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Como pai e filho, Jair Ventura analisa, ao L!, o futuro de Rodrygo: 'O céu é o limite para esse menino'

26/02/2019 07h55

Premiado técnico revelação do Campeonato Brasileiro de 2016, Jair Ventura tirou o Botafogo da zona de rebaixamento e levou à Taça Libertadores. Em 2017, o Glorioso chegou de forma surpreendente às quartas de final da competição internacional. Após fim de ano ruim, o 2018 que se vislumbrava animador teve números decepcionantes no Santos e no Corinthians. O Fluminense chegou a cogitá-lo para assumir a equipe neste início de 2019. Não se confirmou e o treinador, na primeira pausa da carreira, recebeu o LANCE! em seu apartamento para uma conversa franca sobre os trabalhos e as polêmicas. Nesta terceira parte da entrevista exclusiva, o Jair projeta o futuro de Rodrygo, o pupilo a quem chamava de filho, e vislumbra a dupla com Vinicius Júnior no Real Madrid, para o qual o santista já está vendido.

O Rodrygo teve um primeiro desenvolvimento como profissional com você. Que análise faz dele, em termos táticos e de potencial?

Ah... (longo suspiro), ele é surpreendente, sabe? Nos primeiros treinos no Santos tinha aquela coisa de ele fazer uma jogada e os outros jogadores olharem um para a cara do outro e falarem: "Esse moleque é muito diferente". E ele é muito diferente, pensa diferente. Tem o drible, o passe, a bola parada, a finalização de média e longa distância. Tem muita coisa boa para ser alcançada. Muita, muita. É profissional, tem um pai muito presente que ele respeita, e isso é muito importante. Ele se cuida fora do campo, tem uma cabeça boa, é inteligente, observador e quer melhorar. O céu é o limite para esse menino, cara. Vai longe. E... sobre gestão de grupo, pega uma matéria em que falam que eu tinha chance de ser demitido, ele fala que estava rezando para eu não ser demitido. Ele falou: "Eu peço a Deus para o Jair continuar" Um garoto que a gente se chamava de filho e pai, a quem eu tenho um carinho enorme. Torço muito, pela pessoa e pelo jogador. Vai longe, tem tudo para ir muito longe. É diferenciado, a gente vê no dia a dia. Faz coisas que ninguém acredita. Mudança de direção... é realmente diferenciado.

Não tem como não comparar com o Vinicius Júnior, também jovem, que já está no time para o qual o Rodrygo também foi vendido...

Ele é um pouco diferente. O Vinicius é um pouco mais agudo, mais forte. O Rodrygo já pode jogar mais como meia, é aquele cara do tapa longo, do drible. Ele tem mais o passe de um meia. O Vinicius é do um contra um mesmo, e surpreendeu a todos nós essa adaptação rápida dele ao Real Madrid. Poderia acabar demorando mais um pouquinho. Estou muito feliz. Já vestiu a camisa de titular. Mas o Rodrygo é um pouquinho diferente.

Eles podem jogar juntos?

Os dois gostam do mesmo lado. Eu sempre falava para Rodrygo: "Vamos trabalhar os três lados" - no 4-2-3-1, os dois externos e o meia -. Mas o Rodrygo também gosta desse lado aqui (esquerdo), do Vinicius, do Neymar. Gostam de trazer para a perna boa (direita), para dentro. Eles fizeram grandes jogos por ali. Era o lado do Bruno Henrique, mas quando o perdemos ele (Rodrygo) foi para lá. Tem também o Arthur Gomes, que é um menino do Santos com um potencial fantástico, mas ele (Rodrygo) vai jogar na direita também. Jogou com a gente, imagina no Real Madrid. Ia ser fantástico ver esses dois meninos atuando juntos e servindo ao Benzema.

Você tem planos de trabalhar fora do Brasil?

