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Kenan e Kel usam o funk para falar em Música Popular Periférica Brasileira

Dupla de DJs Kenan e Kel tocando na festa Submundo 808 em Campinas, interior de São Paulo - Reprodução / Instagram @submundo808
Dupla de DJs Kenan e Kel tocando na festa Submundo 808 em Campinas, interior de São Paulo Imagem: Reprodução / Instagram @submundo808
do UOL

Beá Jordan

Do UOL, em São Paulo

09/07/2024 04h00

Há quem diga que o funk não é música. Para Kenan e Kel, o funk é Música Popular Periférica Brasileira.

A dupla de DJs de Campinas que se inspirou na série norte-americana dos anos 1990 é formada por Kel, 26, e Kenan, 27.

Eles levam para as pistas um repertório que não tem medo de misturar o que está na boca do povo com o mandelão agressivo de São Paulo. Com beats agudos, passarinhos gritando e tuins, barulho que remete ao efeito do lança-perfume, a dupla construiu uma identidade que em segundos vai do sertanejo de Zé Felipe ao funk bruxaria.

A mistura atraiu os olhares da música eletrônica mundial. Foi assim que os amigos que se conheceram na adolescência, em um curso técnico— e iniciaram a faculdade de Engenharia Mecânica juntos, levaram seus sets para mais de 7 países.

Mas não são só os palcos de países como a Itália, Espanha, França e Inglaterra que traduzem o alcance do duo de DJs. No TikTok, eles têm mais de 400 mil seguidores e 16 vídeos com mais de 1 milhão de visualizações.

Outra info é que eles se conheceram adolescentes no curso técnico de Fabricação Mecânica e depois seguiram para a faculdade de Engenharia Mecânica, mas hoje disseram que foram até o 7° semestre e que faltou apresentar o TCC, por isso não se formaram.

Música popular periférica brasileira

"É popular porque agora está no topo das plataformas de streaming, e é periférica porque é majoritariamente produzida pela periferia". É assim que Kel defende a ideia que estampa o palco, faixas de festas, redes sociais e até filtros do Instagram da dupla.

Para Thiago de Souza, que é doutorando em Música pela USP e pesquisa o Funk, apesar de muitos críticos considerarem o gênero despolitizado, a nova geração parece ter entendido que o questionamento político não está só em falar de política explicitamente.

DJs Kenan e Kel - Divulgação - Divulgação
DJs Kenan e Kel
Imagem: Divulgação

Durante os shows e mesmo nas redes sociais, onde tem uma presença forte, a dupla nunca discorreu sobre o tema. A mensagem incisiva fica só no campo da imagem. Os DJs confessam que chegaram no slogan de forma despretensiosa. "Um dia a gente estava no estúdio conversando sobre o som que tocamos, falamos em música brasileira primeiro, mas nós somos todos do mesmo lugar, e aí chegamos em MPPB", revela Kenan.

"O funk tem uma porta de entrada para música muito diferente dos outros estilos. A galera do funk consegue produzir com um celular, de qualquer lugar e fazer uma parada mais criativa com pouco recurso. Isso me fez querer estar nesse movimento e ajudar a difundi-lo", conta Kel, que começou a discotecar no quintal das festas de seus vizinhos, alternando músicas em abas do YouTube.

Montagem UOL / Gabriel Monteiro/Divulgação - Montagem UOL / Gabriel Monteiro/Divulgação - Montagem UOL / Gabriel Monteiro/Divulgação
B-Boy David Wuanderson, 22 anos, em apresentação dos DJs Kenan e Kel na zona leste de São Paulo
Imagem: Montagem UOL / Gabriel Monteiro/Divulgação

Recentemente, a briga pelo topo do Spotify, maior streaming de música do mundo, quase sempre está entre funkeiros e duplas sertanejas no Brasil. No último ano, pelo menos 10 MCs aparecem entre os 50 artistas mais ouvidos no país. Mas a música de preto, pobre e favelado, que hoje ocupa premiações internacionais e o line-up de grandes festivais e de festas universitárias, nem sempre foi tão bem recebida fora das favelas.

O gênero que abrasileirou o Miami Bass com beats de atabaques era visto nos anos 1990 como uma tendência importada, passageira, produzida por pessoas 'sem cultura', conta o jornalista Silvio Essinger, autor do livro "Batidão: Uma História do Funk".

Hoje a principal faixa etária do público do Kenan e Kel tem entre 18 e 35 anos e dos 16 shows que a dupla costuma fazer no mês, 6 são em eventos universitários. Estigmatizado como música de gente ignorante, agora o funk ocupa as principais universidades do país ora como playlist dos estudantes ora como tema de estudos acadêmicos.

Aqui, outro ponto em comum do funk com a Música Popular Brasileira: os universitários. A MPB surgiu em meados dos anos 1960, no Rio de Janeiro, como uma espécie de sucessão à Bossa Nova, mas com um forte caráter de luta contra a Ditadura Militar e o golpe de 1964. Por conta do contexto histórico e por ter um público majoritariamente formado por estudantes e intelectuais, a MPB também ficou conhecida como "música da universidade".

