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Olga Tokarczuk e sua literatura sempre em movimento

10/10/2019 09h37

Varsóvia, 10 Out 2019 (AFP) - Prêmio Nobel de Literatura 2018, Olga Tokarczuk, considerada a romancista mais talentosa de sua geração na Polônia, transporta o leitor em uma busca pela verdade através de universos policromáticos, misturando com delicadeza o real e o metafísico.

Politicamente engajada à esquerda, ecologista e vegetariana, a escritora de 57 anos, cuja cabeça é coberta de dreadlocks, não hesita em criticar a política do atual governo nacionalista conservador de Direita e Justiça (PiS).

Nascida em 29 de janeiro de 1962, em uma família de professores em Sulechow, no oeste da Polônia, é autora de uma dúzia de livros.

Formada em Psicologia na Universidade de Varsóvia, estudou os trabalhos de Carl Jung. Por um tempo, trabalhou como psicoterapeuta em Walbrzych (sudoeste) e lançou-se à escrita. Publicou então uma coletânea de poemas, antes de embarcar na prosa.

Após o sucesso de seus primeiros livros, passou a se dedicar inteiramente às letras e se mudou para a cidade de Krajanow, nas montanhas Sudeten (sudoeste). Hoje, seus livros são best-sellers na Polônia, traduzidos para mais de 25 idiomas, incluindo catalão e chinês. Muitas de suas obras foram levadas aos palcos e telas.

Sua obra, extremamente variada, vai de um conto filosófico "Zielone dzieci" ("As crianças verdes", em tradução livre, 2016), a um romance policial ecologista engajado e metafísico "Prowadz swój plug przez kosci umarlych" ("Guie seu arado sobre os ossos dos mortos", em tradução livre, 2010), passando por um romance histórico de 900 páginas "Ksiegi Jakubowe" ("Escrituras de Jacó", em tradução livre, 2014).

No Brasil, foi publicado em 2014 apenas um título em português da escritora, "Os Vagantes" ("Bieguni").

- Enorme quebra-cabeça -Em seu universo poético, o racional se mistura com o irracional. Seu mundo está em movimento perpétuo, sem ponto fixo, com personagens cujas biografias e características se entrelaçam e, como um quebra-cabeça gigante, criam uma imagem geral esplêndida.

Tudo é descrito em uma linguagem rica, precisa e poética, atenta aos detalhes.

"Olga é uma mística na busca perpétua da verdade, verdade que só pode ser alcançada em movimento, transgredindo as fronteiras. Todas as formas, instituições e idiomas concertados é a morte", explica à AFP uma de suas amigas, Kinga Dunin, também escritora e crítica literária.

A própria Tokarczuk se descreve como uma pessoa sem biografia: "Eu não possuo uma biografia muito clara, que possa contar de uma maneira interessante. Sou composta desses personagens que saíram da minha cabeça, que eu inventei. Sou composta por todos, tenho uma biografia com muitas molduras, enorme", afirmou a escritora em entrevista ao Instituto Polonês do Livro.

Lançado em 2014, "Ksiegi Jakubowe" conquistou o mais prestigioso prêmio literário polonês Nike, o segundo de sua carreira.

O livro se tornou best-seller na Polônia, mas também foi alvo de fortes ataques dos círculos nacionalistas.

Após uma entrevista à televisão pública em 2015, onde denunciou o mito de uma Polônia tolerante e aberta, ela recebeu ameaças de morte por "difamar o bom nome da Polônia e dos poloneses".

Durante uma semana, sua editora contratou um segurança para ela.

O mesmo livro rendeu - a ela e a seu tradutor sueco - a primeira edição do Prêmio Literário Kulturhuset Stadsteatern de Estocolmo.

"Sinto como se tivesse o Nobel", disse na ocasião.

Olga Tokarczuk também é coautora do roteiro do filme "Spoor", dirigido por Agnieszka Holland e inspirado em seu romance "Prowadz swój plug przez kosci umarlyc". Lançado em fevereiro de 2017, o filme ganhou o Prêmio Alfred Bauer na Berlinale no mesmo ano e representou a Polônia na disputa pelo Oscar de melhor filme estrangeiro.

Olga Tokarczuk tem um filho adulto. Ela divide seu tempo entre seu apartamento em Wroclaw, sua casa no campo e as muitas viagens.

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