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Walter, brigadeiro e só 1 jogo: inglês relembra passagem pelo Paysandu

Divulgação
Imagem: Divulgação
do UOL

Caio Carrieri

Colaboração para o UOL, em Liverpool (ING)

24/01/2019 04h00

Ryan Williams viveu quatro meses de descobertas no Brasil. O meia inglês de 27 anos fez o caminho inverso ao sonho de muitos brasileiros de atuar no futebol europeu e, entre fevereiro e junho de 2018, passou pelo Paysandu. Jogar? Só 20 minutos.

A demora para solucionar questões burocráticas, como visto de trabalho e inscrição no Estadual e na Copa Verde, vencida pelo Papão, atrasaram a participação de Ryan no futebol do país que acompanhou desde criança. Por influência do Santos de Robinho e Diego do início do século, ele começou a fazer na Inglaterra aulas de futsal, modalidade que serviu de escola para diversos nomes do futebol brasileiro, mas que não era tão difundida na época em solo britânico.

Em Birkenhead, cidade natal e vizinha de Liverpool, Ryan se dedicou exaustivamente às cobranças de falta durante os anos de formação. As inspirações também foram brasileiras: Marcos Assunção e Juninho Pernambucano.

Com a carreira feita por clubes de divisões inferiores - ele nunca atuou em equipes de primeira divisão -, Ryan não titubeou quando a oportunidade do Paysandu surgiu, após defender Ottawa Fury, do Canadá e na liga abaixo da Major League Soccer (MLS). Atualmente ele tenta retornar à MLS depois de disputar apenas duas partidas no segundo semestre, pelo Tranmere Rovers, da quarta divisão inglesa.

Se por um lado ele quase não teve chances com Dado Cavalcanti no time que acabou rebaixado pela Série C, se encantou com a culinária brasileira. Confira a entrevista a seguir.

Diego, Robinho e o futsal

Fui influenciado pela dupla Robinho e Diego no Santos. O futebol que eles jogavam era pura arte. Naquela época o futebol inglês não produzia muitos jogadores técnicos. Isso começou a mudar agora, um bom exemplo é o Jadon Sancho. Mas isso não era o caso. Por isso decidi a fazer aulas em um lugar chamado ?futebol de salão?, onde o foco eram habilidade e fundamentos técnicos. Aos 16 anos eu queria participar de competições, e tinha um time perto de casa que competia nacionalmente, com jogadores de 25 anos para cima. Apesar da diferença de idade, eles me deixaram participar. Quando completei 18 anos, já tinha sido campeão de campeonatos regionais de futsal. O time era muito bom, com portugueses, brasileiros, franceses, sem muitos ingleses. Isso me ajudou a pensar rápido em espaços apertados. Acabei sendo convocado para a seleção inglesa quando eu tinha 18 anos.

Marcos Assunção e Juninho Pernambucano

Durante a minha adolescência, na Europa só se falava de Beckham e Del Piero como cobradores de falta. Porém, o jeito de eles baterem na bola é diferente. Buscavam mais o chute com curva, enquanto Assunção e Juninho, meus cobradores de falta prediletos, pegavam o efeito top spin. Por isso, fiz treinamentos específicos de cobranças durante três anos, a partir de 2012, com um especialista em faltas, por minha conta. E as nossas principais inspirações eram Juninho e Assunção, com pequenas adaptações ao meu estilo. Um ano depois desse trabalho eu me profissionalizei, e a batida de falta é uma das minhas principais armas.

Como o Brasil entrou de vez no mapa

Eu estava no Canadá, onde joguei por 18 meses e tive boas atuações. Por intermédio do Ricardo Scheidt, empresário de Curitiba e que tem ligação com o Rafinha, do Bayern de Munique, me ofereceram a possibilidade. Sempre amei o futebol brasileiro. Minhas primeiras lembranças de futebol são da Copa de 1998, com Ronaldo, Rivaldo, Taffarel, Roberto Carlos. Com meu histórico no futebol de salão, vi como uma oportunidade imperdível de fazer parte do autêntico futebol brasileiro.

