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'Nosso medo é voltar para o armário': lésbica, aos 71, ela perdeu namorada

Dora Cudignola saiu do armário na década de 1980; ela perdeu a namorada em 2014 - Arquivo pessoal
Dora Cudignola saiu do armário na década de 1980; ela perdeu a namorada em 2014 Imagem: Arquivo pessoal
do UOL

Rone Carvalho

Colaboração para Universa

16/06/2024 04h05

Quando a professora aposentada Dora Cudignola, 71, perdeu sua namorada, em 2014, ela não imaginava que o velório seria um divisor de águas em sua vida.

Na época, eu era diretora e ela coordenadora de uma mesma escola. Apesar de termos um relacionamento, sempre agíamos discretamente no ambiente profissional. Mas no dia do velório, tudo mudou, mesmo cheio de professores e alunos, perdi todo aquele receio de dizer eu te amo ou beijá-la na frente de todo mundo. Minha fiel companheira estava indo embora. Dora Cudignola

Dora se assumiu lésbica na década de 1980, após se separar do marido, com quem teve uma filha, que também veio a se assumir lésbica.

Na época, o preconceito contra mulheres LGBTQIA+ era ainda maior. "Não sabíamos o que poderia acontecer se a gente pegasse na mão de uma namorada na rua", lembra. Isso a fez, durante boa parte da vida, ter que se acostumar a ter uma vida amorosa discreta socialmente com a namorada.

Com a morte dela, em 2014, Dora percebeu que precisava de alguma forma ajudar outros idosos que possuem medo de se assumirem homossexuais. Foi então que se engajou na luta da velhice LGBTQIA+, tornando-se vice-presidente da ONG EternamenteSOU, a primeira focada em acolher idosos LGBTQIA+.

Hoje, quando estou no metrô, na rua, e vejo os meninos se beijando, fico encarando não por reprovação, mas para aplaudir, porque queria ter tido essa coragem com minha namorada. Dora Cudignola

NA ONG, Dora ressalta que a solidão e o preconceito são os relatos mais comuns das pessoas com mais de 50 anos que frequentam as sessões de terapia.

"Já não é fácil ser idoso no Brasil, agora imagina ser idoso LGBTQIA+? Nosso medo é voltar para o armário", diz a aposentada.

Preconceito na família

Bandeirão do arco-iris na avenida Paulista, durante a Parada do Orgulho LGBT+ 2024  - Leo Franco/AgNews - Leo Franco/AgNews
Bandeirão do arco-iris na avenida Paulista, durante a Parada do Orgulho LGBT+ 2024
Imagem: Leo Franco/AgNews

Milton Crenitte, médico geriatra da SBGG (Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia), ressalta que o preconceito com os idosos LGBTQIA+ ocorre já nos próprios laços familiares.

"A gente sabe que muitos idosos que são da comunidade LGBT tiveram que romper com suas famílias consanguíneas e não desenvolveram laços afetivos por serem rejeitados, abandonados ou foram expulsos de casa", afirma o médico. "Então muitos deles não são casados, não têm filhos, não têm ninguém para chamar em caso de emergência. A solidão e o isolamento social são desafios recorrentes dessas pessoas", ressaltou Crenitte.

O que favorece, a longo prazo, maior risco desses idosos desenvolverem transtornos mentais, como depressão, conforme constata estudos do pesquisador Ian Meia, criador da expressão "estresses de minoria".

"Quando você pertence a um grupo minorizado, você está exposto a diversos estressores, no caso da comunidade LGBTQIA+, a não aceitação e a próprio homofobia internalizada pode trazer desfechos em saúde mental, como a maior predisposição a depressão e até suicídio", diz Crenitte.

Outro preconceito que potencializa as dificuldades enfrentadas pelos idosos LGBTQIA+ é o etarismo.

"A gente percebe que essas pessoas sofrem um duplo preconceito. O primeiro, associado ao etarismo, por serem idosas, o segundo, a LGBTFobia", ressaltou Pedro Augusto Gravatá Nicoli, pesquisador da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) sobre o tema.

Situação que é potencializada em relação a idosos transexuais e transvestis.

"As pessoas trans e transvestis são as que mais sofrem com o processo de envelhecimento. Primeiro, por não chegaram na velhice devido a forte violência que ainda existe em relação a este grupo na sociedade. Segundo, quando chegam, os laços familiares foram quebrados e muitos são sozinhos", diz Nicoli.

A expectativa de vida de um transexual no Brasil é de 35 anos, segundo estudos da Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais).

Já a de um idoso heterossexual é de, em média, 75,5 anos, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

Há algo a ser feito?

Para Milton Crenitte, porta-voz da SBGG, o primeiro passo para combater o preconceito é quebrar o tabu na mente do brasileiro de que idoso não tem desejo sexual.

Sexualidade é como a gente se veste, como a gente se porta, como a gente se expressa. Enfim, sexualidade é tudo. A partir do momento que a gente entende que sexualidade é tudo, e muito além do que o ato sexual, e que ela não se extingue na velhice, a gente compreende que todo mundo tem direito de se expressar sexualmente e para além das normas. Milton Crenitte, geriatra

Por sua vez, Luis Baron, presidente da ONG EternamenteSOU, diz que já passou da hora de o país discutir políticas públicas voltadas aos idosos LGBTQIA+, já que a partir da década de 2050, a população brasileira acima dos 60 anos será o dobro do contingente de crianças e adolescentes com menos de 14 anos, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).

"E não estamos falando apenas de preconceito, mas também de questões econômicas e sociais. Hoje, a maior parte dos idosos LGBTQIA+, ao chegarem na velhice, não são pessoas ricas, ao contrário, a maior parte chega à velhice com o mínimo de sustento possível, porque uma boa parte delas deixou seu núcleo familiar e ao chegar nos grandes centros trabalhou na informalidade e não conseguiu concluir os estudos", apontou Baron.

Já Pedro Augusto Gravatá Nicoli, pesquisador da UFMG, aponta que essa mudança pode começar a ocorrer já na esfera dos próprios municípios, ao criar núcleos de apoio a comunidade idosa LGBTQIA+.

"É necessário um olhar mais atento a essa comunidade. Seja na esfera de amparo no campo da saúde ou até da previdência social. De todo modo, as cidades brasileiras já têm políticas públicas para pessoas idosas, agora precisam mais do que nunca incluir os idosos LGBTQIA+ nessas políticas públicas", afirma o pesquisador.

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