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Carolinie Figueiredo relata estupro e violência obstétrica em carta aberta

A atriz Carolinie Figueiredo - Reprodução/Instagram
A atriz Carolinie Figueiredo Imagem: Reprodução/Instagram
do UOL

Colaboração para o UOL, em São Paulo

26/11/2020 06h41

A atriz Carolinie Figueiredo utilizou a data de ontem, em que é celebrado o Dia Internacional de Combate à Violência Contra a Mulher, para relatar o abuso sexual que sofreu na adolescência e a violência obstétrica no parto da filha Bruna Luz, que completou nove anos na mesma data.

Aos 31 anos, a ex-malhação também é mãe de Theo, de 6. Em sua carta, ela contou como a experiência de dar à luz à primeira filha foi traumática:

"Minha história de compreensão e elaboração da violência começou há nove anos, na chegada da minha filha ao mundo. Por ter sido um parto vaginal e sem anestesia, eu não compreendia o que tinha acontecido, mas algo me parecia errado. Eu tinha 22 anos. Dois anos depois do nascimento dela, eu estava grávida do meu segundo filho. Ao repassar as experiências do primeiro parto com a médica, ela me disse: 'O que aconteceu foi uma violência obstétrica e você precisa elaborar isso'."

"Um filme passou na minha cabeça: não só a privação de água e comida, o impedimento de movimentar meu corpo. Não só as palavras de descrédito e humilhação sobre meu processo de parir, mas também a manobra de Kristeller (prática antiga da obstetrícia, que consiste em empurrar a barriga da mulher com toda força para que o bebê saia mais rápido; superperigosa pro bebê e para a mãe, altamente violenta). Doem também as memórias de trazer minha filha ao mundo gritando: 'Não, não, não', enquanto eu tentava fechar as pernas pra me proteger da dor. Essas dores estão vivas nas nossas células, na sensação física de limites que foram atravessados. Fica a vontade de chorar, o nó na garganta, as memórias que estão gravadas e emergem nos registros do corpo."

A atriz contou que pausou a carreira há seis anos para cuidar dos filhos e renascer profissionalmente. Hoje ela é terapeuta e facilitadora de grupo de mulheres.

Carolinie também relata que demorou anos para perceber que sua primeira relação sexual foi, na verdade, um estupro:

"A verdade é que todas nós já sofremos algum tipo de assédio, abuso ou violência. Se você não lembra é só uma questão de tempo até seu sistema nomear. São as fichas que vão caindo ao longo da vida. Eu demorei 15 anos pra compreender que a maneira que perdi minha virgindade também foi um estupro."

"Na minha rede é recorrente o registro de mulheres que fazem sexo com seus maridos sem vontade, por obrigação social. Precisamos falar sobre a dupla violência. Depois de todo processo doloroso de compreender o que aconteceu, contamos para algumas pessoas, pedimos apoio à família, ao sistema de saúde e ao Estado e encontramos culpabilização, humilhação, descrédito e desencorajamento, o que grifa ainda mais a violência de gênero."

A atriz comenta ainda a pressão estética que sofreu na infância e adolescência enquanto atriz e a desigualdade de gênero no trabalho. No fim de seu relato, ela dedica sua luta por uma sociedade mais igualitária à filha:

"Filha, hoje é seu aniversário de 9 anos. Parte do meu trabalho de despertar é limpar o terreno para que você pise com mais segurança. Estamos abrindo espaço para que seu caminho seja mais livre e mais justo. Esse movimento não é só meu, mas de todas mulheres que vieram antes, são por nossas avós, bisas, tias, primas... Mulheres que atravessaram tudo isso sem ter espaço de fala e escuta. Quando você puder compreender toda essa história, minha filha, eu espero que você sinta orgulho e admiração por esse movimento."

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