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Sem vencer ou empolgar, Roger repete roteiro do Palmeiras da era Mattos

Roger no comando do Palmeiras; treinador repetiu o roteiro de outros treinadores no clube - Daniel Vorley/AGIF
Roger no comando do Palmeiras; treinador repetiu o roteiro de outros treinadores no clube Imagem: Daniel Vorley/AGIF
do UOL

Gustavo Franceschini

Do UOL, em São Paulo

26/07/2018 04h00

Roger Machado foi anunciado no fim de novembro do ano passado, quando o Palmeiras já estava fora da disputa pelo Campeonato Brasileiro. Teve a chance de assumir só no começo do ano, em um novo ciclo, e sobreviveu a uma perda traumática do Campeonato Paulista. Caiu após sete meses de um trabalho que empolgou pouco e não superou alguns dos grandes desafios atuais do clube, como a irregularidade do time, a pressão da torcida por um futebol adequado à força do elenco e o déficit no confronto direto com o maior rival.

É um roteiro semelhante a todos os treinadores que o antecederam no Palmeiras atual, que ganhou novo patamar no cenário nacional desde a chegada de Alexandre Mattos. Se conseguiu levar o clube aos títulos da Copa do Brasil e do Campeonato Brasileiro, o homem forte do futebol alviverde também se notabilizou pela alternância no banco de reservas. Roger Machado é o quinto a ser demitido em três anos e sete meses de trabalho do diretor, média de uma queda a cada 8,6 meses.

O fim desta história depõe contra os dois lados. Roger surgiu em 2015 no Grêmio e mudou o patamar de um time que não funcionava nas mãos de Luiz Felipe Scolari. O estilo de jogo técnico e envolvente da equipe deu status ao jovem treinador, que manteve prestígio mesmo quando saiu do clube em que se tornou ídolo como lateral esquerdo. Sua influência foi tanta que até hoje Renato Gaúcho convive com alguma sombra de que seu sucesso à frente da equipe passaria pelo "legado de Roger".

Só que este potencial nunca se confirmou plenamente. Roger assumiu um Atlético-MG promissor no começo de 2017, ganhou o Campeonato Mineiro sem encantar e caiu antes mesmo de ser testado nas fases decisivas da Copa do Brasil e da Libertadores, quando o Galo ainda estava vivo em ambos os torneios.

Estudioso, defensor de práticas modernas no comando de uma equipe de futebol e conhecido pelo linguajar mais rebuscado, Roger virou um ícone da "nova geração" que tomou de assalto os principais clubes do país nos últimos anos. Chegou ao Palmeiras pedindo paciência com os eventuais resultados do Paulistão e as oscilações do time, mas nunca conseguiu fazer a equipe se encontrar, mesmo com o elenco mais caro e farto do Brasil.

A aposta em Felipe Melo como destruidor capaz de organizar o time à base de lançamentos não se provou eficiente nos duelos contra outros gigantes. O debate em torno da utilização dos vários meias do elenco, Lucas Lima, Scarpa, Moisés e Guerra, foi constante ao longo de sete meses e ele sai sem que uma hierarquia tenha sido estabelecida entre eles. No gol e no ataque, da mesma forma, as escalações oscilavam junto com o time, que imprimiu a marca negativa de reagir mal às circunstâncias do jogo quando saía na frente do placar.

Roger deixa poucos legados. O espaço a nomes pouco utilizados no elenco, como Antonio Carlos, Jailson, Keno e o próprio Felipe Melo, escanteado em boa parte de seu primeiro ano, podem ensinar ao clube que as soluções nem sempre precisam vir de fora. Sua forma serena de lidar com o caldeirão de emoções que costuma ser o Palmeiras também contrasta com seus antecessores, quase todos marcados por rompantes em momentos de crise. Mas é pouco.

Um dos mais promissores treinadores da nova geração volta ao mercado de novo em busca de um trabalho que o defina e o consagre.

Palmeiras repete sina de apostas e demissões

O último técnico a ficar um ano completo no comando do Palmeiras foi Gilson Kleina, campeão da Série B em 2013. Depois dele, Oswaldo de Oliveira, Marcelo Oliveira, Eduardo Baptista e Roger Machado começaram temporadas no comando do clube, todos sob a gestão de Alexandre Mattos. Em todos os casos, o palmeirense viu um começo de ano claudicante e pouco promissor culminar em demissão.

A sensação de que "esse trabalho não vai dar em nada" e uma mudança é necessária deu certo. Duas vezes. Marcelo Oliveira herdou a equipe de Oswaldo de Oliveira e a levou ao título da Copa do Brasil. No ano seguinte, entregou a Cuca um time praticamente eliminado da Libertadores e marcado pelo estilo de jogo direto, considerado pobre para o elenco em questão. De novo, o estilo foi premiado com o Campeonato Brasileiro.

A estrutura, as finanças em dia e o investimento no elenco anunciavam um potencial domínio nacional, mas de novo o Palmeiras troca o comando meses depois de fazer apostas no comando técnico. Escolheu os promissores Eduardo Baptista e Roger Machado e não pagou para ver quando eles não engrenaram. Viu o Corinthians ser campeão brasileiro com muito pouco disso tudo e agora está atrás de um São Paulo que há um ano brigava duramente contra o rebaixamento.

O clima no clube, com Mauricio Galiotte e Leila Pereira de um lado e Mustafá Contursi e Paulo Nobre de outro, em ano de eleição, dá contornos definitivos à temporada. Conhecido pela postura ousada tanto no mercado da bola como no gerenciamento de crises, Mattos pode perfeitamente dar a volta por cima com mais tacadas certeiras, até porque o elenco segue forte e vivo em todas as competições. Seu capital, porém, já não é mais o mesmo.

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