Topo
Entretenimento

Cientistas descobrem como borboletas atravessaram oceano sem parar

Borboleta da espécie Vanessa cardui - Divulgação/Gerard Talavera
Borboleta da espécie Vanessa cardui Imagem: Divulgação/Gerard Talavera
do UOL

Giovanna Arruda

Colaboração para o UOL

10/07/2024 04h00Atualizada em 11/07/2024 08h40

Nos últimos 11 anos, grupo que reuniu especialistas do mundo todo trabalhou para desvendar como borboletas da espécie Vanessa cardui haviam sido encontradas na América do Sul. Com o estudo, além de conseguir descobrir o caminho percorrido pelas borboletas, os pesquisadores também fazem um alerta sobre os possíveis impactos das mudanças climáticas na biodiversidade.

O que aconteceu

Borboletas avistadas na América do Sul. Ao visitar a Guiana Francesa em 2013, o pesquisador Gerald Talavera, do Instituto Botânico de Barcelona, deparou-se com um mistério: como borboletas da espécie Vanessa cardui estavam voando ali? Não havia registros da espécie na América do Sul.

Para conseguir estudar o caso, três borboletas foram capturadas. De acordo com os autores, os animais estavam "aparentemente chegando depois de um voo vigoroso através do oceano, julgando pelas suas asas danificadas e comportamento de repouso na areia".

Talavera se reuniu com um grupo multidisciplinar para analisar a origem dos insetos encontrados. Em estudo publicado recentemente na revista Nature Communications, a pesquisa relata que as borboletas voaram, pelo menos, 4.200 km entre a África Ocidental e a América do Sul. De acordo com os pesquisadores, o trajeto feito pelos insetos teria levado entre cinco e oito dias.

Para conseguir voar por tantos dias, borboletas usaram estratégia de voo, segundo o estudo. De acordo com os especialistas, as borboletas aguentariam, no máximo, um voo de até 780 km sem descansar ou se alimentar. Com isso, o grupo acredita que, para voar por dias seguidos, as borboletas utilizaram uma estratégia de voo na qual alternavam entre um esforço mínimo (apenas para se manter no ar e planar) e um voo ativo, que exige um maior gasto de energia.

Estudiosos também indicam a região da Europa Ocidental como provável origem das borboletas. Antes de passar pela África, as borboletas teriam saído do continente europeu, o que aumentaria a distância percorrida para cerca de 7.000 km.

Ventos, DNA e pólen

Início da pesquisa contou com reconstrução da trajetória dos ventos à época do encontro de Tavalera e as borboletas. As condições do vento teriam sido favoráveis para o grupo de insetos, permitindo-lhe voar sobre todo o Oceano Atlântico. "Inferimos trajetórias de vento em diferentes altitudes ao longo de um período de 200 horas (pouco mais de oito dias), aplicando um intervalo de dias antes e depois da data de captura (das borboletas)", explica o estudo.

O DNA das borboletas também foi detalhadamente estudado. A genética dos insetos capturados foi analisada e comparada com outras borboletas da espécie, apresentando semelhanças àquelas da África e da Europa. O resultado, segundo os pesquisadores, excluiu a possibilidade que aqueles insetos haviam migrado na América do Norte, reforçando a tese da trajetória transatlântica.

Além das borboletas, o pólen encontrado nelas também passou por análise de DNA. Para descobrir o caminho que havia sido percorrido pelos insetos, o grupo analisou o pólen que elas carregavam e encontrou vestígios significativos de duas espécies de plantas.

Ambas as espécies são de arbustos que florescem no final da época de chuvas na África Ocidental, de agosto a novembro e são, portanto, fortes candidatos a fontes de néctar para as borboletas viajantes. Trecho do estudo publicado na revista Nature Communications

Análise de isótopos de hidrogênio e estrôncio nas asas. Segundo comunicado oficial da Universidade de Ottawa, uma das participantes do estudo, o estrôncio é um "sinal químico que age como uma impressão digital da região de origem natal". O resultado mostrou que a provável origem das borboletas é a Europa Ocidental (Portugal, França, Irlanda ou Reino Unido) e África Ocidental (Mali, Senegal e Guiné-Bissau).

Geralmente, vemos as borboletas como símbolo da fragilidade da beleza, mas a ciência nos mostra que elas podem alcançar feitos incríveis. Ainda há muito o que descobrir sobre suas capacidades. Roger Vila, coautor do estudo

Vanessa cardui - flor - Reprodução/Butterfly Conservation - Reprodução/Butterfly Conservation
A espécie da borboleta é conhecida por suas longas travessias
Imagem: Reprodução/Butterfly Conservation

A importância da descoberta para a ciência

Abre espaço para outros debates científicos. Os ventos do Deserto do Saara, por exemplo, são conhecidos pelos especialistas como importantes rotas aéreas para dispersão. "Essas correntes de ar são conhecidas por transportar grandes quantidades de poeira do Saara da África para a América, fertilizando a Amazônia. Agora, esse estudo mostra que essas correntes de ar são capazes de transportar também organismos vivos."

Descobertas indicam a existência de corredores aéreos naturais conectando continentes. A atuação desses corredores naturais facilitariam a dispersão de espécies em uma escala muito maior do que era imaginado. Para Megan Reich, coautora do estudo pela Universidade de Ottawa, a pesquisa demonstra a tendência de subestimarmos não só as habilidades de dispersão dos insetos, mas também "a frequência desses eventos e seus impactos nos ecossistemas".

Aquecimento global pode alterar a dispersão de insetos. Para os pesquisadores, é possível que as mudanças climáticas provoquem um aumento nas dispersões longas de insetos, o que poderia causar um impacto na biodiversidade em todo o mundo.

É essencial promovermos rotinas de monitoramento sistemáticas na dispersão de insetos, o que ajudaria a prever e mitigar potenciais riscos para a biodiversidade resultantes das mudanças climáticas. Gerard Talavera

Entretenimento