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Como a estátua de general Baquedano virou foco de manifestações no Chile

Estátua do general Baquedano pintada de vermelho em 16 de outubro de 2020 - @pauloslachevsky/UOL
Estátua do general Baquedano pintada de vermelho em 16 de outubro de 2020 Imagem: @pauloslachevsky/UOL
do UOL

Luciana Taddeo

Colaboração para o TAB, de Buenos Aires

06/04/2021 04h00

Passava da uma da manhã quando o general, montado sobre seu cavalo, pairava nas alturas. Eles foram erguidos por um guincho, diante de pelo menos uma dúzia de militares prestando continência. O clima cerimonial, musicalizado por uma corneta, era interrompido por gritos de "assassino" vindos dos arredores. No edifício mais alto da praça, era projetada a frase "Extirpar de Raiz", referência a uma analogia usada pela ditadura do general Augusto Pinochet, que comparou o comunismo a um "câncer".

A projeção pôde ser lida somente por cerca de três minutos. Rápido, mas suficiente para figurar nas fotos da remoção histórica. Depois de 93 anos, a estátua do general Manuel Baquedano, considerado por muitos um herói do Exército chileno pelo desempenho na Guerra do Pacífico, era retirada do centro da Praça Itália — rebatizada por manifestantes da insurreição social chilena como "Praça da Dignidade".

Disputa de narrativas

"Tinha tantos militares que até dava medo", diz Octavio Gana, que realizou a projeção durante a retirada do monumento. Seu coletivo artístico e de design, o Delight Lab, realizou diversos mappings no local -- como o da a palavra "Renasce", que marcou, no plebiscito do ano passado, a aprovação da reforma constitucional chilena herdada da ditadura.

A Praça Itália, outrora utilizada para comemorações de torcidas de futebol, virou o espaço central das manifestações iniciadas com o reajuste do transporte público em 2019, mas que acabaram expressando diversas demandas por direitos, como acesso à educação, à saúde, à aposentadoria e até à água, que no Chile é privatizada.

Em um país que decidiu, com quase 80% dos votos, reescrever suas regras, o simbolismo do general no centro da praça também foi colocado em xeque. Baquedano atuou na ocupação do sul do país e, apesar de não haver consenso na historiografia sobre seu grau de participação nas campanhas militares, seu nome acabou vinculado ao massacre da população mapuche. Algo que, após diversas tentativas de derrubar as duas toneladas de bronze da sua estátua, parece não poder conviver com manifestações por uma vida digna.

"Queria que a gente tivesse derrubado, tentamos muitas vezes", diz Mons, pedreiro e grafiteiro de 40 anos, sobre o sentimento ao ver a remoção da estátua do centro da praça. Pai de dois filhos e morador da periferia de Santiago, ele vai à capital todas as sextas-feiras para protestar. Com outras seis pessoas, Mons integra um coletivo anarcoartístico que promove ações "vandálicas e antissistêmicas".

Foram eles que, no ano passado, pintaram a estátua do general Baquedano toda de vermelho. Para executar a ação, foram necessários 15 minutos, 17 aerossóis, 5 litros de cera vermelha espalhada com rolos de pintura, força no indicador e muita experiência. "Para pintar rápido, são necessários aerossóis específicos, de alta pressão", explica H.S., sobrinho de um torturado na ditadura e membro do coletivo que, assim como Mons, pede para não ser identificado.

A logística para a ação incluiu levar mudas de roupa para despistar a polícia na fuga. Nada incomum para quem carrega coquetéis molotov para a atuação na "primeira linha" de confronto com os carabineros, a polícia militarizada do Chile. "É parte do nosso trabalho aguentar a repressão para que idosos, crianças, estudantes, trabalhadores, professores e artistas possam marchar. Se eles reprimem, nós atacamos, e eles sempre reprimem", explicam.

Revolução por streaming

Nos primeiros dias de protestos de outubro de 2019, a repressão fez Trinidad Lopetegui, 32, chorar compulsivamente. Depois, vieram os pesadelos violentos. Do 11º andar de um edifício em frente à Praça Itália, ela e seu sócio tinham a dimensão de tudo o que estava acontecendo no país. Sufocados por uma nuvem de gás lacrimogêneo -- lançado inclusive ao último andar do prédio -- foi impossível manter a agenda. Eles logo perceberam que o incidente precisava ser mostrado sem intervenções.

Assim nasceu o streaming da Galeria Cima no YouTube, canal fundamental para milhares de pessoas acompanharem a revolta social e a consequente repressão militar -- que se valeu de carros lançadores de água, balas de borracha e de chumbo, e spray de pimenta. Os registros acabaram sendo utilizados tanto por organizações de direitos humanos como por autoridades, razão pela qual eles tomam cuidado para a resolução das imagens não ser alta: a ideia é que os manifestantes não possam ser identificados.

