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Como músicas de 'Casa de Papel' e Chico Buarque viraram trilha de panelaços

20.mar.2020 - De máscara, presidente Jair Bolsonaro (sem partido) participa de videoconferência com empresários - Isac Nóbrega/PR
20.mar.2020 - De máscara, presidente Jair Bolsonaro (sem partido) participa de videoconferência com empresários Imagem: Isac Nóbrega/PR
do UOL

Do UOL, em São Paulo

03/04/2020 04h00

Os panelaços contra Jair Bolsonaro (sem partido), que vêm acontecendo há duas semanas em várias cidades do país, estão mostrando a indignação de parte da sociedade com a forma como o presidente conduz a crise provocada pelo coronavírus. As manifestações resgataram duas canções clássicas que estão servindo como trilha sonora para batuques de louça: "Bella Ciao" e "Apesar de Você", dois hinos contra o autoritarismo repletos de personagens, versões e histórias —e elas não começaram nas janelas e varandas de apartamentos.

'Bella Ciao'

Ela se tornou viral como trilha da popular série "La Casa de Papel", da Netflix, mas "Bella Ciao" é muito mais antiga. Durante a Segunda Guerra Mundial, a música de origem italiana serviu de hino de resistência contra as forças fascistas de Benito Mussolini e as tropas nazistas de Hitler, sendo convertida anos depois em cântico no combate ao totalitarismo em geral. Já foi regravada diversas vezes e em vários idiomas, incluindo o inglês, russo, alemão, turco, chinês, japonês e português.

A origem da melodia marcante que agora voltou à baila, no entanto, é incerta. Uma das versões indica tratar-se de uma adaptação de "Oi Oi di Koilen", do acordeonista ucraniano Mishka Ziganoff, que tocava música klezmer, uma tradição musical dos chamados judeus asquenazes/asquenazim da Europa Central e Oriental. Supostamente, ela foi levada por um imigrante aos Estados Unidos no início do século 20 e gravada em Nova York em 1919, antes de ganhar letra.

Há quem acredite que a música nasceu bem antes, a partir de um canto repetido por trabalhadoras rurais temporárias na Itália, provenientes da Emilia Romagna e do Vêneto, no norte do país, que se deslocavam sazonalmente para as plantações de arroz da planície Padana. Trechos da melodia marcante também serviram de base para canções famosas, como "E Picchia Picchia la Porticella" e "Fior di Tomba".

Independentemente da origem, "Bella Ciao" só estourou como ferramenta de protesto nos anos 1960, quando passou a ser entoada em eventos da juventude comunista e em manifestações operárias e estudantis. Posteriormente, virou hit de protestos no Chile, Turquia, Hong Kong, Itália e diversos outros países do mundo, geralmente promovidos pela esquerda e em prol da democracia, e também adotado por movimentos anarquistas.

Não foi por acaso. Os versos fazem uma crítica ferrenha às relações de trabalho e da eventual tirania consequente. No pop, já ganharam a voz da cantora italiana Giovanna Daffini, do cantor francês Yves Montand, além de versões de Andre Rieu, da Banda Bassotti e do grupo Modena City Ramblers, que também a interpretou durante o tradicional concerto do 1° de maio na praça de San Giovanni, em Roma.

Aos poucos e com o empurrãozinho de "La Casa de Papel", um novo clássico foi criado. Na série, o avô do personagem Sergio Marquin, que era da resistência italiana, teria lhe ensinado a canção, que começou a ser usada pelo grupo da história como forma de manter-se unido, caso o plano de assalto à Casa da Moeda espanhola tivesse problemas.

Trabalhe infame, por pouco dinheiro (adeus, querida, adeus querida, adeus, adeus, adeus querida) / Trabalhe infame, por pouco dinheiro / E sua vida a consumar! / Mas chegará o dia em que todos (adeus, querida, adeus querida, adeus, adeus, adeus querida) / Mas chegará o dia em que todos trabalharemos em liberdade!"

Trecho traduzido de 'Bella Ciao', cuja autoria é incerta

Chico Buarque  - Reprodução - Reprodução
Imagem: Reprodução


'Apesar de você'

É um dos monólitos da MPB e um dos maiores sucessos de Chico Buarque. Assim como "Bella Ciao", "Apesar de Você" também está associada à luta contra regimes totalitários. Lançada em 1970 em compacto e relançada oito anos depois, foi composta por Chico depois de seu exílio na Itália, quando foi convencido pelo então diretor da gravadora Philips, André Midani, a retornar ao país, supostamente apaziguado após o AI-5. Mas o que ele encontrou foi diferente.

A música é um dos casos de letra em que Chico Buarque fala nas entrelinhas, assim como faria em "Cálice". Em uma primeira leitura, o samba trata de uma briga corriqueira de casal, que vem se tornando insustentável. Termos dúbios como "estado" e frases capciosas como "falou, tá falado, não tem discussão" são usados para alfinetar os generais de Brasília.

A ideia do compositor era criticar a violência da repressão das forças policias da época e o que poderia acontecer caso todos estivessem felizes e insistissem em viver da forma como queriam, em liberdade. Os oficiais do departamento de censura, que leram a letra antes de ser lançada, não entenderam o recado, mas o público não demorou a compreendê-la.

"Hoje você é quem manda / Falou, tá falado, não tem discussão / A minha gente hoje anda / Falando de lado e olhando pro chão/ Você que inventou esse estado / Inventou de inventar toda escuridão / Você que inventou o pecado / Esqueceu-se de inventar o perdão / Apesar de você, amanhã há de ser outro dia..."
Chico Buarque em "Apesar de Você"

O compacto rapidamente vendeu milhares de cópias, e, com declarações de Chico Buarque à imprensa, o governo decidiu voltar atrás e censurar "Apesar de Você", que só pôde ser lançada em 1978, no álbum "Chico Buarque", já durante a abertura política. Após o episódio famoso, o compositor ficaria ainda mais marcado pelos generais, tendo dificuldade de divulgar trabalhos e chegando a usar pseudônimos em composições.

"Queriam que eu dissesse que o 'você' [da letra] era o Médici. Mas não era. Era uma generalidade. Era uma citação. Era tudo. Isso é uma vontade que as pessoas tinham de quererem ser mais diretas", disse em entrevista Chico Buarque que, entretanto, nunca negou o que queria com a música. "Não me posiciono como vítima. A ditadura encheu muito o meu saco. Mas eu também enchi o saco deles. E não foi pouca coisa, não."

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