pode virar treinador depois de uma pergunta dessas. Eu não sei o que dizer, imagino você (Maxi). Me diz você o que propõe que façamos (risos). Defender com 40 metros atrás não vai dar certo. Se tem espaço atrás, eles gostam. Se defendemos lá atrás, eles também gostam. Nessas partidas, nos imaginamos atacando e não deixando o rival atacar, mas se não conseguirmos, não há plano B, há um plano A que é fazer o melhor possível. E o plano A não é atacar ignorando a defesa ou defender ignorando o ataque. Uma equipe compacta planeja atacar, porque é melhor e significa dominar. Se não dá, tem que saber defender. Um time defensivo com um único recurso não dá. Imaginem se enfrentam equipes que dão a bola e o campo. Se um time dá campo e bola e o rival tem a mesma ideia, não tem jogo. Intenções são uma coisa, realidade é outra. Não dá para prever.

Em seguida, houve uma pergunta em inglês. Bielsa colocou o fone para ouvir a tradução simultânea, mas logo o retirou. Houve um momento de silêncio e então Maxi Araujo, jogador que estava com ele na coletiva, avisou a ele que a pergunta era para ele. Bielsa disse que o fone não estava funcionando e perguntou para ninguém em específico qual tinha sido a pergunta.

Uma jornalista da primeira fila traduziu para o treinador e ele começou a responder olhando para ela: "Já falei sobre isso, você diz que...". A jornalista então levantou as mãos como estivesse se defendendo e apontou para o lado para lembrar ao treinador que não era ela a dona da pergunta. Bielsa, então, brincou: "Não, mas é que a voz feminina chama a atenção".

Na sequência, houve uma pergunta para ele sobre como via a evolução de Maxi Araujo. Bielsa, então, arrancou uma nova leva de risadas ao brincar que não conhecia o jogador. Depois, elogiou seu atacante.

Convenhamos que são perguntas especiais. Perguntam a Maxi comigo presente e a mim sobre Maxi com ele presente. Ele é especial, nos ajuda. É um produto da sorte (estar aqui). Não creio que vá adiante. Não vi, me recomendaram (risos). Eu gosto dos extremos que jogam no vértice da área rival e no vértice da área própria. Que conseguem bons cruzamentos. Ele tem particularidades, consegue às vezes e outras não, como todos, mas são poucos que possuem esses recursos. O jogador bom não é o que tem virtudes. É o que coloca no jogo um percentual alto das virtudes que tem

'El loco' Bielsa é um personagem do futebol mundial que vem mostrando nesta Copa América que também é um ser humano que ri e pede desculpas. Nesta quarta-feira, provavelmente sentado em um cooler de água na beira do gramado, o técnico pode levar o Uruguai à final da Copa América após 13 anos.

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