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Favorito de Caravaggio: restaurante de Roma diz ser o mais antigo do mundo

O restaurante La Campana, em Roma, quer o recorde de mais antigo do mundo que hoje está nas mãos de uma casa espanhola do século 18 - Reprodução/Instagram
O restaurante La Campana, em Roma, quer o recorde de mais antigo do mundo que hoje está nas mãos de uma casa espanhola do século 18 Imagem: Reprodução/Instagram
do UOL

Colaboração para Nossa

09/07/2024 04h00

O restaurante La Campana, em Roma, trava uma "batalha pública" pelo seu reconhecimento como o restaurante mais antigo do mundo. Há pelo menos sete anos, a equipe da tradicional cantina exibe documentos que provariam que a casa foi fundada em 1518, há exatos 506 anos. O problema?

O Guinness World Records, órgão que atesta e publica o Livro dos Recordes, segue apontando o espanhol Sobrino de Botín, em Madri, como o mais velho estabelecimento do planeta — fundado em 1725, pouco mais de 200 anos depois da data alegada pelo La Campana.

A busca pelas origens do La Campana começaram com seu próprio dono, Paolo Trancassini, que já desconfiava que o restaurante seria bastante antigo. É conhecido em Roma que, durante centenas de anos da cidade sob o domínio do Vaticano, os melhores cortes de carne da cidade eram reservados aos cardeais e aristocratas que serviam ao papado.

Por causa disso, naquela época, surgiu uma cena gastronômica paralela com as sobras do que não era consumido pelas classes altas: tripas, miúdos e glândulas dos animais assadas. Nas ruas pobres ao redor de estabelecimentos como o La Campana havia brigas frequentes entre pessoas alcoolizadas, prostituições e hospedarias — o que levou o Papa a taxá-las com impostos.

"Havia muitas aves pequenas sendo servidas nas tavernas locais naquela época e a banha era muito usada", contou Trancassini ao jornal britânico The Times. Convencido de que o La Campana era parte deste cenário alternativo, ele pediu à historiadora da arte Manuela Maggi que fizesse buscas nos arquivos da casa.

Manuela teria encontrado no manuscrito 'Taexae viarum' um recibo de 1518 no valor de seis escudos romanos — a moeda do papado até 1866 — como pagamento de imposto anual para a manutenção da rua em Roma feito por Pietro della Campana, o fundador do restaurante há mais de 500 anos. Ele teria vendido o restaurante na década de 1560 e depois acusado o comprador de não ter entregue o dinheiro, o que o levou a invadir o restaurante para roubar o caixa, segundo mais documentação de um processo judicial encontrado pela historiadora.

Registro do século 19 revela que, naquela época, o restaurante também funcionava como hospedaria para os clientes que queriam passar a noite - Reprodução/Facebook - Reprodução/Facebook
Registro do século 19 revela que, naquela época, o restaurante também funcionava como hospedaria para os clientes que queriam passar a noite
Imagem: Reprodução/Facebook

"Em cada século a partir dali, encontrei uma referência ao restaurante, provando que ele esteve aberto o tempo todo", garantiu a estudiosa ao The Times. Há ainda registro do restaurante no censo da cidade de 1526, segundo reportagem do jornal italiano Corriere della Sera.

Desde então, Trancassini, sua irmã e sua esposa — que comandam o La Campana — se dedicam a uma campanha pelo reconhecimento da casa como a mais antiga do mundo, seja através de entrevistas à imprensa internacional, posts em redes sociais e até uma críptica mensagem em sua página no Instagram que afirma que, em breve, estarão no Livro dos Recordes.

"Sem ressentimentos, mas somos os mais antigos do mundo e queremos levar o recorde", prometeu Trancassini ao jornal do Reino Unido à época. Em abril deste ano, ele ainda afirmou à revista digital italiana Reporter Gourmet que ali "se preserva a tradição e o senso de família" e que estas são qualidades que os clientes encontram no La Campana há 500 anos. "Os documentos certificam que temos continuidade histórica que não é encontrada em nenhum outro restaurante do mundo", alfinetou.

