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Psicólogos ajudam atletas de times espanhóis durante pausa por coronavírus

Jogadores do Granada se abraçam durante a partida contra o Levante - Soccrates Images/Getty Images
Jogadores do Granada se abraçam durante a partida contra o Levante Imagem: Soccrates Images/Getty Images
do UOL

Do UOL, em São Paulo

26/03/2020 04h00

A pandemia causada pelo novo coronavírus gerou uma pausa forçada nas competições ao redor do mundo. Enquanto a bola não volta a rolar, os clubes da La Liga, o Campeonato Espanhol, se preocupam com maneiras que deixem os atletas focados e mantendo uma rotina de treino, mesmo dentro de casa. Para isso, as equipes estão contando com psicólogos para o auxílio dos jogadores neste período sem partidas.

A preocupação passa por vários fatores. No caso dos jogadores estrangeiros, o isolamento, normalmente, vem acompanho de um distanciamento ainda maior da família. Desta forma, um acompanhamento psicológico acaba sendo fundamental.

"Um atleta de alto nível é, fundamentalmente, antes de um jogador, uma pessoa, então isso o afeta de forma semelhante à de qualquer outro cidadão", explica Juan Manuel Gamito Manzano, coordenador da Área de Psicologia do Sevilla FC.

A importância de respeitar as rotinas

"Atletas desse nível são pessoas acostumadas a ter um ritmo muito intenso de atividades. Têm definido, às vezes com uma semana de antecedência, a rotina completa, desde o momento que se levantam às orientações específicas sobre alimentação, passando pelas horas de treinamento, competição e descanso ", explica Juan Manuel, que desenha o plano para todas as equipes de base do Sevilla.

"Além disso, são orientações recebidas de fora [como do técnico ou do preparador físico, por exemplo] e, por isso, costumam ser 'direcionadas' nesse sentido. Isso os leva a encontrar repentinamente todo um espaço pessoal no qual precisam se organizar de forma autônoma", acrescenta.

NurPhoto via Getty Images
Imagem: NurPhoto via Getty Images

Com isso, o conselho de Juan Manuel segue a linha de "programar a agenda do dia", para que os jogadores saibam como gastar seu tempo. O ideal para eles é respeitar os "horários da rotina", como o das refeições e do sono, por exemplo. Diante desta situação, David Rincón, psicólogo do Athletic Club, também confirma que "é bom seguir rotinas e tentar encontrar um espaço para continuar treinando, cuidar da comida e, acima de tudo, continuar se relacionando para que a mudança não seja tão perceptível".

Os jogadores de futebol são atletas que, devido ao desenvolvimento de sua atividade esportiva, possuem um alto nível de treinamento em termos de enfrentamento ao estresse, persistência, disciplina ou perseverança. Portanto, estar mais acostumado e treinado para essas situações, pode ajudar nesse complicado período de confinamento.

Incerteza e estresse

Embora o jogador de futebol esteja, de certa forma, mais preparado para momentos de estresse e acostumado a rotinas e diretrizes muito estritas, Lander Hernández, como chefe do Departamento de Psicologia e Treinamento do Real Valladolid, destaca que o atleta também passará por "momentos de incerteza, por não saber o que vai acontecer com as competições, se elas podem ser retomadas, e sem saber qual fórmula será usada caso a competição não possa ter continuidade, ou se atingirá os objetivos definidos no início da temporada".

Para Juan Manuel Gamito, é de grande importância "esgotar o tempo das atividades do dia" e "fazer uma lista das que mais nos agradam, e planejá-las; no começo ou no final do dia". Tal organização pode ajudar a lidar melhor com essa situação difícil, porque a proibição de realizar atividades físicas nas ruas, como explica Lander Hernández, "pode causar um aumento na ativação do organismo que exige o exercício ao qual está acostumado, e o menor desempenho deste pode resultar em fatores condicionantes ansiogênicos (capaz de induzir ou de causar ansiedade, desconforto físico ou psíquico) que devem ser controlados".