Se a MPB veio também para questionar a autoridade da ditadura, a música popular periférica coloca contra a parede a classe que dizia estar criando música popular. A hierarquização do gênero musical baseada em argumentos classistas e racistas perdeu espaço à medida em que a periferia foi ocupando a universidade, segundo Thiago Souza.

"Eu vejo a periferia muito mais politizada hoje, e essa politização vai fazer você refletir sobre o que é realmente popular. Pensar numa MPB que seja uma música periférica brasileira porque a gente sabe que são as periferias que produzem música popular historicamente. Na história da América Afrodiaspórica, seja nos EUA, Brasil ou em Cuba, a música popular não é criação de pessoas brancas de uma elite, é sempre criação de pessoas pretas que estão em posição de subalternidade".

É os K, né vida

Foi nas redes sociais que a estudante de farmácia Evelyn Carvalho, 21 anos, conheceu os K, vulgo da dupla. Das redes ela partiu para as festas universitárias e hoje é presença confirmada nos eventos em que os meninos estão no line-up. "Os beats e as viradas me impressionam muito, porque misturam funks das antigas com coisas muito atuais". Para ela, que escuta funk desde os 10 anos, a bandeira do funk como música popular periférica ajuda a mostrar a identidade do gênero. "Ver eles levando o que eu sempre ouvi no Grajaú me fez enxergar que o que eu consumia lá já era arte".

Evelyn Carvalho, 21 anos, faz foto com amiga e DJ Kenan em show em Itaquera, zona leste de São Paulo - Beá Jordan/ UOL - Beá Jordan/ UOL
Evelyn Carvalho, 21 anos, faz foto com amiga e DJ Kenan em show em Itaquera, zona leste de São Paulo
Imagem: Beá Jordan/ UOL

Influenciados pelo Hip-Hop, os DJs sobem ao palco ao lado dos B-Boys Djoker, 22 anos, e David Wuanderson, 22 anos, dois jovens de Hortolândia que misturam black, funk, dança contemporânea, contorcionismo e passinhos de TikTok nas apresentações que eles chamam de free style.

Assim como os DJs, os dançarinos aprenderam o que fazem profissionalmente de maneira autônoma. Fãs de Chris Brown e Michael Jackson, eles contam que ao se conhecerem passaram a unir suas referências e compartilhar o que já sabiam. "Nós montávamos nossos treinos e fomos atrás de aprender mais", conta David Wuanderson.

Os dançarinos Djoker e David Wuanderson em show dos DJs Kenan e Kel em Itaquera, zona leste de São Paulo - Gabriel Monteiro/Divulgação - Gabriel Monteiro/Divulgação
Os dançarinos Djoker e David Wuanderson em show dos DJs Kenan e Kel em Itaquera, zona leste de São Paulo
Imagem: Gabriel Monteiro/Divulgação

Fazendo história com a cultura negra

A maioria dos integrantes da equipe Kenan e Kel é jovem, negra e da região de Campinas; muitos já eram amigos da dupla e promoviam as festas de quintal onde eles começaram a considerar a possibilidade de serem DJs. Ao lado dos amigos, eles fundaram a produtora 808, com o objetivo de democratizar o lazer e levar as periferias para ocupar o centro da cidade, que foi a última a abolir a escravidão no Brasil.

"Não queremos fazer nosso rolê em lugares afastados, queremos fazer festas em espaços de playboy, com uma boa estrutura de som, com bons bares e oferecer para nossa galera experiências de lazer dignas. Com isso mostramos para Campinas, que é uma cidade ainda muito elitizada, que o funk, a periferia, os pretos e a comunidade LGBTQIA+ também moram aqui", conta Kel.

Hoje eles produzem três festas que nasceram em Campinas, mas já se tornaram itinerantes, são elas: a Bounce que toca hip-hop e trap; a Submundo é voltada para o funk; e a Essence, que é focada em ritmos como Afrobeat, R&B, Reggaeton.

Projeto de lei anti-funk em Campinas

Onze anos depois da morte do MC Daleste em cima de um palco em Campinas, o vereador Nelson Hossri (PSD) propôs um projeto de lei ordinária que foi apelidado de lei anti-funk.

A ideia era implementar um programa nas redes pública e privada de educação para "orientar pais, responsáveis e alunos e capacitar os professores sobre os malefícios das músicas com letras que façam apologia ao crime ou ao uso de drogas". A proposta foi vetada pelo prefeito Dário Saadi (Republicanos) no último dia 24 de junho, mas antes disso já tinha sido aprovada por duas sessões de votação na Câmara dos vereadores da cidade.

Ainda que derrubada, a proposta de lei dá o tom do clima de perseguição que o movimento Funk vive na cidade. Para Bruno Ramos, articulador nacional do Funk e relações públicas da GR6, essa é a prova de que o trabalho do Kenan e Kel é necessário e muito maior do que tocar funk. "O que eles estão fazendo ali é resistência, e enquanto o Estado não reconhecer [o funk] com políticas públicas para o segmento não há como acabar com a estigmatização", conclui.

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