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Como Galvão foi de narrador mais odiado do Brasil a namoradinho da internet

Galvão Bueno - Reprodução/Twitter
Galvão Bueno Imagem: Reprodução/Twitter
do UOL

Leonardo Rodrigues

Do UOL, em São Paulo

05/08/2020 04h00

Quem vê Galvão Bueno harmonizando um generoso pedaço de presunto com uma taça de vinho de fabricação própria, e sendo elogiado por isso, dificilmente imaginaria. Vinte anos atrás, este mesmo homem, que hoje inspira fã-clubes e nomes de pets, precisava andar com seguranças para não correr o risco de ser agredido por torcedores. Galvão mudou de vida.

Ex-odiado

Ele sempre foi um grande narrador —para muitos, o maior de todos—, mas no fim dos anos 1990, após uma década como titular nas principais transmissões esportivas, Galvão viu sua relação com o brasileiro azedar. Enquanto torcedores de times reclamavam de clubismo, fãs da seleção criticavam suas "pérolas" e diziam que ele palpitava demais e narrava de menos.

Essa pecha acompanhou Galvão por muitos anos, e, em 1999, esta faixa abaixo, estendida na Copa do América do Paraguai, mostrou que algo estava errado

"Cala a boca, Galvão"

A partir daí, a coisa virou uma bola de neve. Maior estrela do esporte da Globo, Galvão passou a ser constantemente achincalhado por colunistas e pela opinião pública. Faixas como "Galvão, vai lamber sabão" (entre outras mais pesadas) e gritos como "Ei, Galvão, vai tomar no c* (idem) viraram febre nos estádios, chegando às Copas do Mundo de 2006 e 2010.

Seria o fim da linha?

Por sinal, durante a Copa de 2010, a primeira após a popularização do Twitter, a frase "Cala a boca, Galvão" virou campanha e trending topic. Isso porque, anos antes, Galvão chegou até a andar com seguranças temendo ser agredido por torcidas organizadas. A pressão era tanta que muitos acreditavam que ele, já milionário e consagrado na TV, iria anunciar a aposentadoria na primeira oportunidade.

Mas, espera aí. Como Galvão conseguiu dar a volta por cima, sem mudar em nada a personalidade ou o estilo de narrador-comentarista durante as transmissões?

Simples: abraçando a zoeira. No livro de memórias "Fala, Galvão!", ele conta que se assustou com a repercussão da campanha "Cala a Boca, Galvão" e decidiu comentá-la ao vivo, para mostrar que não levava rancor. Mostrando vulnerabilidade, bom humor e se abrindo nas mais diversas as plataformas, ele deixou a fama de antipático para trás e marcou um golaço.

Senna já sabia

Levei a brincadeira adiante e disse para Tiago Leifert: 'Ayrton Senna deve estar rolando de rir em algum lugar, porque ele só me chamava de papagaio". 'Cala a boca, Galvão!', dizia o Tiago. "Quer saber de uma coisa? Eu não vou calar a boca, nada, eu vou é falar
Galvão, de bem com a vida

E olha o que ele fez desde então

Após Copa de 2010, Galvão acertou ao entrar de cabeça na era da internet, intensificando sua presença nas redes sociais e gravando vídeos para os seguidores. Também passou a mostrar a casa, a família, o cotidiano, os negócios e até a brincar com os próprios bordões e erros da carreira —e não foram poucos. Virou "gente como a gente" —só que bem mais rico.

Aliás, como não amar este homem "muito empolgado" que se deixou gravar tentando atravessar a piscina? (repare o que todos gritam no fim da travessia)

Ou quando gravou um vídeo em homenagem ao "rival" e ex-colega Luciano do Valle, que morreu em 2014

Nos últimos 37 anos na TV, Luciano do Vale e eu disputamos cada ponto de audiência na TV esportiva no Brasil. Para poder enfrentá-lo, tal a capacidade que ele sempre teve, tive que me esforçar muito. Uma concorrência dura, mas leal, que nos fez bons amigos. Hoje, a comunicação desse país fica mais pobre
Galvão Bueno, reconhecendo a concorrência

Ou quando expressou da forma mais perfeita o sentimento do brasileiro durante a humilhação do 7 a 1

É uma grande seleção contra um time de meninos
Galvão Bueno, na mosca

Ou quando emocionou o Brasil e a si mesmo na final da Copa de 2018, homenageando o amigo Walter Casagrande, que pela primeira vez foi a um Mundial totalmente "limpo"

Ou quando reconheceu o erro ao rever a transmissão da final da Copa de 1994, quando pegou no pé de jogadores como Cafu e Zinho

Eu cheguei a pedir desculpas ao Cafu por alguns comentários feitos na decisão do tetracampeonato. Queria aproveitar aqui para pedir desculpas ao Zinho também, porque acho que, em alguns momentos, peguei pesado com alguns atletas. Mas sem nenhum sentimento de diminuir a capacidade deles

E, mesmo depois de conhecer o lado feio da internet, Galvão ainda demonstra elegância ao lidar com quem não consegue gostar dele. Afinal, todos têm esse direito

Aos 'haters' um recado: quer reclamar, faça com educação
Galvão em sua página no Instagram

E outra: Galvão virou símbolo dos bons tempos do esporte

Ele é um ícone das vitórias brasileiras na F-1 e da segunda era de ouro do nosso futebol, que, entre 94 e 2002, chegou a três finais de Copas e levantou duas taças. Já que não ganhamos mais mundiais nas pistas e gramados, é sempre delicioso matar a saudade revendo as transmissões cheias de bordões e emoção. O saudosismo também pesou na reavaliação dele.

Odiávamos a pessoa errada: o cara é fera!

Haters, desistam. Poucos possuem tamanho conhecimento técnico no esporte, do automobilismo às modalidades olímpicas. Com a chegada da nova geração de narradores essa diferença ficou ainda mais abissal. Galvão ainda sabe dosar como poucos a emoção e não berra desnecessariamente por qualquer coisa nos jogos, como fazem os mais jovens. Isso faz diferença.

Galvão fez 70 anos em julho e recebeu uma enxurrada de homenagens. Aposentadoria? Ele já sinalizou que irá deixar de narrar o Brasil em Copas. Mas quer saber? Não acreditamos

Se eu não me emocionar, não vou poder vender bem o meu produto. Eu tenho uma paixão pelo que eu faço. Eu quero ir até o último dia, se puder, porque tem duas coisas que são fundamentais na minha vida: o amor pela minha família e pela minha profissão. Eu amo demais o que eu faço. São 45 anos de profissão e eu lembro de cada momento, cada alegria, cada tristeza

Um fato: para Galvão, não tem essa de "acabou". Com ele é sempre "tetra!"

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