Seria bom, eu gosto. Fico um pouco triste por os treinadores brasileiros não conseguirem. Temos o Péricles Chamusca (no Al-Faisaly, da Arábia Saudita), fazendo um trabalho fantástico, eleito o treinador da rodada, mas temos poucos. Torci demais pelo sucesso do Tite na Copa do Mundo. Além de torcer pela Seleção por ser brasileiro, automaticamente o Brasil em evidência abre portas para a gente. Eu tinha falado em relação ao Rueda (Reinaldo, ex-treinador do Flamengo), e me perguntaram se eu era a favor ou contra. Só falei da reciprocidade porque eles (estrangeiros) podem trabalhar aqui e nós não podemos trabalhar lá fora por causa da licença. Licença essa que eu pego agora. Termino o curso no fim do ano e a gente briga para que possa ter os mesmos direitos. Mas tenho vontade sim, tenho amigos fora, o Oswaldo de Oliveira fala que lá no Japão é fantástico. Se tiver oportunidade, tenho a curiosidade de trabalhar fora. Já vivenciei como jogador e com o meu pai como treinador também. Inclusive no time em que o Carille estava, o Al-Wehda, da Arábia Saudita. Eu morei lá dois anos, agora tenho a curiosidade, como treinador, de vivenciar alguma coisa também.

Como está esse período de primeira pausa na carreira?

É verdade, eu estava falando até com um amigo que perguntou se eu não estava ansioso para voltar a trabalhar. Eu falei: cara, estou numa batida desde 2015. Fomos demitidos do Botafogo no final de 2013 (era auxiliar), após conquistarmos o Carioca e obtermos a classificação libertadores depois de 17 anos. Fui parar no CSA como auxiliar do Estavam Soares (após a saída de Estevam do Botafogo, Jair assumiu o time profissional pela primeira vez, em 2010). Era só para o Campeonato Alagoano, e fiquei sete meses parado depois. Aí fiz curso de psicologia, de coaching, de português, de inglês para a gente se ocupar. Voltei em 2015 para o Botafogo, participei das contratações, da montagem do elenco com o René Simões. Perdemos a final do Carioca para o Vasco, fomos campeões da Série B com um grande time. Fiz três jogos, naquele ano, atá ser efetivado em 2016 e começar minha carreira. Dois meses parecem alguns dias, não deu tempo de sentir aquela coisa de "preciso trabalhar". É claro que amo, mas não estou com aquela pressa, agonia. Tive propostas, o que é bom, mostra que você não está esquecido, mas estamos estudando com calma, curtindo minha primeira filha, que é muito mais do que as pessoas falam. Ela fez sete meses agora, fiquei com ela brincando hoje. Estou curtindo demais, bem agarrado. Também treinando (academia), estudando, fiz o Curso da CBF, o telefone está aí, vamos escutar sempre, mas sem aquela agonia. Vai ser bom para, quando eu voltar, estar com a bateria recarregada e entrar de corpo e alma, que é como eu trabalho.

Como você avalia o estágio do futebol brasileiro?

Acho que já temos bons exemplos estrutura. No Corinthians eu encontrei uma estrutura fantástica, nível Europa. Um estafe muito bom. Estamos crescendo muito. Temos, no Rio, ainda uma dificuldade. Tem uma estrutura fantástica no Flamengo e acabamos tendo aquele episodio lamentável, todos estamos tristes pelas mortes dos meninos. Em três dias os garotos iam para a nova base. Os clubes entendem que precisam, você vê o Botafogo buscando o seu CT, o Fluminense fez, o Vasco também, então estamos no caminho certo, mas não estão atrás por estarem achando que não precisa. A situação é financeira. Temos um estado falido, ex-governadores presos, prefeito (de Niterói) preso, todo mundo (deputados) preso, saúde horrível, segurança nem se fala. A gente vive numa cidade muito ruim e futebol é reflexo. Precisamos melhorar em muitos aspectos para o futebol evoluir junto, como um todo.

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