PUBLICIDADE
Topo

Japoneses negros: jovens desmontam mito de modelo étnico único no Japão

À primeira vista, você pode apostar que a japonesa sou eu, a jornalista de olhos puxados e pele amarela que escreve estas linhas. Erro comum -- e esta reportagem vai contextualizar o porquê. Spoiler: é puro preconceito, que presume uma única identidade nipônica e apaga a diversidade étnica do país - Arquivo Pessoal
À primeira vista, você pode apostar que a japonesa sou eu, a jornalista de olhos puxados e pele amarela que escreve estas linhas. Erro comum -- e esta reportagem vai contextualizar o porquê. Spoiler: é puro preconceito, que presume uma única identidade nipônica e apaga a diversidade étnica do país Imagem: Arquivo Pessoal
do UOL

Juliana Sayuri

Colaboração para o TAB, de Toyohashi (Japão)

07/07/2020 04h00

Junho foi marcado por protestos do movimento Black Lives Matter mundo afora — desencadeados pelo assassinato do americano negro George Floyd, asfixiado por um policial em Mineápolis, no norte dos Estados Unidos — no dia 25 de maio.

Deste lado do mundo, manifestantes marcharam por capitais como Tóquio, Quioto, Osaka, Nagoya e Niigata, com cartazes em inglês e em japonês. "Primeiro, nós queremos mostrar solidariedade aos manifestantes nos Estados Unidos. Segundo, queremos pavimentar o caminho para discutir o racismo aqui no Japão", definiu a ativista Sierra Todd, que organizou o protesto de Tóquio. "Marchamos para aumentar conscientização entre japoneses do que está acontecendo lá fora — e para acordá-los sobre o que acontece aqui dentro. Há muito tempo, há negros no Japão. Há japoneses negros nascidos no Japão. Nós existimos", declarou a fotógrafa Ayana Wyse, uma das mobilizadoras de Kansai, ao jornal The Japan Times.

Historicamente invisibilizados, japoneses negros são tratados como mestiços e não como japoneses per se — ainda que tenham nascido e vivido a vida inteira no arquipélago asiático. Em vez de "nihonjin", que quer dizer "japonês", eles são designados "hafu", expressão que deriva da palavra inglesa "half", isto é, metade.

Há milhares de milhas de distância entre o que significa ser mestiço no Japão e no Brasil. Enquanto aí se construiu o mito da democracia racial a partir da miscigenação e da heterogeneidade étnica, aqui se arquitetou o mito da homogeneidade étnica — que supõe que ser japonês "de verdade" é corresponder a três expectativas: o fenótipo (os olhos puxados, a cor amarela), o domínio da língua e a presença no território. Isto é o que definiria o "nihonjinron", a identidade nipônica.

"Apesar da narrativa majoritária de homogeneidade racial e cultural que exclui a existência de minorias, o Japão é o lar de diversas populações", destaca o historiador Michael Weiner no livro "Japan's minorities: The illusion of homogeneity" (Routledge, 2008), que aborda a realidade de minorias presentes nas ilhas como o povo indígena ainu, os burakumins e os okinawanos.

A invisibilidade às minorias é tão arraigada que até a NHK, a emissora pública do país, vacilou e veiculou um vídeo animado sobre o Black Lives Matter retratando negros como avatares bravos, bradando por ruas sombrias e sem contextualizar a violência policial. Após acusações de racismo, a agência pediu desculpas e retirou a animação do ar.

"Há uma movimentação no mundo inteiro sobre o Black Lives Matter, mas o Japão muitas vezes fica alheio a essas discussões. Os japoneses precisam saber que isso acontece - e que isso não pode acontecer", diz ao TAB Raimu Kaminashi, a modelo japonesa negra que ilustra esta reportagem.

A violência policial não é tão presente aqui. Mas há uma violência velada e simbólica, a discriminação no dia a dia.

Raimu Kaminashi, modelo

Jovens como Ayana, Sierra e Raimu vêm desmascarando o mito da homogeneidade étnica e, a certo ponto, questionando o que é, afinal, ser japonês "de verdade".

