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Sem palco nem plateia, comediantes correm atrás do público no TikTok

"Call Eterno", esquete da Porta dos Fundos - YouTube/Reprodução
"Call Eterno", esquete da Porta dos Fundos Imagem: YouTube/Reprodução
do UOL

Amanda Cavalcanti

Colaboração para o TAB

12/07/2020 04h00

Em 17 de março, o canal Porta dos Fundos publicou um vídeo de making of de uma de suas esquetes. Em "Qué Pasá?", dois personagens ficam incomodados com gringos que conversam e fazem críticas ao Brasil na mesa ao lado. A esquete foi gravada numa situação que, há quatro meses, parecia comum e inofensiva: um bar lotado, pessoas se tocando e conversando com proximidade, comendo amendoins de um mesmo pote compartilhado.

Quando a quarentena se tornou oficial e os números da Covid-19 começaram a aumentar exponencialmente, o conteúdo do canal foi se adaptando às limitações do isolamento. Há novas séries inteiramente dedicadas a tratar dos desafios e dificuldades da quarentena, como "Trabalhando Em Casa", que tira sarro dos difíceis momentos do home office, e "Família sem Filtros", que acompanha uma família que se isola junta.

Os formatos dos vídeos também refletem essas questões: grande parte é gravada por chamada de vídeo via aplicativos como Zoom, ou como lives e stories com filtros no Instagram. Em "Terapia a Distância", por exemplo, Gregório Duvivier e Fábio Porchat simulam uma sessão de terapia por vídeo - cada um de sua casa, em vídeos gravados pelas câmeras de seus notebooks.

"No YouTube, você consegue fazer vídeos curtos que funcionam sozinhos e consegue mandar eles para quem você acha que tem a ver. O Porta dos Fundos casou perfeitamente com esse veículo", comenta Duvivier ao TAB, cujo programa semanal "Greg News", postado no canal da HBO Brasil, também teve de ser adaptado à quarentena.
Normalmente gravado num estúdio e à frente de uma plateia, durante o isolamento o comediante tem feito o quadro num escritório na casa de sua mãe. "A adaptação do texto para mim é igual, mas acho que o tom de entrega acaba ficando um pouco mais intimista", diz. "Antes, falava para mais de cem pessoas; hoje, falo para minha irmã, minha mãe e meu irmão, que estão confinados [comigo] e ajudam na produção."

A rapidez e o stand-up

Além das lives que tomaram o Instagram, Twitch e YouTube de músicos, surgiram também lives de stand-up. O festival de humor Risadaria organizou o Risadaria em Casa, série de lives de comediantes que contou com a participação de Leandro Hassum, Maurício Meirelles e Paulo Bonfá, entre outros.

O fenômeno também vem acontecendo internacionalmente: comediantes norte-americanos, como Maria Bamford e Nore Davis, já realizaram espetáculos via Zoom. O crítico de comédia do jornal The New York Times, Jason Zinoman, está dedicando parte de sua coluna On Comedy para comentar essas apresentações online.

"Depois do 11 de setembro, houve muitas conversas sobre como a ironia estava morta e como não era hora de fazer comédia, e certamente alguns comediantes fizeram uma pausa, mas os clubes de stand-up continuaram de pé. O desaparecimento da comédia ao vivo que temos agora é sem precedentes", diz Zinoman. Para o crítico, algumas adaptações estão sendo bem-sucedidas: "Alguns comediantes se adaptaram muito rapidamente ao novo normal e fizeram trabalhos urgentes que comentam o que está acontecendo agora. Ted Alexandro, um ótimo humorista de stand-up, publicou um material especial filmado em seu apartamento no Queens quando [Nova York] era o epicentro da pandemia e as sirenes eram a trilha sonora diária da cidade. Achei aquele um belo trabalho."

#ohmeudeux

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Mas, mesmo antes do isolamento, as redes sociais já proporcionavam a formação de novos comediantes e formatos de comédia. O piauiense Whindersson Nunes, que por alguns anos sustentou o título de maior canal brasileiro no YouTube, gravou os primeiros vídeos lá publicados (em 2013) com uma câmera em seu próprio quarto, sem props ou plateias para acompanhá-lo.

Sete anos depois, novos comediantes constroem, cada vez mais, fortes audiências online nas redes sociais, com personagens formados inteiramente para formatos da web. Um bom exemplo é o youtuber Matheus Canella, que recentemente alcançou um milhão de inscritos e tem, entre outros, o personagem Tio Sérgio: um caipira sem muita familiaridade com tecnologia e coisas da cidade grande.

"As redes sociais influenciaram o surgimento de novos tipos de comédia em jeitos demais para contar", fala Zinoman. "O YouTube já existe há tempo o bastante para vermos que alguns comediantes jovens e talentosos surgiram muito mais rapidamente do que teriam se estivessem somente nos clubes de comédia."

O comediante Yuri Marçal, na esquete "Tem que tomar vacina", de fevereiro de 2020 - YouTube/Reprodução - YouTube/Reprodução
O comediante Yuri Marçal, em "Tem que tomar vacina", de fevereiro de 2020
Imagem: YouTube/Reprodução

O carioca Yuri Marçal é um exemplo de como as redes sociais podem ser usadas a favor do humorista: apesar de ter começado pelo caminho comum, no stand-up, os vídeos publicados em suas páginas no YouTube, Twitter e Instagram alavancaram sua popularidade a um público muito maior. Esquetes como "Esquerdomina" chegaram a acumular mais de 900 mil visualizações no Facebook. "Eu sou o cara do palco, mas os vlogs geralmente são de primeira ideia, pra entregar aquela premissa engraçada. O palco é onde eu me dedico e me aprofundo", fala Yuri ao TAB. "Durante a quarentena, estou trazendo muitos assuntos sazonais [nas redes], e a galera tem curtido."

Plataformas ainda mais novas, como o falecido Vine e o ascendente Tik Tok, também tiveram um impacto considerável em como se produz e consome conteúdo de comédia na internet. Não é difícil esbarrar com as cômicas "Vine compilations" no YouTube — a plataforma, que foi descontinuada em 2016, permitia que usuários postassem vídeos de até 7 segundos, que eram executados em loop. Era uma comédia instantânea, feita com poucos artifícios e muitos cortes rápidos.

Foi lá que o mineiro Lucas Rangel começou a gravar seus vídeos em 2015, que mais tarde migraram para o YouTube e hoje se encontram também no TikTok, onde Lucas acumula 7 milhões de seguidores. No TikTok, o efeito cômico se dá pela chance de replicar vídeo e áudio de outras contas e fazer seu próprio conteúdo com elas. Num de seus últimos vídeos, Lucas simula uma conversa com o tiktoker romântico Mário Jr. "Meu conteúdo é adaptável. No meu canal do YouTube eu tenho até filmes e séries, e [no TikTok] encontrei um novo lugar onde minha imaginação poderia se jogar", fala Lucas.

O formato já é amplamente explorado, também, por figuras já mais conhecidas da comédia: nomes como Tirulipa e Tatá Werneck começaram a usar o TikTok mais frequentemente durante a quarentena.

Para Jason Zinoman, embora algumas pessoas no meio da comédia sejam sensíveis com definições, estrelas de YouTube e TikTok "são, sim, comediantes e, de certa forma, tiveram que se adaptar", diz. "Ao mesmo tempo, não há atalhos e não há como substituir o tempo do palco como experiência no desenvolvimento de um comediante. Portanto, esses novos elementos de mídia são mais uma habilidade para aprender."

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