Carga cognitiva e preparação para o retorno às competições

É importante saber que "durante as sessões de treinamento do dia a dia, o jogador de futebol não apenas trabalha o físico", mas também "está sujeito a uma carga cognitiva significativa" em cada treinamento, devido ao grande número de estímulos aos quais ele deve passar. Juan Miguel Bernat, do Departamento de Psicologia de Alto Desempenho do Levante, observa que "embora eles continuem treinando em casa, se a equipe técnica não conseguir fornecer uma carga cognitiva considerável, o jogador não se cansará mentalmente".

Isso pode até afetar o sono, entre muitas outras coisas, por isso "é interessante que os órgãos técnicos forneçam essa carga aos jogadores, por exemplo, com a análise de sua temporada, seus pontos de melhoria".

Quanto à parte relacionada à competição e competitividade, "o futebolista gosta de se desafiar, vencer seus rivais e superar a si mesmo. Nesta situação, ele pode continuar praticando esportes, mas fica sem a possibilidade de competir e, portanto, sem uma de suas motivações fundamentais ", diz Juan Miguel Bernat. "Você deve estar ciente de que, embora não veja seu rival, você está competindo contra ele todos os dias. Ele precisa se conscientizar de que seus adversários estão na mesma situação, e que quem 'melhor aproveitar' isso pode retornar à La Liga com uma vantagem competitiva".

Como os clubes se comunicam com os jogadores, e quais as informações oferecidas

Em menos de uma semana, muita coisa aconteceu e a vida de todos mudou drasticamente. Durante esse período de confinamento em casa, podem ocorrer episódios de ansiedade e depressão. Por esse motivo, é vital transmitir ao jogador informações claras sobre chaves psicológicas, estudos, rotinas ou nutrição, como as que o Athletic Bilbao está enviando a todos os jogadores, por meio dos treinadores.

Além disso, "com algumas equipes, sessões estão sendo realizadas por meio de plataformas como a Zoom, para falar sobre essa situação, quais as coisas positivas e que verbalizam como estão se encontrando", diz David Rincón.

Nisso, o Sevilla FC também desenvolveu comunicados para divulgar tanto os jogadores quanto as famílias e os técnicos. Nas quais as recomendações são detalhadas e ampliadas, por um lado, "para tornar esse período, de medidas extraordinárias na prevenção do contágio do coronavírus, mais eficaz" e, por outro lado, "para facilitar o desenvolvimento dos períodos em que é solicitado que se reserve dentro de casas o máximo possível, além de impedir o aparecimento de alarmes excessivos nos jogadores e em suas respectivas famílias".

Adaptação à realidade de cada jogador

O Real Valladolid lida com essa situação gerando nos jovens o "sentimento de pertencer a um grupo" que luta por um objetivo comum (superar essa pandemia), para que eles também entendam os diferentes papéis que terão outros membros da "equipe" (neste caso, médicos, polícia), apoiando-os e facilitando seu trabalho para derrotar o vírus.

Quanto ao relacionamento com outros membros da família, e ao passar mais tempo em casa, "explicamos aos jogadores a importância de assumir e dividir tarefas em casa, fornecendo algumas ferramentas para a resolução de conflitos", diz Lander Hernández, cuja tarefa é focada em todas as equipes de base do clube.

Já o Departamento de Psicologia do Levante, por sua vez, realiza reuniões individuais todos os dias e durante toda a temporada com os jogadores. Durante esse período, as reuniões de treinamento mental são realizadas normalmente, mas, em vez de fisicamente, são por videoconferência. Além disso, é mantido contato diário com os jogadores para se interessar por sua situação pessoal.

"Trabalhar com jogadores que são caseiros e sozinhos é especialmente importante. Vamos ter em mente que a casuística [exame de casos particulares e cotidianos em que se apresentam dilemas morais] é muito variada com jogadores de outros países, com crianças, parceiros ou jogadores solteiros. Tentamos nos adaptar à realidade de cada um."

Por fim, as diretrizes gerais que o clube granota oferece a seus próprios membros têm como objetivo reduzir a incerteza; focar no presente; estruturar as tarefas do dia seguinte; compreender cada dia estabelecendo metas, não alterar significativamente os horários de início e término do sono; treinar com equipamentos oficiais; não esconder a inquietação do momento e conversar sobre isso com as pessoas mais próximas; e, é claro, aceitar a situação.

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