Ônibus do Papão atingido por pedras após derrota no clássico

Pesquei muito antes de aceitar, sabia que o Paysandu é o maior clube do norte do país. Mesmo assim, foi uma grande surpresa ver que a intensidade dos torcedores e o tamanho dos clubes eram ainda maiores do que eu imaginava. Lembro do clássico contra o Remo. Totalmente maluco e apaixonante. Eu olhava para o estádio e ?Uau!?, que coisa espetacular. Foi a maior rivalidade que pude viver na minha carreira. Muita paixão mesmo. Lembro quando perdemos para o Remo, e alguns dos nossos torcedores arremessaram pedras no ônibus. Ao mesmo tempo, quando o time vencia era algo maravilhoso, incrível. Sobre a organização, eu sabia que não seria igual à Europa, então não foi uma grande surpresa. Para ser justo, o clube me tratou muito bem enquanto eu estive lá. Ainda acompanho os resultados, as contratações. Afinal, é o meu time brasileiro.

Água na boca só de se lembrar de brigadeiro, tapioca, açaí...

Gostei muito de brigadeiro. Meu Deus! É a melhor coisa que já comi na vida. Infelizmente não acho em nenhum lugar na Inglaterra. Também achei tapioca algo muito saboroso, o açaí também.

Contraste técnico no futebol brasileiro

É um estilo completamente diferente de futebol. A construção das jogadas é muito mais devagar, com muitas trocas de passe na defesa. Foi um ótimo aprendizado em termos de tomada de decisão, o que os jogadores brasileiros fazem muito bem. Se perdem a bola, têm de voltar para marcar, e os brasileiros não gostam muito disso (risos).

Jorge Luiz/Paysandu
Imagem: Jorge Luiz/Paysandu
Mímica com o "talentoso" Walter

É um grande cara. Nós fomos contratados na mesma época, então meus primeiros treinos foram apenas com ele de companheiro, nos treinos físicos. Walter não fala inglês, e naquele momento eu não falava nada de português, então nossas primeiras conversas foram na mímica mesmo. Perto do fim da minha passagem, os jogadores brincavam que meu português já estava melhor do que o do Walter (risos). Mas ele é uma pessoa fantástica, humilde. Tem muita qualidade como jogador. Habilidoso, ótimo finalizador, com um dos melhores domínios que já vi na minha carreira. Falando só do talento, ele tem capacidade para estar nos melhores clubes da Europa. Não à toa ele já esteve no Porto, um time que costuma detectar muito jogador promissor.

Problemas burocráticos

Tive problemas com o meu visto quando eu cheguei e isso me impediu de jogar mais. Era para eu estrear no Estadual, uma ótima oportunidade para eu me apresentar, mas não aconteceu. Tive de viajar até Foz do Iguaçu, cruzar a fronteira com a Argentina e voltar para solucionar esse problema. Quando voltei com o visto, faltavam dois dias para fechar as inscrições da Copa Verde, mas o sistema caiu por 48 horas e não teve como cumprir o prazo. Por isso, não pude jogar até começar Série B e, quando fui finalmente inscrito, o técnico já tinha trazido novos jogadores que já vinham atuando. Existe também o contexto de muita pressão sobre os treinadores, então era mais seguro usar quem já estava jogando. Tive azar com coisas que ficaram fora do meu alcance e por isso vi que era hora de buscar oportunidades em outro lugar.

Violência em Belém

Não me afetou no dia a dia, eu não tinha carro. Para ir a algum lugar, sempre tinha carona de um dos companheiros. Recebi orientação para ter mais cuidado ao sair de casa à noite e que era muito mais seguro ficar em um ambiente fechado. Me falaram sobre tiros, assaltos, mas isso faz parte, acontece em qualquer lugar do mundo.

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