'Black is beautiful'

Kaminashi, de 23 anos, trabalha em uma empresa de tecnologia de informação em Tóquio e, no paralelo, atua como modelo. Filha de pai nigeriano e mãe japonesa, nasceu na Nigéria, mas se mudou para o Japão aos sete meses de idade. Ela cresceu na província de Gifu, viveu e vive até hoje aqui no arquipélago - é uma cidadã japonesa. "Tudo que está acontecendo me diz respeito: discussões sobre identidade, imigração, racismo", conta.

Na infância, Kaminashi notou que era "diferente" — o que a isolava, pois poucos compreendiam, afinal, o que era ser uma criança negra no Japão. Na adolescência, o complexo de inferioridade se intensificou: ela não se via mais só diferente, mas "menor" que os outros japoneses. Depois, destaque no atletismo no colegial, Kaminashi conquistou uma bolsa de estudos para a Universidade de Osaka Seikei, já movida por um objetivo: tornar-se um modelo para os jovens japoneses negros. "Para que as próximas gerações de japoneses descendentes de africanos saibam que a negritude é linda, sim, que é motivo de orgulho. É uma identidade japonesa 'nova', que inclui indivíduos como eu — e que deve ser mostrada para o mundo", diz, durante entrevista realizada por Line.

Kaminashi sonha em disputar o Miss Universo e levar três mensagens muito além do discurso de "paz mundial": primeiro, racismo existe; segundo, se racismo existe é preciso apostar nas ações antirracistas; e, por fim, entre as ações antirracistas é preciso defender a diversidade e as minorias. "Um Japão onde todos, literalmente todos, possam livremente buscar seus sonhos", define.

A faixa de miss foi laureada a uma japonesa negra uma vez. Foi Ariana Miyamoto, de 26 anos, a Miss Japan Universe de 2015, filha de pai afro-americano e mãe japonesa, nascida em Sasebo (Nagasaki). Na época, Miyamoto foi alvo de críticas por não ser "100% japonesa". "Quero começar uma revolução. Não posso mudar as coisas do dia para a noite, mas daqui 100, 200 anos, haverá poucos japoneses 'puros — então precisamos mudar o jeito que pensamos", declarou na época.

Ariana Miyamoto - Reprodução/ Facebook - Reprodução/ Facebook
Ariana Miyamoto
Imagem: Reprodução/ Facebook

Atualmente, o maior ícone que vem rompendo padrões imaginários de identidade japonesa é Naomi Osaka, de 22 anos, estrela internacional do tênis e aposta olímpica para os jogos de 2021. Nascida em Osaka, filha de pai haitiano e mãe japonesa, ela vive em Los Angeles, protestou em Minneapolis e se manifestou fortemente pró-Black Lives Matter no Twitter - e também se tornou alvo de discursos nipônicos nacionalistas, uns questionando sua nacionalidade, outros negando a existência de racismo no Japão.

E existe. O sociólogo Shimoji Lawrence Yoshitaka, autor do livro "Konketsu to Nihonjin" (Seidosha, 2018) e do projeto Hafu Talk, por exemplo, reúne diversos depoimentos de japoneses de etnia mista e multicultural. "Não é tão ruim se me perguntam se sou hafu. Mas há quem me pergunte diretamente 'de onde eu sou'. Ainda que eu diga que eu sou japonês, eles não aceitam" foi o relato de um eletricista, filho de pai americano e mãe japonesa. "Não podemos contratar um negro, é impossível" foi a resposta dada a um aspirante a segurança, filho de mãe ganesa e pai japonês.

No arquipélago de 127 milhões de habitantes, há 2,93 milhões de residentes estrangeiros - entre eles, 810 mil chineses, 440 mil sul-coreanos e 410 mil vietnamitas, segundo dados divulgados neste ano. O censo considera "japonês" quem possui nacionalidade japonesa, mas não pergunta etnia ou cor, o que reforça a ilusão de homogeneidade étnica da sociedade.

