Topo

Chuva de lula em Watchmen, nova série da HBO? A gente explica o que é

Primeiro episódio de Watchmen, da HBO, teve chuva de lulas; entenda - Reprodução
Primeiro episódio de Watchmen, da HBO, teve chuva de lulas; entenda Imagem: Reprodução
do UOL

Mariana Tramontina

Do UOL, em Nova York*

21/10/2019 09h53

Watchmen, nova série da HBO que estreou ontem, é recheada de referências lançadas especialmente para os fãs da HQ de Alan Moore e Dave Gibbons, que serviu como inspiração para a produção de Damon Lindelof. Muitas delas explícitas, algumas sutis, e outras para confundir. E mesmo quem tenha assistido ao filme de 2009, dirigido por Zack Snyder, pode ter ficado perdido com um acontecimento aleatório deste primeiro episódio: uma chuva de lulas.

Na cena, Angela Abar (Regina King) está dirigindo seu carro, conversando com seu filho Topher (Dylan Schombing) quando, de repente, uma sirene começa a tocar na cidade. Angela encosta o carro, enquanto pedestres saem correndo em busca de proteção. O céu escurece e uma tempestade de pequenas lulas começa a cair do céu. A chuva dura poucos minutos, o tempo abre novamente, e Angela sai para limpar o para-brisa. A vida volta ao normal.

A tempestade, que não foi explicada neste primeiro episódio (e nem será nos próximos três, os quais o UOL assistiu), é tratada pelas pessoas da cidade de Tulsa, em Oklahoma, como algo recorrente — há até caminhões de limpeza de rua destinados especificamente para esse fim. Mas o que está por trás disso?

Na HQ, Adrian Veidt, o Ozymandias, forjou uma invasão alienígena em Nova York em busca da paz mundial: ele criou uma Lula Gigante Interdimensional, geneticamente modificada, para atacar Manhattan. O evento matou 3 milhões de pessoas. EUA e União Soviética, então prestes a enfrentar uma guerra nuclear, cessaram os embates para se unirem contra essa ameaça de outra dimensão (uma ideia que foi completamente abandonada no filme de Snyder). Todos esses acontecimentos foram mantidos por Lindelof, que criou a trama da série para ser uma continuação dessa história, se passando três décadas depois.

Regina King em cena de Watchmen, da HBO - Divulgação
Regina King em cena de Watchmen, da HBO
Imagem: Divulgação

"[A chuva de lulas] É uma referência a um evento que remete a algo como foi o 11 de Setembro. Como fica o mundo 30 anos depois que algo dessa dimensão acontece? As pessoas falam: 'Onde eu estava quando isso aconteceu? Bem, ok, hora de voltar para o meu dia'. Então para mim era interessante chegar a um momento, culturalmente, em que lulas chovendo do céu seria só um incômodo, e não algo horrível para o mundo", disse Lindelof em uma conversa com jornalistas em Nova York, do qual o UOL participou.

As lulas parecem mesmo fazer parte do cotidiano. No começo do primeiro episódio, há um jornal com a manchete "Adrian Veidt é oficialmente declarado morto" e uma pequena notícia sobre uma "chuva de lulas destrói acampamento de sem-teto". Na sala de aula, há um cartaz sobre a anatomia de uma lula.

Há uma outra cena menos explícita: quando o policial mascarado Looking Glass (Tim Blake Nelson) interroga um suspeito, uma lula aparece na tela atrás dele, e ele pergunta ao sujeito: "Você acredita que ataques transdimensionais são farsas forjadas pelo governo americano?". O questionamento levanta a ideia de que, talvez, algumas pessoas não acreditem que o ataque à Manhattan tenha acontecido. Fake news? Ou a população estaria negando sua própria história e o passado? "É interessante que a gente já tenha se acostumado com tanta coisa ridícula que vai deixando de parecer ridícula só porque se tornou parte do nosso dia a dia. No fim, é tudo barulho", disse Lindelof.

Inspiração para chuva de lulas

A diretora do primeiro episódio, Nicole Kassell, lembrou que, quando leu sobre a tempestade de lulas no roteiro, achou estranho e selvagem, mas também palpável. "Eu cresci na cidade de Iowa, e treinamentos para dias de tornado faziam parte do nosso dia a dia. Damon viveu em Los Angeles, onda há tremores. Então um tremor de terra passa a ser apenas inconveniente. Mas, claro, há sempre o risco de um grande problema", disse ela, revelando que a cena foi criada inteiramente por computação gráfica.

Nicole contou que sua inspiração visual para este primeiro episódio, chamado "É verão e Estamos Ficando sem Gelo", foi uma jornada pelo tempo. "Do filme mudo que abre o episódio passamos para 1921, e então para 2019. Eu tinha na cabeça O Conformista [filme de Bernardo Bertolucci, 1970], Filhos da Esperança [Alfonso Cuáron, 2006], Blade Runner e um clipe da Rihanna. E eu não tinha lido a HQ ainda", disse ela, aos risos, citando ainda como referências Apocalypse Now e trabalhos do cineasta chinês Wong Kar-wai.

O mundo de Watchmen, em 2019, é diferente: a começar pelo fato de que não existe internet. E não só isso. "Os carros são elétricos, o som dos veículos é diferente. E não há plástico. O cara que está bebendo Coca-Cola, por exemplo, usa copo de papel. Eu fui influenciada pela ideia do que sei sobre Cuba, de que as coisas são reutilizadas até que não possam ser mais usadas. Então há todo esse tema ambiental. Nós temos uma nova bandeira americana, e também a influência asiática na cultura e na vida doméstica".

*A jornalista viajou à convite da HBO

Entretenimento