"Me conectei com nossa história, com nossa dor, como com esse menino Anthony [Araya, de 16 anos], jogado no Mapocho [por um carabinero em um protesto], em contraposição com as imagens [dos corpos no rio] na ditadura", afirma, sobre a repressão da qual foi testemunha silenciosa, para não interferir na transmissão. Mas por vezes, Trinidad diz que teve de ir até ao térreo ou desligar brevemente a câmera para poder gritar.

Se para ela o passado pode ser melhor compreendido pelo presente, para Mons, os protestos atuais foram a maneira de canalizar a raiva contra o Estado chileno desde aquela época. Ele conta que, quando tinha 6 anos, sua irmã de 10 foi sequestrada pela Direção de Inteligência Nacional de Pinochet. Ela foi encontrada no dia seguinte, a 10 quilômetros de casa, e depois disso os pais dele, membros da juventude comunista, conseguiram documentos falsos e se mudaram com os filhos para outra cidade.

Manifestante diante da estátua de Baquedano, em março de 2020 - @pauloslachevsky/UOL - @pauloslachevsky/UOL
Manifestante diante da estátua de Baquedano, em março de 2020
Imagem: @pauloslachevsky/UOL

Guerra de tintas

Após a estátua ser toda pintada de vermelho, a prefeitura passou a cobrir com tinta preta as intervenções multicoloridas, pichações e grafites. Virou uma espécie de luta de mensagens. Também era comum que os manifestantes subissem no monumento com bandeiras mapuche ou a imagem de olhos -- em alusão às centenas de vítimas que sofreram traumas oculares por conta da repressão policial.

Nos últimos dias de "resistência" da estátua, os ataques foram mais agressivos. No último 6 de março, o monumento foi incendiado. Segundo Mons, que estava no local -- mas diz não ter participado da ação --, manifestantes atearam fogo em um ataúde com o nome do presidente chileno Sebastián Piñera, pneus foram colocados no cavalo e as várias camadas de tinta da estátua foram combustível para uma grande chama.

Em comunicado, o Exército qualificou os responsáveis como "covardes desadaptados" e "antichilenos, porque não conhecem a história e, em sua ignorância, são incapazes de descobrir a extraordinária contribuição de Baquedano e milhares de soldados ao país."

A decisão do CMN (Conselho de Monumentos Nacionales) pela retirada da estátua para reparação só veio depois que homens vestidos com macacões brancos, munidos com serra elétrica e martelos, tentaram derrubar o monumento. A ação deixou a pata esquerda da figura equina a dois centímetros de ser decepada -- e o CMN constatou possibilidade real de queda.

Previamente, outras avaliações de danos tinham sido feitas, optando-se por trabalhos de reforço no rabo (de 150 kg) e das patas do cavalo, além de retirada de elementos com risco de desprendimento. Duas esculturas que compunham o monumento -- um soldado de cerca de 600 kg, derrubado por manifestantes, que acabou com um braço roubado, e a de uma mulher na parte frontal -- foram removidas em novembro. Agora, o pedestal está protegido por tapumes metálicos e é permanentemente custodiado.

Segundo a conservadora e integrante da secretaria técnica do CMN Francisca Correa, o valor patrimonial e artístico do monumento do general Baquedano, protegido por lei, é "altíssimo". As estátuas foram esculpidas pelo chileno Virginio Arias e o pedestal foi projetado por Gustavo García, arquiteto responsável pelo desenho da Biblioteca Nacional do Chile. "São dois artistas nacionais muito importantes da época. Também é valioso por como a manufatura está realizada, com pedras talhadas à mão por artesãos e muitos elementos simbólicos", explica.

Curiosamente, o material do fotógrafo Paulo Slachevsky, 57, dono da editora LOM e autor de "Fragmentos de un Despertar" -- que traz registros fotográficos da insurreição social, mostra que a interação de manifestantes com o monumento não é de hoje. Em uma das fotos de seu imenso arquivo, estudantes aparecem acorrentados à estátua durante a ditadura e, em outra, manifestantes sorridentes sobre o cavalo comemoram o plebiscito de 1988, que decidiu a não-continuidade do governo Pinochet.

Eugenio Maturana, 60, é sobrinho bisneto do general Baquedano e trabalha como agente de seguros da cidade chilena Curicó. Há seis anos, desde que perdeu a mãe, Maturana mora com o pai, de 92 anos, que vê os atos contra a estátua como um "vandalismo extremo". "Se esta figura gera divisão, é melhor que seja levada e protegida em algum recinto militar", pondera o agente de seguros, esclarecendo, no entanto, nunca ter sido consultado pelo Exército sobre o destino do monumento.

Ao mesmo tempo que a retirada é comemorada por quem considera a estátua um símbolo de violência e opressão, o governismo lamenta sua remoção, afirmando que esta foi uma vitória do vandalismo e da destruição.

Estima-se que a restauração dure mais de seis meses e ainda não há previsão de quando o general e seu cavalo voltarão para o centro da praça. Se é que voltarão.

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