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'Vi criança com abstinência sexual': delegada cristã é contra PL do aborto

Delegada fala de casos de violência contra mulheres e crianças que acompanhou - Getty Images/iStockphoto
Delegada fala de casos de violência contra mulheres e crianças que acompanhou Imagem: Getty Images/iStockphoto
do UOL

de Universa, em São Paulo

11/07/2024 04h00

Luana Davico é delegada e professora de Leis Penais. Faz parte de sua rotina estar presente em ambientes de denúncia de violência contra mulheres, crianças e adolescentes. Não à toa, usou suas redes sociais para se manifestar contra a PL 1904, em 13 de junho deste ano.

"[...] Sou delegada de polícia. Tive que ver vaginas de bebês dilacerados por estupros ocorridos dentro de casa, uma menina de 13 anos que nem sabia que o que o avô fazia não era carinho, vi uma garota de 16 anos que o pai era pastor, não deixava a esposa e ela terem acesso a celular, tv, amizades [...] e essa garota era estuprada por ele, estava grávida, sem saber o que era sexo ou gravidez. Só descobriu com quase 8 meses quando a professora notou e denunciou. Então, por cada uma dessas meninas que eu vi, e pelas que eu não vi, eu falo, grito por elas: PL1904 não, pelo amor de Deus!", publicou no X (antigo Twitter).

A gente vive em uma sociedade onde existe o conceito da vítima de estupro ideal. Se você foge de alguns desses requisitos, sua violência é invalidada. E aí vale seu histórico de vida, como você estava se comportando, sua roupa? Tudo isso são fatores importantes em uma sociedade que não reconhece os direitos e garantias sexuais de uma mulher, disse Davico com exclusividade para Universa.

Segundo Davico, a sociedade se comporta como se quisesse que esse sofrimento das mulheres estupradas fosse contínuo e perpétuo. "Acham que elas têm que denunciar na hora da violência, sem querer indenização, que é um direito previsto em lei. Falo em sofrimento eterno porque muitas mulheres se matam depois da violência", diz.

'Não sabia que era estupro'

A maioria das violências contra mulheres não acontecem em becos escuros, por homens que as vítimas nunca viram. De acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2023, 68,3% dos casos dos estupros de vulneráveis acontecem dentro de casa e 86% das vítimas de zero a 13 anos conhecem os agressores.

Já presenciei uma vítima de violência sexual que tinha 10 anos e chorou muito ao ver a prisão do 'pai' agressor. Muitas crianças não têm noção de que aquilo é errado, ruim ou um crime, acham que é demonstração de amor, pois ela está sofrendo na mão de uma das pessoas em que mais confia no mundo, diz Davico.

A delegada diz que fazer a oitiva com essas crianças é sempre difícil, pois é ali que um conto de fadas é derrubado e começam a se criar ainda mais traumas. "E há também o espiral de culpa: da criança que deixou, da mãe que não vigiou?", completa.

Outro flagrante de sua carreira foi uma menina que tinha em torno de 16 anos e era abusada pelo padrasto. Ela, junto com a mãe, era completamente isolada do mundo, e nem sabia o que era sexo.

"Ela não tinha ideia do que era aquilo, que poderia ter pegado uma doença, engravidado, porque o padrasto inseriu um sistema de violência tão grande dentro do âmbito familiar que ela não tinha amigos, celular, não via televisão, nunca estava desacompanhada", conta Davico. Os parentes da mãe dessa menina nem sabiam que elas ainda estavam vivas, pois não se falavam há anos.

Em outro caso, Davico foi consultada por uma amiga médica sobre algo que estava vendo no hospital. Era uma menina de apenas três anos que começou a apresentar um comportamento muito diferente após a prisão do pai. A família achava que era saudade, mas era consequência do abuso sexual.

Crianças são vítimas de estupro em casa - Getty Images - Getty Images
Crianças são vítimas de estupro em casa
Imagem: Getty Images

"A psicóloga encaminhou a menina para o atendimento ginecológico e descobriram ali que o pai abusava dessa criança. Que seu comportamento era porque ela estava com abstinência sexual, por conta dos atos feitos por aquele homem, sem nem entender o que era aquele estimulo fisiológico", conta a delegada.

"Vivemos em um mundo sombrio. O Brasil precisa parar de achar que a violência só acontece quando a mulher sai na rua e é capturada por um monstro", completa.

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