Nossa procurou Guinness World Records pedindo esclarecimentos sobre o possível andamento de um processo de reconhecimento do La Campana, mas até o fechamento desta matéria não havia recebido nenhum retorno da organização. Ao Times, o dono do Sobrino de Botín, Antonio González, aceitou a "provocação".

A entrada do La Campana - Reprodução/Facebook - Reprodução/Facebook
A entrada do La Campana
Imagem: Reprodução/Facebook

"Fomos declarados o restaurante mais antigo do mundo porque completamos três pré-requisitos: não mudamos nosso nome, continuamos no mesmo local e nunca fechamos. Se este restaurante romano puder satisfazer as mesmas categorias, eu estaria interessado em ouvir a respeito".

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Localizado em Madri, o restaurante Botín foi fundado em 1725
Imagem: Divulgação/Botín

Cozinha tradicional que encantou Caravaggio?

Assim como o Botín, que conquistou clientes famosos como Truman Capote e Ernest Hemingway com carnes de leitões assados tradicionais preparados em um forno cuja chama nunca teria sido apagada em toda a sua história, o La Campana oferece uma narrativa de magia gastronômica que teria encantado paladares estrelados.

Reza a lenda das ruas de Roma que o pintor Caravaggio, expoente do barroco italiano, teria comido por lá no século 16. A historiadora Manuela Maggi não conseguiu encontrar provas da visita, mas ela acredita que a visita seja provável. "Ele deve ter vindo porque ele vivia logo na esquina, adorava frequentar as tavernas locais e muitas das queixas das brigas [de bar] foram feitas bem nesta área", relatou ao Times.

No século 19, a casa pode ter ainda funcionado não só como restaurante, mas como correio, de acordo com um documento de 1854 encontrado em suas paredes. Uma charrete com cavalos é ainda estampada no menu, o que poderia ser um símbolo desta era em que ele também foi frequentado pelo escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe — sua visita ficou registrada em "Elegias Romanas", obra em que ele narra ainda sua paixão por uma garçonete da taverna.

O salão do La Campana - Reprodução/Facebook - Reprodução/Facebook
O salão do La Campana
Imagem: Reprodução/Facebook

De acordo com o Corriere della Sera, teriam passado pelo La Campana ainda os pintores Pablo Picasso e Renato Guttuso, os poetas Pier Paolo Pasolini e Eglio Pagliarini, a atriz Anna Magnani, o diretor Federico Fellini e a cantora Maria Callas, cujas cartas mencionando as visitas para discutir trabalhos à mesa teriam sido colocadas em exposição em Roma em 2018. Até o guitarrista dos Rolling Stones, Keith Richards, teria comido lá nos anos 80.

E, apesar de não se haver prova definitiva de todas estas ligações ilustres, é fácil entender o que atrai a boemia badalada: a busca por uma autêntica experiência romana.

O La Campana serve costeletas de cordeiro, cacio e pepe (o tradicional macarrão com queijo de cabra e pimenta), tripas, miúdos e outras partes "menos nobres" das carnes, como era costume na Cidade Eterna há séculos, contrastando com massas elaboradas e pizzas que agradam os turistas nas casas modernas.

É bom lembrar que a pizza é napolitana e só se popularizou em Roma no século 20 graças aos justamente aos visitantes estrangeiros.

"Nós nos atemos aos pratos tradicionais, não gostamos muito de inovação", comentou o dono, que compra sua carne de um açougue de 120 anos da vizinhança, ao Times. Talvez por isso o que a casa mais valoriza, no momento, é o reconhecimento de seu passado.

As suas ruas hoje tranquilas já foram movimentadas e boêmias nos tempos de Caravaggio - Reprodução/Facebook - Reprodução/Facebook
As suas ruas hoje tranquilas já foram movimentadas e boêmias nos tempos de Caravaggio
Imagem: Reprodução/Facebook

O Ristorante La Campana está localizado no Vicolo della Campana, nº 18-20, próximo ao Panteão, e funciona de terça a domingo, das 12h30 às 15h e das 19h30 às 23h. As reservas podem ser feitas por meio do telefone 06 6875273 ou pelo Whatsapp no +39 347 109 8632.

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