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"Nossos inimigos são as associações de ultradireita", diz produtor Rodrigo Teixeira

Rodrigo Teixeira em coletiva do filme "O Animal Cordial" - Divulgação
Rodrigo Teixeira em coletiva do filme "O Animal Cordial" Imagem: Divulgação
do UOL

Beatriz Amendola

Do UOL, em São Paulo

14/08/2019 12h06

Iniciativas de fomento ao audiovisual brasileiro e a própria existência de Ancine (Agência Nacional de Cinema) foram colocadas em xeque nas últimas semanas, após o presidente Jair Bolsonaro falar sobre a intenção de extinguir o órgão. Mas na opinião de Rodrigo Teixeira, produtor responsável por filmes como Me Chame Pelo Seu Nome e A Bruxa, não está no governo federal o principal obstáculo do setor.

"Nosso inimigo não é o Ministério da Cidadania nem a Secom [a Secretaria de Comunicação Social]; nossos inimigos são associações de ultradireita. Essas pessoas vão se manifestar de alguma forma contra a gente, propondo censura ao conteúdo que a gente está fazendo", disse Teixeira, hoje, durante o Encontro do Setor Audiovisual Brasileiro, em São Paulo, referindo-se a grupos que exercem pressão dentro do governo de Bolsonaro.

Teixeira faz parte de um grupo de produtores que esteve ontem em Brasília para se reunir com Osmar Terra, ministro da Cidadania - ministério ao qual a Ancine passou a se reportar após o fim do Ministério da Cultura. Também estiveram presentes no encontro nomes como Fabiano Gullane (Bingo - O Rei das Manhãs), Beto Gauss (Coisa Mais Linda) e Pedro Buarque (Vai Que Cola).

"Esse governo está aceitando dialogar muito mais do que a gente imaginava. O ministro deixou claro que essa conversa permitiu a ele conhecer mais o mercado", contou o produtor, que com sua RT Features se tornou figura constante em premiações como o Oscar e o Festival de Cannes.

Para ele, a principal batalha a ser travada pelo setor nos próximos três anos de governo estará ligada ao conteúdo das obras - vide a controvérsia que se formou em torno de Bruna Surfistinha (2011), citado por Bolsonaro como exemplo de filme que não poderia ser financiado com recursos públicos, "em respeito às famílias".

"Vamos ter uma batalha com o conteúdo. Se a tentativa de censura for algo que existir, a gente vai combater. A gente vai combater produzindo esses filmes com ou sem o incentivo. A Constituição não permite a censura, mas tem mecanismos que podem ser usados para censurar".

Diálogo

Teixeira defendeu que produtores e outras categorias do audiovisual nacional mantenham um diálogo aberto com o governo como forma de garantir a proteção à indústria, que gera aproximadamente 300 mil empregos, diretos e indiretos, com uma receita anual de cerca de R$ 25 bilhões, que corresponde a 0,5% do PIB, segundo dados do Sicav (Sindicato Interestadual da Indústria do Audiovisual).

É a opinião, também, da cineasta Laís Bodanzky, diretora da Spcine, a empresa que cuida do fomento e do desenvolvimento do audiovisual na cidade de São Paulo. "Essa ventilação de quem somos nós para o governo federal e para os parlamentares também é importante para o setor, porque as notícias são positivas e muito boas", disse ela ao UOL. "Essa forma formal de explicar quem somos nós nos alimenta e nos dá mais força para a gente entender que não tem como você interromper um setor tão grande e tão forte."

Já foi pedido, inclusive, um encontro com o ministro Osmar Terra para continuar a discutir a situação da indústria do audiovisual nacional -- que além da produção de filmes envolve também uma extensa cadeia que envolve exibidores, distribuidores, séries de TV e games. "A gente já havia feito um pedido de reunião junto ao ministro e aos secretários. Estamos aguardando a data", explicou Bodanzky.

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