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Som ruim, intimismo e clima de churrasco na laje: como é um festival online

do UOL

Leonardo Rodrigues

Do UOL, em São Paulo

26/03/2020 15h28

Criado para preencher a lacuna cultural deixada pelos cancelamentos e adiamentos de shows no país, o Eu Fico Em Casa, versão brasileira do festival português homônimo, já pode ser considerado uma das maiores iniciativas musicais online já realizadas no país.

Desde a última terça e até a próxima sexta, 80 artistas se apresentam em frente às câmeras de seus telefones celulares, durante 40 horas de músicas transmitidas pelo Instagram, diretamente do conforto do lar de cada um deles, que também estão em quarentena.

Trata-se de uma experiência nova para artistas, público e jornalistas acostumados a cobrir grandes festivais, como o Rock in Rio e o Lollapalooza Brasil --outro grande evento adiado por causa da pandemia de coronavírus--, incluindo o autor deste texto. Mas nem tudo tão é diferente assim --nem tão esquisita como a ideia pode soar em um primeiro momento.

Veja abaixo cinco coisas que aprendi acompanhando o Eu Fico em Casa, que teve como atraçõs o DJ Rennan da Penha e o sambista Dudu Nobre, na noite desta quarta sentado no meu sofá e na minha mesa de jantar.

Como são os shows

Intimistas. Geralmente, com o cantor sentado na cadeira (pode ser sofá, como no caso de Bia Ferreira) e munido de violão, ou de qualquer outro instrumento de acompanhamento. Pode ser o cavaco tocado à perfeição por Dudu Nobre, o cajón do grupo Graveto —que teve integrantes tocando de máscara— ou a pick-up do DJ Rennan da Penha, que encerrou a noite na base do pancadão funkeiro. A sambista Teresa Cristina subverteu ainda mais a ideia de intimismo, apresentando-se apenas na base da palma, e ainda assim fez um dos melhores shows do dia. A audiência variava entre 300 e 2.300 espectadores por show.

Interação

Aí está uma das principais diferenças em relação a um festival tradicional. A maioria dos artistas escolhe interagir com o público nos comentários das lives, que são transmitidas simultaneamente nas contas de Instagram de cada um deles e no canal do festival no YouTube. Essa troca funciona melhor que ao vivo. O cantor pode encontrar um velho conhecido nos comentários — aconteceu com Dudu Nobre—, pode mudar as músicas que programava tocar —muitos fizeram isso— ou simplesmente dar um salve para o fã do interior do Maranhão que pediu para ser citado, já que era aniversário dele. A vibe é descontraída, como em um grande churrascão com entrada livre.

Reprodução
Imagem: Reprodução

O problema da experiência

Nenhuma transmissão, por mais intimista e empolgante que seja, é capaz de reproduzir a sensação de estar em um show de verdade. Ponto. Mas uma questão específica torna a experiência do festival virtual ainda mais frustrante: a qualidade de imagem e som. As transmissões são caseiras, com som em baixo volume, na maioria das vezes não microfonado. O sinal também é falho, especialmente no YouTube. Os shows de Teresa Cristina e Bia Ferreira tiveram dezenas de interrupções e estavam praticamente inassistíveis. Na terça, as duas últimas lives não aconteceram por problemas técnicos.

O que é igual

O coro dos artistas pedindo o afastamento do presidente Jair Bolsonaro, um hino extra-oficial de todos os grandes festivais recentes no país, que também reverberou no Eu Fico Em Casa. Os pedidos do presidente para a população voltar à rotina, em meio a "gripezinha" do coronavírus, contrariando os principais órgão de saúde do mundo, foi lembrada pelos músicos. Rennan da Penha resumiu o sentimento. "Vocês viram a quantidade de mortos, e vocês vão sair de casa?", perguntou.

Não dê ouvidos a quem diz que vocês devem sair. Fique em casa. Sei que é difícil, que todo mundo tem uma vida. Mas por enquanto é necessário.

"Fado" sensato.

Reprodução
Imagem: Reprodução

Vale a pena acompanhar?

Para quem não gosta de enfrentar fila para ir ao banheiro (e alguém gosta?), não suporta ter que enfrentar uma multidão inerte na hora de comprar um lanchinho superfaturado, aquele com gostinho de shopping, e sempre reclama da distância do palco ou do telão, assistir a um festival dentro de casa não é lá uma má ideia. Muito pelo contrário.

Você não esbarra nas pessoas (só nos seus móveis, talvez), não precisa respirar a fumaça do cigarro alheio e ainda pode fazer várias outras atividades importantes na vida de uma pessoa em quarentena, como cozinhar, ler e até se exercitar. Cantar junto e compartilhar um momento único de epifania com outros fãs? Você pode tentar, mas provavelmente não vai conseguir. Mas pense que é tudo de graça, do ingresso ao estacionamento.

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