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Mudança em patrocínio da Petrobras coloca sob risco teatro de 85 anos

do UOL

Michel Alecrim

Colaboração para o UOL, no Rio

22/05/2019 12h51

O Teatro Rival, na Cinelândia, centro do Rio, vive uma crise desde que a Petrobras resolveu mudar sua política de patrocínios. Uma das casas de espetáculo mais tradicionais do Rio de Janeiro, o teatro recebeu o aviso de que teria os repasses previstos em contrato interrompidos imediatamente, o que comprometeria a manutenção mínima do espaço. A notícia foi passada pessoalmente às atrizes Ângela e Leandra Leal, na sede da empresa. Mãe e filha procuram agora uma alternativa jurídica para evitar uma ruptura drástica.

"Compreendo que o governo está mudando a linha da empresa e que o Rival não cabe mais na nova diretriz. Mas não podem cortar assim de uma hora para outra. Não podem matar a cultura", afirmou Ângela.

Segundo ela, o contrato anual no valor de R$ 1 milhão terminaria em junho do ano que vem. Há um acordo de exclusividade e o nome da estatal é exposto junto ao da casa. A verba representa 35% das despesas fixas do lugar, que agora pode ter até que demitir funcionários.

"O Rival é uma empresa familiar em todos os sentidos. Não só por pertencer a uma família, mas porque conheço os funcionários há décadas e vi seus filhos crescerem e entrarem na faculdade. Seria muito triste tomar uma decisão dessas de ter que cortar", contou Ângela, que herdou o teatro do pai, o empresário Américo Leal.

Em março, o teatro comemorou seus 85 anos de fundação e vinha mantendo sua programação normalmente, mas depois do anúncio do destrato com a estatal, novos shows já precisam de uma adaptação. A apresentação da bailarina Ana Botafogo e do dançarino Carlinhos de Jesus, por exemplo, terá que ser custeada só com a bilheteria. A direção da casa deve cortar anúncios na mídia, por se tratar de uma contrapartida junto à própria Petrobras para dar visibilidade ao patrocínio.

A Petrobras informou através de nota que "está revisando sua política de patrocínios, em alinhamento ao posicionamento de marca da empresa, com foco em ciência e tecnologia e educação, principalmente infantil". De acordo com o comunicado, "o orçamento para patrocínios, assim como diversas outras áreas, sofreu redução à luz do Plano de Resiliência divulgado no dia 8/3/19 e, por esta razão, alguns contratos estão sendo reavaliados e poderão ser descontinuados". A assessoria de imprensa não confirmou a ruptura imediata com o Rival nem informou como ficariam os repasses daqui para frente.

Ângela garante que só tem como manter o teatro funcionando se conseguir um outro apoiador, provavelmente privado. Para ela, dificilmente o governo do Estado do Rio ou a prefeitura dariam apoio à linha do teatro. "Apoiamos a memória, a história e a diversidade. O Rival é a cara do Rio. Mas os governos têm outra linguagem", disse a atriz, que conseguiu seu primeiro patrocínio junto à Petrobras no governo Fernando Henrique, há 18 anos.

Tanto mãe quanto filha têm um posicionamento político público de esquerda. Durante a campanha presidencial de 2018, Leandra foi bastante atuante a favor do movimento Ele Não, contra a eleição do presidente Jair Bolsonaro. A atriz gravou vídeo, em convocação para as manifestações, e o compartilhou em suas redes sociais. Nele ela diz: "Ele Não porque eu não posso compactuar com o ódio, com a violência, com a tortura, com a negação da História, com o machismo, com a homofobia, com o racismo".

Também pode estar causando incômodo à linha conservadora do governo a programação do teatro. Já para o dia 27 de junho, véspera do Dia do Orgulho LGBTQI, está marcada nova apresentação do espetáculo "Le Circo de La Drag", com a participação de drag queens. "Rival Rebolado" foi outro musical que também reverenciava a diversidade, através de números com transformistas e vedetes.

Quando soube da notícia do corte, o musicólogo Ricardo Cravo Albin ficou estarrecido. Ele já produziu diversos espetáculos no lugar e reconhece não só a tradição da casa, como seu esforço em manter viva a cultura brasileira. "O Rival se especializou em celebrar a memória e relembrar datas. A cultura sai perdendo, mas a Petrobras também por deixar de se associar a essa linha", afirmou Albin

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