"No pós-guerra, a ideologia de superioridade se transformou em um discurso mais 'aceitável' que destaca simplesmente a singularidade do povo. A ideia de Japão como estado monoétnico é uma expressão dessa ideologia. Acadêmicos e intelectuais, assim como políticos, empresários, elite e mídia, comumente ancoram discussões sobre sociedade e cultura japonesa na presunção de uma crença muito difundida do mito da monoetnicidade ou homogeneidade social", escreveu Stephen Murphy-Shigematsu, na revista acadêmica americana Melus, na década de 1990. Segundo Murphy-Shigematsu, a narrativa invisibiliza as minorias e camufla a discriminação presente no país. "Se não há minorias, não há discriminação", ironiza.

'Deru kui wa utareru'

Junho também marcou os 30 anos da imigração brasileira no Japão. Hoje, há cerca de 200 mil brasileiros vivendo nas ilhas japonesas.

Ascendência é um dos critérios para conseguir o visto de residência. Em 2018, o governo abriu a possibilidade de residência para jovens descendentes "yonsei", bisnetos de japoneses nascidos em diversos países, incluindo o Brasil. Até então, o visto era possível apenas a postulantes "nissei" (filhos de japoneses) e "sansei" (netos de japoneses).

Privilegiar os "nikkeijin" (descendentes de japoneses nascidos fora do Japão), critica Helen Aracena no estudo "Blasian and Proud" (Bard, 2017), indica a tentativa de preservar a tal homogeneidade. "A ideia de que nipo-brasileiros se ajustariam à sociedade japonesa devido a sua ascendência esfumaça a linha entre etnicidade e raça. Há a expectativa de que quem possui traços físicos asiáticos compreenda a cultura japonesa, esquecendo-se que a cultura dos nikkeis nos seus próprios países e quanto tempo cada família passou fora do Japão. Quem não consegue demonstrar conhecimento da cultura japonesa é frequentemente afastado e não é visto como japonês 'de verdade'", escreve a autora.

É uma sensação de incompletude, define a antropóloga nissei Regina Yoshie Matsue, que estudou na Universidade de Tsukuba entre 1998 e 2006. Ao longo de oito anos, a acadêmica viveu episódios de inadequação, inclusive no campus, um dos que mais recebe estudantes estrangeiros no país. Um deles é emblemático: a entrevista para ingressar no doutorado.

Matsue cumpriu à risca o dress code formal: camisa branca básica, terno e sapatos pretos. De extra, apenas um perfume francês. Dias depois, foi informada de sua aprovação e foi comunicar a notícia a seu orientador. Ao recebê-la, o professor relatou "profundo constrangimento" por ela ter passado perfume, o que seria inadmissível para uma acadêmica séria, pois indica um caráter fútil. O "deslize", disse o professor sênior, era motivo de recusá-la como doutoranda mas, como ela foi educada como "latino-americana", ele pediu que "as feministas lhe dessem a chance e a aceitassem como aluna".

O relato da antropóloga, atualmente docente na Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), foi publicado revista acadêmica Mana, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). O texto destaca um ditado que traduz a mentalidade de corresponder às expectativas japonesas: "Deru kui wa utareru" ("o prego que se destaca será martelado") — isto é, quem se diferencia é criticado.

Rai Kaminashi  - Reprodução/ Instagram - Reprodução/ Instagram
Rai Kaminashi
Imagem: Reprodução/ Instagram

É cristalino o olhar de desapontamento de japoneses quando se dão conta de que não sou japonesa. Nissei, tenho traços asiáticos muito marcados. Mas o fenótipo é traiçoeiro: no Brasil, nós, amarelos, muitas vezes somos tratados como eternos estrangeiros; no Japão, também somos vistos como forasteiros pois, além de se julgar o visual, é especialmente alta a expectativa para que nikkeis dominem idioma, ideias e idiossincrasias locais. Os nipo-brasileiros, escreve Matsue, vivem um tipo de diáspora dual (eram "japoneses no Brasil" e são agora "brasileiros no Japão").

Volte para o topo. Negra e nascida na Nigéria, Kaminashi viveu a vida toda no Japão. É mais japonesa do que eu jamais serei.

Entretenimento